No Rio, concertos eruditos para atrair a juventude

A ladainha é antiga e vem recheada de números convincentes - o público da música clássica está envelhecendo e os jovens não parecem dispostos a ocupar o espaço das antigas gerações nas salas de concerto e teatros de ópera, ao mesmo tempo em que a indústria de gravações dá sinais evidentes de seu desgate, cancelando contratos e vendendo cada vez menos. As previsões são catastróficas - estudo feito nos EUA diz com todas as letras que, em uma geração, 60% das orquestras americanas fecharão suas portas. Fato? Há alguns anos um francês insiste no caminho contrário. Diz que a música clássica pode, sim, atrair os jovens, ser tão popular quanto um concerto de rock e que há um enorme público em potencial a ser conquistado. Seu nome? René Martin, criador de festivais de sucesso como Roque d?Antheron, que reúne anualmente na França os maiores pianistas da atualidade, e La Folle Journée, criado em Nantes e exportado para Espanha, Portugal, Japão e, agora, Rio, onde será realizado do dia 1.º a 3 de junho, com 37 concertos em oito palcos da cidade.Martin esteve no Rio no fim de semana passado. No dia 15 pela manhã, assistiu em Niterói a uma apresentação da Orquestra Sinfônica Nacional, regência de Lígia Amadio, que vai abrir a Folle Journée carioca no Municipal com Nelson Freire solando o Concerto para Piano, de Grieg. ?O entusiasmo do público brasileiro me encantou desde a primeira vez que estive aqui, há dez anos?, diz Martin ao Estado, após o concerto. E conta que foi também o entusiasmo da platéia que despertou nele a idéia para a Folle Journée. Mas de um outro público, na verdade. ?Estava em um show do U2, no meio daquela multidão, 35 mil pessoas, e pensei: por que esses jovens não vão ouvir a minha música?? Alguns anos depois, surgia o festival, com três credos fundamentais. Um: os concertos precisam ser curtos, não mais que 50 minutos; dois: o preço dos ingressos tem de ser baixo; e três: os músicos precisam ser excepcionais e entender que estão a serviço da partitura - os compositores são as estrelas. Outro cuidado: a escolha de temas que unifiquem cada edição e proponham diálogos entre os compositores e as obras apresentadas.A fórmula parece ter dado certo. Alguns números. A Folle Journée (jornada maluca, em português) original realizou em janeiro sua 17ª edição, com o apoio da prefeitura de Nantes e de 55 empresas que, juntas, pagaram 3 milhões; 112 mil ingressos foram vendidos para pouco mais de 300 concertos; jovens de 16 a 22 anos compõem 22% do público; 44% dos pagantes jamais haviam visto um concerto e os números sugerem que uma parcela desse público passou a acompanhar sistematicamente a música clássica: após a criação da Folle Journée, aumentou em 600% a quantidade de assinaturas da Sinfônica de Nantes, que se apresenta regularmente na cidade, fora do festival. Sensibilidade?Nosso projeto dessacralizou algumas idéias preconcebidas sobre o mercado?, diz Martin. ?O mundo da música clássica é muito fechado. E é ele mesmo que cria as barreiras. A palavra-chave é sensibilidade. Ninguém precisa ser especialista para assistir a um concerto. Se a música é boa, vai mexer com as pessoas. A questão é acesso. Vou sempre a shows de rock, jazz, rap. São gêneros que dialogam com nossa época. O que pretendo é mostrar que a música clássica tem muito a nos dizer, precisamos aproximá-la do público?, explica Martin. ?A arte deve fazer parte da nossa vida?, interrompe Helena Floresta, que divide com Teresa Pinheiro a produção da Folle Journée carioca. E Martin completa: ?Não estamos mais acostumados a parar e ouvir. A música clássica nos leva a isso naturalmente, nos ensina a ouvir o outro, a viver em conjunto, o que é extremamente importante nos dias de hoje. E, além disso, o perfil dos estudantes, hoje, é diferente. Antigamente, o músico popular aprendia o instrumento sozinho, com os amigos. Hoje, a maioria vai estudar música em conservatórios. Isso tem conseqüências visíveis. Uma artista como Björk ou uma banda como Radiohead fazem música extremamente sofisticada.?Após o concerto, na mesa de um restaurante em Niterói, Lígia Amadio, Helena e Martin se digladiam sobre papéis, montam programas, escalam os músicos, articulam a programação entre os diversos palcos a serem utilizados durante os três dias de festival. ?Não é possível acompanhar todos os concertos, alguns ocorrem simultaneamente. Claro, cada palco tem a sua vocação, um perfil diferente, mas é preciso tomar cuidado para que um não anule o outro?, observa Helena. Os problemas, no entanto, não param aí. Alguns músicos tocam três, quatro concertos por dia. Martin faz questão de participar de todos os processos de decisão, desde a escolha dos palcos, que ele aproveitou para visitar em sua passagem pelo Brasil, até as peças a serem interpretadas. Helena começa a tentar explicar o procedimento... ?É uma maluquice?, desiste, com um sorriso largo no rosto.

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