No palco, o ministro e o artista Gil se reencontram

De sandálias "alpercatas" (como dizem no Nordeste), e finalmente sem terno, o ministro Gilberto Gil reencontrou-se na noite de sexta-feira com o artista Gilberto Gil e estreou um novo show em pleno exercício do cargo e da criatividade musical. Eletracústico é um espetáculo definido por Gil como "uma mistura bem contemporânea de instrumentos acústicos e elétricos", fundado em novos arranjos para velhos sucessos e sustentado pelo pandeiro eletrificado de Marcos Suzano.Ao longo de um repertório de 22 músicas, o cantor só tocou no assunto política duas vezes, uma delas no finalzinho, e ainda assim en passant. "Tá um pau danado aí na praça por causa dessa história da convergência digital", ele falou, dirigindo-se ao público, já no bis final. "E agora tem essa história de ministério. Mas eu tô contente, tô satisfeito", afirmou. A outra menção ao assunto política foi durante a execução de Soy Loco por Ti, América. Ao fundo, no telão, enquanto Gil cantava, eram exibidas imagens conexas a música e uma dessas imagens era uma pichação com os dizeres "Morra Bush, morra!".Gil apresentou um show moderno, vibrante, insinuante, e promoveu uma releitura revigorante de sambas como A Rita ("do velho Chico, Chico Buarque") e Maria da Penha. Mais - revigorou pérolas de seu próprio repertorio, como Touche pas a mon pote (1985), que andava esquecida. E mostrou as infinitas possibilidades de uma canção-conceito que se tornou piece de resistence de diversos movimentos artísticos, Maracatu Atômico, reinventada por Chico Science e o mangue beat e novamente reconstruída pela banda de Gil no espetáculo Eletracústico.Fez um discurso racial emocionante antes de tocar La lune de Gorée, composta em parceria com José Carlos Capinam. Em plena era da guerra das geladeiras e dos fogões, cantou um tango em homenagem a Argentina, "nossa rival extraordinária no futebol e emoutras coisas, que produziu uma música fantástica, o tango". Tocou Guerra Santa (1995), Asa Branca, Three Little Birds. Revisitou a parceria que criou com Kofi Anan durante show na ONU, e interpretou Imagine (John Lennon), com percussão delicada ao fundo.Voltou para o bis com gás total, reenergizado pela adesão total do público, que só começou a deixar a casa após ter certeza que não haveria mais nenhum número musical. Quando todo mundo foi para a frente esperando forró, ele mandou uma seqüência introspectiva - Drão, Super-homem, a Canção, e O Linho e a Linha (numa versão sambalanço irresistível). Mas, como não é de negar um ansioso pedido, terminou com Barracos, e todo mundo saiu das cadeiras - a Jovem Guarda toda parecia satisfeita, de Rappin` Hood a Luciana Melo, da modette Mariana Weickert à filha Preta Gil, que ganhou beijo na beirada do palco.

Agencia Estado,

14 de agosto de 2004 | 17h48

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