Natália Kikuchi/Divulgação
Natália Kikuchi/Divulgação

No encerramento da temporada, uma interpretação à altura de uma obra emblemática para a Osesp

Pela primeira vez em bastante tempo, Marin Alsop teve uma boa performance, aqui regendo Mahler

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

18 Dezembro 2016 | 20h20

“Vou morrer, para viver!”, o mote da Sinfonia n.2 de Mahler, apelidada “Ressurreição”, tem tudo a ver com a dura realidade que nos cerca. A peça foi escolhida para encerrar a temporada 2017 da Osesp na Sala São Paulo, na última quinta-feira, 15, por seu caráter emblemático na vida da instituição: ela foi executada na inauguração da Sala São Paulo, em 2002, consagrou o renascimento da Osesp, após longo período de penúria. 

Pela primeira vez em bastante tempo, Marin Alsop teve uma boa  performance. Uma noite duplamente feliz. Por ela, que soube conduzir este enorme afresco sonoro com segurança. E pelos músicos. Mahler exige muito de todos os naipes. As dez trompas, os oito trompetes, as duas harpas, a farta percussão, o órgão e as cordas – todos brilhando. Neste quesito, aliás, as madeiras foram irretocáveis. Discretas e eficientes as duas solistas – a soprano Susanne Bernhard e a mezzo-soprano Ingeborg Danz --, assim como os três corais: Lírico Paulista e os dois da casa.

Depois do enorme, tempestuoso e fúnebre Allegro Maestoso inicial, seguiram-se o delicioso Andante moderato, um tipo de valsa popular bem vienense; e o irônico e ambíguo Scherzo, que leva o título “em movimento fluente e calmo”. Neste último, Mahler retoma uma melodia de uma das canções do ciclo A Trompa Mágica do Menino e faz uma alusão ao sermão de Santo Antonio de Pádua aos peixes.

A esta altura, foi inevitável associar nosso momento político e econômico à ironia que embute o sermão de Santo Antonio. Cansado de pregar para os homens, ele foi até uma praia do mar Adriático e pregou aos peixes, que puseram as cabeças pra fora d’água e o ouviram silenciosamente. “Mas nada mudou”, diz a letra da canção. Padre Antonio Vieira, que em 13 de junho de 1654 fez sua versão acidamente política deste sermão, soa mais atual do que nunca. “Vós sois o sal da terra”, diz Vieira aos pregadores (ou seja, o povo), a quem cabe impedir a corrupção. Mas na terra não lhes dão ouvidos, por isso voltam-se para o mar, onde estão os peixes. Que, por sua vez, ouvem silenciosamente, mas nada muda. Os peixes continuam vorazes, devoram-se uns aos outros e, pior ainda, os maiores devoram os menores. Atualíssimo, não?

Não só a Osesp vive dias de desespero, por enquanto ainda mudo. Anunciou sua temporada 2017, mas ainda não tem assegurados os meios financeiros para realizá-la, por causa dos cortes nas verbas. Outras crises são mais rumorosas, como a do Teatro São Pedro, que vê a Banda Sinfônica deixar de existir. Entrementes, o Municipal ainda não resolveu seu imbróglio... mas os peixes grandes continuam se devorando entre si. Morrer para viver?

Cotação: ótimo.

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