Nnenna Freelon arrasa no Montreux edição Brasil

Franco Ambrosetti, o melhor trompetista da Europa hoje, e Nnenna Freelon, a maior revelação do jazz americano atual, deram um banho de técnica e alma para o público do Bourbon Street, na edição Brasil do Montreux Jazz Festival, última quinta-feira. O festival, no geral, está correndo tão bem que o Bourbon prolongou as apresentações para sexta, com T. S. Monk (que já havia tocado na terça-feira), e sábado com Nnenna novamente.O suiço Ambrosetti, que subiu antes no palco, apresentou uma acalentada seleção de composições clássicas e próprias, regadas a um free jazz intimista, bastante técnico e sedutor. Os solos de trompete de Ambrosetti eram simplesmente hipnotizantes, alternando entre variações calmas de músicas já consagradas, como Silli´s Nest, e outras bastante temperadas, como em Latin Rythm. Aliás, foi em Latin Rythm que aconteceu um dos momentos mais empolgantes da apresentação, quando o baterista paulistano Sérgio Hanzi deu um solo espetacular, incrementado até com um tamborim. Destaque para o clarinete do filho Jean Luca, que mostrou um timing impressionante e incitou até alguns duetos com papai Ambrosetti. Uma das composições de Jean Luca, Deborah, figurou entre pérolas de Charlie Parker e Marsalis. O quarteto de Ambrosetti foi completado pelo piano de Thierry Lang e o baixo de outro paulistano, Furio de Castri.Apesar das poucas paradas que Ambrosetti deu no seu show, ele se mostrou bastante simpático com o público. Fez uma brincadeira poli-lingüe com a platéia dizendo, em claro português, que gostaria muito de poder falar melhor nossa língua, e depois perguntando, em italiano, se era melhor daquele jeito, para finalmente se definir pelo inglês. Apesar das músicas longas, a apresentação foi curta no total, com só uma hora de duração. Diva - Come Into My Life, cantava Nnenna Freelon convidando docemente a platéia para a primeira música de seu show, um jazz beat suave e sensual, que já trazia um clima gostoso e alegre que transcorreria até o final. São raras as palavras para descrever a voz de Nnenna, que em suas canções vai de prelúdios ternos e equilibrados até ápices calorosos, cheios de alma e envolvimento. Pode-se dizer que ela é apaixonada por cantar - da mesma forma que quem a escuta se apaixona pelo seu canto. Além dos dotes vocais, o convite de Nnenna também mostrou um pouco a que ela veio. Em meio a Come Into My Life, ela fez um medley com Route 66, Book of Love e Fly Me To The Moon, mostrando que suas influências, desde o blues pop até o jazz orquestrado, não se resumem a Sarah Vaugham, como insistiam em comparar no primeiro álbum, de 1992. O trabalho de Nnenna é muito amadurecido musicalmente, tem um estilo muito próprio, muito forte espiritualmente, como na versão de I Say a Little Pray For You e Close Your Eyes - evidências no show de quinta-feira. Em seu show há muita feminilidade, também. Logo se vê pelo palco, com mulheres no piano e na percussão: Takana Miyamoto e Beverly Botsford, respectivamente. Dois instrumentos que quase sempre estão nas mãos de homens, foram excepcionalmente conduzidos pelas duas, mais o baixo de Wayne Batchelor e a bateria de Woodrow Williams. O último álbum de Nnenna, Maiden Voyage (no Brasil, só importado), é outro exemplo para a fase. Trata-se de uma verdadeira homenagem às mulheres. "Para mim essa música é muito masculina, essa coisa de jazz é um clube do Bolinha. Então, como tenho essa essência de mulher, não posso fingir ser durona como homem - eu só posso ser mais mulher possível e usar minha força feminina", explicou Nnenna. "Mas não quer dizer que estou lutando contra os homens", assegurou. Além de ter gravado clássicos como Four Women de Nina Simone, e Women Be Wise de Sippie Wallace, mulheres participaram da composição de todas as músicas, integral ou parcialmente. A faixa título, Mayden Voyage, foi uma parceria dela própria com o pianista Herbie Hancock, por exemplo.Nas asas do sucesso da crítica e da sua posição "pró-mulher", ela está também gravando a trilha sonora do filme What Women Want, que está sendo dirigido por Nancy Meyers, e conta no elenco com Mel Gibson, Helen Hunt, Bette Midler e Marisa Tomei. O filme é sobre um executivo chauvinista que depois de um acidente ganha a capacidade de saber o que as mulheres estão pensando. "Vou ter que voltar domingo justamente porque tenho que terminar de gravar a trilha", lamentou Nenna, que está extremamente animada com sua visita no Brasil.Hermeto - Nnenna tem espalhado por aí que estava com um pressentimento forte sobre sua vinda para cá. Segundo ela, algo que visse ou ouvisse aqui mudaria sua vida radicalmente. O primeiro nome que ela citou para que acontecesse tal mudança foi de Maria Bethânia. Segundo Nnenna, "ela tem uma voz linda e muito espirituosa". Mas na sexta-feira ela ainda esperava a chance de fazer compras por aqui e poder escutar com mais atenção a música da irmão de Caetano - músico, aliás, quem ela já conhecia e considera um "poeta fabuloso".Ela já sabe que vai ter que voltar outras vezes ao Brasil com mais tempo. Quer visitar melhor o Rio, onde estará se apresentando no Mistura Fina nesta sexta-feira, e ir também a Salvador. Para essa curta temporada, a expectativa mudou-se para o encontro com Hermeto Paschoal, domingo no Parque do Ibirapuera. "Estou esperando uma grande mudança logo que eu possa abraça-lo", disse Nnenna, fazendo um gesto de abraço carinhoso. E é bem aparente esse forte gosto dela pela música brasileira. Diz adorar - além de Caetano e Bethânia - Egberto Gismonti, João Bosco, Elis Regina, Tom Jobim e Milton Nascimento. Inclusive, nosso bom mineiro fez parte de seu show. "Existem algumas músicas que nos tocam bem no fundo do coração, e esta é uma delas", disse Nnenna pouco antes de começar uma versão estonteante de Travessia. "A voz de Milton é uma das coisas mais emocionantes que já escutei, é inexplicável. Tem muita alma e se percebe toda sua sinceridade, não é falsa". E Nnenna certamente não falhou em transmitir tanta emoção. Serviço- Montreux Jazz Festival - Edição BrasilBourbon Street: Sexta-feira, dia 16/06 - T.S. Monk (21h) e Tony Hall & The Heroes (23h); couvert artístico entre R$ 35 e R$ 50. Sábado, dia 17/06 - Nenna Freelon (21h) e Tony Hall & The Heroes (23h); couvert artístico entre R$ 35 e R$ 50.Parque do Ibirapuera: Domingo, dia 18/06 - Franco Abrosetti, Nnenna Freelon, Duofel e Hermeto Pascoal, a partir das 11h; Grátis.

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