Nnena Freelon, bem bossa nova

Já é a segunda vez que Nnenna Freelon vem ao Brasil. Esteve aqui no ramo paulistano do Montreux Jazz Festival de junho de 2000, cantando até na Praça da Paz, no Parque do Ibirapuera. Ainda não era a cantora famosa de hoje, que volta a pisar no palco do Bourbon Street Music Club como a estrela de dois shows integrantes da série Diners Club Jazz Nights, na quarta e quinta-feiras. Há razões de festa brasileira para Nnenna. Seu último CD, Tales of Wonder, da Concord Records, lançado nos Estados Unidos em fevereiro, é o que se pode chamar de um disco verde-amarelo. Dedicado a músicas de Stevie Wonder, um dos seus compositores favoritos (basta lembrar a versão arrebatadora que Nnenna fez de If Its Magic no disco Soulcall), Tales of Wonder usa e abusa de arranjos bossanovistas e chega até ao samba rasgado. Tema de Mel Gibson e Helen Hunt - Sorte nossa, pois a cantora está melhor do que nunca. Entrando na canoa nada furada do crossover, ela se mostra à vontade tanto nos standards mais tradicionais do cancioneiro americano quanto nas incursões ao rhytm and blues, ao funk, ao blues e ao soul-pop. Exatamente, no que diz respeito à segunda vertente, como Wonder, um compositor acima dessas divisões. Falando da linha anterior, basta você pegar um vídeo ou DVD do filme Do Que as Mulheres Gostam e ver Nnenna cantando lindamente If I Had You para Mel Gibson e Helen Hunt namorarem. Nnenna tem planejada para os shows do Bourbon Street uma seleção de faixas do disco novo. Afinal, como ela disse, "Stevie realmente marcou o ritmo da minha geração. Sua música serviu de trilha sonora para as vidas de muitos de nós". Temas para levantar o público - Certamente, Lately (que Gal cantou, mas sem a mesma força), Superstition, My Cherie Amour e All in Love is Fair levantarão o público dos espetáculos. No disco, ela fez a maioria dos arranjos e selecionou músicos de primeira, como o mago dos sopros Garry Niewood, o violão de Chuck Loeb na batida à João Gilberto e o violino de Jason Crosby. Quem for ver Nnenna no Bourbon Street deve guardar uma parte das suas palmas para a fantástica pianista que a acompanha, Tanaka Miyamoto, uma mulher pequenina que empolga ao tocar seu instrumento. Nos shows da cantora sempre há um momento em que Tanaka apresenta um solo. Se ela tocar Body and Soul, será magia pura. Também se deve prestar atenção ao guitarrista barbudo Scott Sawyer, um virtuose do que faz e ao excelente percussionista Beverly Botsford. Completam bem o grupo o baixista Wayne Batchelor e o baterista Woody Williams. Nnenna Freelon tem uma virtude preciosa que é a de dirigir sua carreira com competência. Ela sabe o que quer e produz (ou co-produz) seus discos, da seleção dos músicos à escolha do material que canta. Veterana - se for colocada ao lado das recentes sensações do jazz vocal como Jane Monheit e Norah Jones -, Nnenna se libertou definitivamente do modelito Sarah Vaughan que seguiu inicialmente. Ao menos, pode-se dizer que pelo menos teve bom gosto na escolha de quem imitar. Escapou de quem a via apenas como um rostinho bonito e queria torná-la um clone de Whitney Houston. Ou, na melhor das hipóteses, numa sucessora de Diana Ross. Mas voltando a Sarah Vaughan, foi Ellis Marsalis, o venerando pianista de jazz que é pai do trumpetista Wynton Marsalis, que ao ouvir Neena numa jam session em Atlanta, no ano de 1990, pensou que encontrara uma nova "Sassy". Voz quente e sensual - A garota cantava com sua voz quente e cheia no fórum de jazz da federação de Artes do Sul. Era uma semiamadora, então, que arredondava o orçamento cantando em bares, eventos e festas. Nascida em Cambridge, no Estado de Massachusetts, era mãe de três filhos e funcionária administrativa num hospital de Durham, na Carolina do Norte. Como é quase lugar-comum da vida de quase toda cantora americana, começou cantando na igreja, no caso, a batista de sua cidade. Além de Sarah, era fã de Ella Fitzgerald, e gostava de ouvir as canções de conjuntos como as Chi-Lites e as Spinners. Abrindo shows de Ray Charles - Marsalis ficou tão impressionado com Nnenna que a levou à gravadora Columbia, com uma fita demo. Aí, poderiam ter acabado com sua carreira mal-iniciada. Colocaram a cantora junto de um conjunto de muitas cordas e poucos sopros. Soou apenas como uma imitadora talentosa de Sarah Vaughan. Mais dois discos (um deles o interessante Listen, de 1996) e a cantora assinou com o selo Concord, quando pôde fazer um trabalho mais pessoal e menos curvado às exigências do mercado ou do que achavam que seria o mercado. Aí, tudo começou a dar certo. Ela passou a ser a atração que abria shows de astros como Ray Charles e Al Jarreau, conseguiu emplacar uma indicação ao prêmio Grammy e ganhou o prêmio Billie Holiday da Academia Francesa de Jazz. Em 1998, Nnenna lançou seu primeiro grande disco, Maiden Voyage. Em 2000, o disco Soulcall mostrou sua maturidade como intérprete e rendeu quatro indicações para o Grammy. Nele, Nnenna assumiu a produção total, escolhendo as músicas "que falavam ao meu coração", a partir do spiritual Amazing Grace, passando por um velho sucesso de Nat King Cole, Straighten Up and Fly Right e indo até o standard Paper Moon, que canta a capella com o grupo vocal Take 6. Entre uma gravação e outra, continuou sua carreira de compositora, que, se até agora não foi excepcional, não é de se desprezar. E, na maioria dos seus discos, ela costuma colocar pelo menos uma de suas músicas, o que revela como leva a sério esse talento. Além dos shows no Bourbon, Nnenna faz um workshop, na quinta-feira de manhã, para os jovens percussionistas da ONG Meninos do Morumbi. Em seguida, às 12h30, dá uma canja gratuita no átrio do Centro Cultural Banco do Brasil. Serviço: Nnenna Freelon. Quarta e quinta-feiras, às 22h. Bourbon Street Music Club (R. dos Chanés, 127, tel. 5561-1643. Ingressos: de R$ 65 a R$ 120. Na quinta, às 12h30, no Centro Cultural Banco do Brasil (R. Álvares Penteado, 112, centro, tel. 3113-3651. Grátis.

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