EDUARDO NICOLAU/ESTADÃO
EDUARDO NICOLAU/ESTADÃO

Nizan Guanaes tenta mobilizar artistas para ajudar João Gilberto

Sem dar nomes, empresário diz que está em contato com vários artistas para promover uma homenagem ao compositor

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2018 | 21h38

Fã de João Gilberto, o publicitário Nizan Guanaes está tentando mobilizar artistas  para ajudar o cantor, que passa por dificuldades financeiras e de saúde. Nizan ainda não tem nada fechado, mas espera poder contribuir para o bem-estar do criador da batida da bossa nova.

"Estou vendo todas as possibilidades. O João é um patrimônio do Brasil e da humanidade, e muita gente quer ajudar. Mas é uma situação muito complexa e difícil, que envolve família, credores, processos judiciais... Estou falando com muitos artistas, especialmente com os baianos, e todos querem ajudar", disse Nizan, baiano como João, sem dizer quem já se comprometeu. 

O músico já está sendo auxiliado por Caetano Veloso e Chico Buarque, que mantêm longas relações de afeto e admiração com ele e lhe dão suporte sem fazerem alarde. Aflito com as notícias sobre a penúria do cantor, Nizan quer contribuir para "resolver as questões que estão impedindo o João Gilberto de ter o conforto que merece nessa fase de sua vida".

Fundador do Grupo ABC, o empresário viveu em 1999 um episódio controverso: o show de João que abriu o Credicard Hall. O cantor, notório perfeccionista, reclamou do som e acabou vaiado, retrucando ao público: "Vaia de bêbado não vale". 

"Ele foi muito João Gilberto, e reclamou do som com razão. Outros músicos relevariam aquilo, era estreia da casa e nem tudo estava no nível de perfeição joãogilbertiano – um nível, convenhamos, que talvez só as maiores casas de música clássica do mundo alcancem. Naquela noite eu disse que era melhor consertar o som do que consertar o João. As queixas que ele fez lá do palco fizeram tanto barulho que o Credicard Hall entrou no mapa cultural imediatamente, e a casa é um sucesso até hoje", lembra.

"A situação dele é muito triste, e o Brasil precisa encontrar formas de ajudá-lo. Ele é puro 'soft power' brasileiro, admirado no mundo todo, um retrato da excelência que o Brasil pode e deve buscar", defende. "Se ele fosse uma outra pessoa estaria rico com sua arte, mas não creio que o dinheiro tenha sido um vetor importante na sua vida. Ele esteve sempre focado na sua grande arte."

Aos 86 anos, interditado judicialmente pela filha Bebel Gilberto, por apresentar quadro de fragilidade mental, João está morando num imóvel cedido por uma amiga, que prefere não ter o nome divulgado e garante que ele está bem acolhido. 

O músico não tem plano de saúde e acumula dívidas. Segundo a advogada de Bebel, Simone Kamenetz, sua conhecida excentricidade, que o mantém recluso há anos, se acentuou na terceira idade e agora o coloca em risco.

“Ele está doente. Temos todo o cuidado no mundo para chegar ao João e tratá-lo. Bebel está tentando que ele faça exames. Não adianta pegar à força”, explicou a advogada, em entrevista ao Estado na quarta-feira. “O que antes era tido como uma excentricidade (não sair de casa) já se tornou uma condição mental. Piorou com a idade. A capacidade cognitiva dele está muito prejudicada. Ele não tem condições de administrar a própria vida”.

O cantor tem uma hérnia não tratada e, apesar de sentir dor, não se submete a exames. Bebel, que mora em Nova York, recentemente conseguiu que ele fosse assistido por duas médicas, uma geriatra e uma psiquiatra com experiência em idosos. Mas ele ainda requer mais cuidados.

No campo financeiro, possui dívidas do apartamento em que morou no Leblon, do qual saiu recentemente por falta de pagamento e ameaça de despejo. Em março, a Justiça autorizou o arrombamento deste para que João fosse citado quanto ao processo de interdição e também para que seu quadro clínico fosse avaliado devidamente. Mas a porta acabou aberta por uma pessoa próxima, que esperou a equipe mandada pela 5ª Vara de Órfãos e Sucessões de modo a evitar seu constrangimento.

Mais conteúdo sobre:
João Gilberto

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.