Nine Inch Nails reaparece com "With Teeth"

O primeiro CD do Nine Inch Nails em seis anos, With Teeth, não me causou grande impressão. No entanto, quase três meses depois de ser lançado no Brasil pela Universal, ele ainda está na pilha sobre o aparelho de som, a dos ?discos em uso?. Não consigo me livrar dele, arquivando-o, 11 passos adiante, na estante. Por quê? Uma música, só uma música. Escrevo sobre a tal, Right Where It Belongs, porque escrever sobre as coisas é, de certa forma, livrar-se delas.Antigamente, no tempo do LP, um clichê da crítica era escrever que (a compra d)o disco valia por uma ou duas faixas, apenas. Não me lembro se o custo do vinil então era proporcionalmente menor que o do CD hoje. Provavelmente não. De qualquer forma, com a troca de arquivos na internet e os preços atuais, tal conselho já não faria o menor sentido.Right Where It Belongs, 13.ª faixa de With Teeth, soa como uma continuação de Hurt, a fabulosa faixa de The Downward Spiral (1994), que reconquistou notoriedade três anos atrás graças à gravação do já morto Johnny Cash, uma de suas últimas. Com conhecimento de causa, o astro country declarou ser Hurt a melhor música sobre viciados que já ouvira.Quando resenhou With Teeth na revista americana Rolling Stone de 5 de maio, concedendo-lhe três estrelas e meia em cinco possíveis, algo entre o bom e o excelente, Rob Sheffield assim definiu Right Where It Belongs: ?A grande balada de piano ao estilo de Hurt no álbum (...), tão triste que Johnny Cash a deve estar cantando no paraíso.?A importância da versão de Cash para Hurt não pode ser menosprezada na carreira de Trent Reznor - o homem atormentado por trás do projeto gótico-industrialista Nine Inch Nails, ou NIN. Recentemente, o americano da Pensilvânia declarou: ?O reconhecimento que ela trouxe como compositor (...) foi como se eu sentisse um abraço caloroso.?Pois Right Where It Belongs parece uma parte dois de Hurt. Como ela, é uma obsessão construída basicamente por uma frase simples de piano e uma pulsação eletrônica. Se fosse um corpo celeste, seria um buraco negro, sugando toda a luz à sua volta num vórtice de desilusão e desalento. Daí, talvez, eu ainda não ter escapado de sua força gravitacional.Se Hurt descrevia o inferno de um viciado em heroína, Right Where It Belongs fala do paraíso artificial na vida de uma estrela da música, o próprio Reznor, hoje com 40 anos. ?Veja o animal na jaula que você construiu?, provoca a letra. ?Você tem certeza de que lado você está? (...) E se o mundo que você acha que conhece fosse um sonho elaborado??A solidão do artista fica ainda mais patente justamente quando surge, numa das estrofes, o ruído de uma multidão, como numa gravação ao vivo. O tema do mundo das aparências, do ?faço amor com dez mil pessoas e depois vou para casa só? (frase de Janis Joplin), não é novidade no rock, claro. O talento de Reznor para retomá-lo está na sua mão pesada.Penso inclusive que ela se torna mais pesada quanto, supostamente, o NIN é menos agressivo, quanto mais se afasta de ruídos e batidas. (Em With Teeth, aliás, Dave Grohl, dos Foo Fighters, dá uma força nas baquetas.) Canções como Right Where It Belongs doem mais do que, por exemplo, You Know What You Are?, quase Nu-metal.With Teeth não vai decepcionar os fãs do grupo, carentes de lançamentos, fora um disco de remixes e um álbum duplo ao vivo, desde The Fragile (1999). Por ser mais suave que seus três predecessores de estúdio, é provável que o novo CD amplie o público de Reznor, que nele flerta abertamente com as paradas de sucesso em faixas como a radiofônica "The hand that feeds" e a dançante Only. Além disso, quem estiver atrás de uma nova Hurt vai encontrá-la em Right Where It Belongs. Difícil, eu garanto, vai ser se livrar dela.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.