Erik Carter/The New York Times
Erik Carter/The New York Times

Nina Simone salvou a vida de Ledisi. Agora ela está prestando homenagem em álbum

Depois de duas décadas na música, Ledisi fundou sua própria gravadora e ganhou seu primeiro Grammy. Seu último lançamento é uma homenagem a uma artista que lhe trouxe inspiração e salvação

Salamishah Tillet, New York Times

29 de julho de 2021 | 15h22

Mahalia. Patti. Gladys. A cantora de soul e jazz Ledisi já estrelou na pele de cada uma dessas icônicas mulheres negras nas telas grandes e pequenas. Mas Nina Simone é a musicista que salvou sua vida quase vinte anos atrás.



“Ouvi Nina pela primeira vez em 2003”, lembrou Ledisi, 49 anos, numa entrevista por vídeo semanas atrás, de sua casa em Los Angeles, vestindo uma camiseta preta de manga comprida que dizia “Spiritual Gangster”. “Eu estava na minha cadeira de balanço, na minha varanda em East Oakland. Estava deprimida. Foi depois que gravei dois álbuns, mas tinha minhas contas pra pagar, tinha acabado de me divorciar, odiava a região e sentia que não estava crescendo. Então eu decidi: ‘OK. Chegou o dia. Vou embora desta terra”.

Enquanto contemplava a própria morte, uma música no rádio a interrompeu: a versão de Simone para Trouble in Mind.

“Aquilo me deixou louca”, disse Ledisi com entusiasmo, imitando as mãos de Simone ao piano e citando a letra que ela cantava: “Problema na cabeça, estou mal / Mas não ficarei mal pra sempre / porque o sol vai brilhar / Na minha porta dos fundos, algum dia”. Ledisi disse que “só chorou e chorou e, à medida que a música continuava tocando, comecei a me sentir melhor”. Ela sabia que iria sobreviver àquele dia. “Foi quando Nina e eu nos conhecemos de verdade”.

Na última sexta-feira, 23, Ledisi fez uma homenagem à mulher que a trouxe de volta do desespero com Ledisi Sings Nina, um álbum que apresenta sete das canções mais populares de Simone refeitas em arranjos orquestrais, jazz e pop. Elas mostram a diversidade e a profundidade da música de Simone e a extensão e o alcance da voz de Ledisi.

 


A carreira de Ledisi, agora com duas décadas de existência, parecia predestinada. Nascida Ledisi Young, em Nova Orleans, ela vem de uma longa linhagem de músicos negros. Sua mãe, Nyra Dynese, era cantora de soul; seu padrasto, Joseph Pierce III, baterista; e seu pai biológico, Larry Saunders, era filho do artista de blues Johnny Ace e também cantor, mais conhecido por seu single On the Real Side, que lançou sob o nome Prophet of Soul.

Quando Ledisi apareceu pela primeira vez no palco com a Orquestra Sinfônica de Nova Orleans, aos 8 anos, foi uma revelação e uma continuação. Cinco anos depois, sua família se mudou para Oakland, onde mais tarde ela fundou sua banda de funk, Anibade. Em 2000, ela lançou de forma independente seu primeiro álbum solo, Soulsinger: The Revival, e sua sequência, Feeling Orange but Maybe Blue, que gerou forte aclamação da crítica, uma base de fãs e, por fim, um contrato de gravação com a Verve.

Classificada como vocalista de jazz, Ledisi era altamente respeitada dentro de uma indústria que realmente não sabia como comercializá-la. Quando apareceram na primeira cerimônia do Black Girls Rock! televisionada pela BET, em 2010, ela e as sensações de R&B Marsha Ambrosius, Jill Scott e Kelly Price roubaram o show com a apresentação do hino Four Women, de Simone. Ledisi tinha apenas um pedido: que ela ficasse com o final apoteótico da canção sobre Peaches, a impetuosa personagem desta história épica sobre quatro mulheres negras, cada uma marcada por sua idade, cor de pele e resistência a seu trauma racial e sexual.

Quando Ledisi conseguiu seus 34 segundos, ela “fez valer a pena”, disse ela, cantando My name is Peaches! com tanta ferocidade e espírito subversivo que depois voltou para fazer muitas aparições no palco da BET.

“Desde então, tenho um lado meio Nina”, explicou Ledisi. Em 2017, ela incorporou canções do repertório de Simone a seu show com a National Symphony Orchestra (NSO Pops) no Kennedy Center. No ano seguinte, encabeçou um tributo a Simone em Nova Orleans com o baterista Adonis Rose e sua New Orleans Jazz Orchestra, que ela emendou com Nina & Me no Apollo Theatre, um mês depois. Em 2019, estrelou seu próprio show solo, The Legend of Little Girl Blue, sobre ela mesma, sua mãe e Simone; e alguns meses depois, ela prestou homenagem novamente ao acompanhar o maestro Jules Buckley e a Metropole Orkest no Royal Albert Hall de Londres. Em dezembro do ano passado, a PBS exibiu seu primeiro especial de TV, Ledisi Live: A Tribute to Nina Simone.

 


Produzido por Rex Rideout, seu colaborador de longa data, Ledisi Sings Nina é seu décimo álbum de estúdio e o segundo em seu próprio selo, o Listen Back. Está chegando num momento que muitos veem como um reconhecimento há muito esperado: depois de receber 13 indicações ao Grammy ao longo dos anos, ela ganhou sua primeira estatueta, por melhor performance tradicional de R&B, em março por Anything for You. Mas também assinala outro marco: o retorno de Ledisi às suas raízes como cantora de soul e jazz que no final dos anos 1990 vendia seus CDs diretamente para os fãs depois dos shows ou em lojas de discos.

“É um círculo completo para ela”, disse Rideout numa entrevista por telefone, com todo o entusiasmo. “Naquela época, ela era ferozmente independente, não tinha contrato com uma grande gravadora, mas estava vendendo de 40 mil, 50 mil discos por conta própria, direto do porta-malas dela”. E ele continuou: “Agora você tem streaming e as mídias sociais e os artistas podem se conectar diretamente com o público. Ela estava meio que à frente de seu tempo”.

John Legend se lembra de ter ficado maravilhado com Ledisi em 2002, quando ele abriu para ela no clube SOB de Nova York. “Como vocalista contemporânea, não tem quase ninguém no mundo que eu possa pensar que canta com tanta técnica quanto ela”, disse ele. “Em termos de alcance, destreza, clareza, versatilidade, ela pode fazer o que quiser. É uma das grandes cantoras do mundo, ponto final”.



A voz de Ledisi é poderosa, mas, tecnicamente, não é muito parecida com a de sua mestra. Simone é conhecida por seu tom rouco e seu limitado alcance de oitavas, enquanto Ledisi exala calor no palco e cobre quatro oitavas, adicionando sem qualquer dificuldade gritos exuberantes, sons sofisticados, gemidos sensuais e harmonias quase silenciosas.

Mas quando Buckley quis uma vocalista com a coragem e a seriedade que ele associava a Simone para cantar com a Metropole Orkest, uma orquestra de jazz e pop baseada na Holanda, Ledisi sempre foi sua primeira escolha.

“Eu realmente estava tentando encontrar uma artista que pudesse equilibrar o poder de uma grande orquestra e levantar a orquestra e o público também”, disse ele. “Ela conseguiu lançar uma luz sobre o trabalho de Nina, não como uma imitação, mas sim como algo novo e fresco. Só aconteceu porque ela não está só replicando, está fazendo as coisas do seu jeito”.


Este artigo foi originalmente publicado no New York Times


Tradução de Renato Prelorentzou.

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