Caroline Bittencourt/Divulgação
Caroline Bittencourt/Divulgação

Nina Becker canta Dolores Duran em novo disco

CD privilegia o repertório menos explorado e as canções mais 'ensolaradas' da cantora que morreu em 1959

Paula Carvalho, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2014 | 09h05

No dia seguinte à morte de Dolores Duran, em 24 de outubro de 1959, o cronista Antônio Maria escreveu: "Nunca a vi que não dissesse estar apaixonada. Não dizia por quem. Vi-a, pela última vez na madrugada da última quinta-feira, no Kilt Bar. (...) Foi sentar-se sozinha, a uma mesa escanteada. Atirou-me um amendoim, para que eu a olhasse, e gritou de lá: 'Estou tão apaixonada, e quero ficar aqui quietinha. Posso?".

Mesmo que de um amigo da época, a imagem contribuía para a ideia de Dolores como a mulher das boates e fossas. A cantora, que morreu com 29 anos, teve vários namorados, viveu intensamente e passou por um rápido casamento. Mas, como mostra a biografia de Rodrigo Faour (Dolores Duran - A Noite e as Canções de Uma Mulher Fascinante, Ed. Record, 2012), era piadista, politizada e culta. É este lado menos clichê, que Nina Becker traz em seu novo disco, Minha Dolores, que ela lança neste sábado, 24, no Sesc Pompeia (R. Clélia, 93, tel. 3871-7700, ingressos: R$ 3,20 a R$ 16).

Segundo a pesquisa de Faour, Dolores escreveu 35 músicas, mas foi a compositora mulher mais gravada do Brasil. Por isso, Nina diz ter privilegiar o repertório menos explorado da cantora. Das mais conhecidas, só entraram Solidão e a parceria com Tom Jobim Estrada do Sol.

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Dentre músicas "mais ensolaradas" cantadas por Dolores, Nina escolheu Carioca 1954 (de Ismael Neto e Antonio Maria), Coisas de Mulher (de Chico Baiano), Estatuto de Boate e Feiura Não É Nada (de Billy Blanco). Mais do que celebrar a cantora, diz ter feito um disco "sobre o Rio". "Acho que a gente está num momento de relação muito conturbado, com Copa, manifestações, obras. Esse disco foi o jeito de falar sobre as coisas boas da cidade, que tem cronistas maravilhosos", explica ainda Nina.

Acompanhada de Luis Barcelos no bandolim e Lucas Porto no violão de 7 cordas, a sonoridade mais próxima do choro e do samba também reforça a identidade carioca. "Sempre tive muito contato com esse tipo de música, mas ainda não tinha gravado nada parecido. Minha banda por 10 anos teve base de rock", conta.

A experiência foi nova para ela e os músicos convidados. Num processo diferente do que é utilizado no samba, em que músicos costumam ler partituras já prontas ou fazer improvisações, os três foram para o estúdio e tiveram ideias juntos para os arranjos. "Quis pegar tudo que vejo de moderno na obra dela e mostrar como isso ainda é atual. Não vejo esse trabalho como um resgate, porque ela já era incrível lá nos anos 1950", diz. A sonoridade mais clean das músicas, só com dois instrumentos, reforça a ideia de Nina.

No show, devem entrar Se É por Falta de Adeus, outra das parcerias com Tom Jobim, e Minha Toada, parte do disco Esse Norte É Minha Sorte, de 1959, em que Dolores levou o samba-canção ao Nordeste.

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