ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO
ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO

Nick Cave volta ao Brasil depois de 25 anos no melhor momento de sua extensa carreira

Conexão antiga com o País cria ambiente propício para o show; 'é uma torrente de memórias. É emocionante estar de volta. Algumas das noites mais memoráveis e prazerosas foram aqui', diz o músico

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

13 Outubro 2018 | 06h00

Nick Cave tem uma conexão antiga com Brasil, especificamente com São Paulo – que os Bad Seeds tenham demorado tanto tempo para voltar é motivo para especulação. Dois shows na cidade ocorreram em 1989, ocasião em que Cave se apaixonou por uma pessoa e encontrou os motivos para realizar um desejo obscuro anterior: viver no Brasil. Agora estrela ainda mais célebre na música alternativa mundial, e em meio a um novo e poderoso ciclo de sua carreira, Nick Cave faz um show em São Paulo neste domingo, 14 – e a ordem é não perder, de jeito nenhum.

Foram 25 anos de espera pelo músico australiano na cidade (ele de fato viveu aqui entre 1990 e 1993). A ocasião, porém, não poderia ser melhor, segundo o próprio Cave apontou numa coletiva de imprensa realizada na noite de quinta-feira, 11, num hotel de luxo na região dos Jardins. “Não estou apenas dizendo isso para vocês, mas vir à América do Sul tem sido extraordinário. É muito diferente das últimas vezes que viemos, quando tocamos em clubes menores para audiências ambivalentes. Foram shows difíceis. Dessa vez, não há ambivalência, as pessoas estão inseridas no show desde o início”, disse – Warren Ellis, parceiro número 1 de Cave nas duas últimas décadas, é da mesma opinião.

Um novo ciclo começou para Nick Cave e os Bad Seeds em 2013, com o sucesso crítico irrepreensível de Push The Sky Away, e uma espécie de continuação tortuosa com o disco seguinte, Skeleton Tree, de 2016 – segundo Cave, um novo álbum já está escrito para fechar essa trilogia (fotos nas redes sociais, antes do início da turnê latina, mostravam a banda num estúdio em Los Angeles). É com a turnê de Skeleton Tree – e com os sentimentos complexos que envolvem a tragédia pela qual Cave passou em 2015 com a morte acidental do filho adolescente – que a banda põe os pés na cidade.

Push The Sky Away e Skeleton Tree fazem Warren aparecer mais e ser como um colaborador-chefe”, diz Cave. “Meu relacionamento com ele é extremamente próximo, realmente sentamos e escrevemos músicas juntos, do zero. É um jeito particular de escrever, completamente único, acho que não tem ninguém escrevendo desse jeito. Quase todo o Skeleton Tree é completamente improvisado, quase tudo ali foi tocado pela primeira vez. Era uma peça de improvisação e depois trabalhamos nelas. Acho que por isso esses discos soam diferente.”

Uma atmosfera um tanto mais etérea e ao mesmo tempo mais emocional dá o tom dos dois discos, 15.º e 16.º da banda (dois filmes igualmente etéreos, e belos, foram lançados para acompanhar os álbuns). Os trabalhos lhes trouxeram uma audiência mais jovem, renovada, num movimento raro para um grupo em que seus integrantes estão na faixa dos 60 – Cave tem 61, Warren tem 53. Ambos mencionam um misto de espanto e entusiasmo com o fato de os públicos demonstrar interessante tão grande pelo novo material.

A experiência de Cave com a tragédia também não fica fora da conta. “É interessante, porque músicas existem ao longo do tempo, e elas se conectam e se desconectam de eventos que ocorrem na sua vida”, diz. “Into My Arms tem agora um novo significado para mim porque ela se conecta ao fato de que meu filho morreu. É difícil cantar da mesma forma. A ideia antes era a negação de um deus intervencionista, havia um orgulho ali. Agora, tem um sentimento diferente. É difícil explicar. As canções são muito bonitas nesse poder de se reajustar conforme os eventos que acontecem na vida. Outras apenas morrem, perdem qualquer sentido.”

Sobre o show em São Paulo, contando toda a expectativa naturalmente construída pelas décadas de espera, Cave é taxativo: “Nós vamos f* a cabeça de todo mundo. É o nosso último show na América Latina, então vamos para o pancada”, ele diz.

“Eu me sinto conectado a esse lugar, mas não estive aqui por muito tempo”, disse sobre São Paulo – sua estada na cidade foi marcada por dificuldades profissionais, mas em um momento de recuperação na sua vida, e também de uma período de casamento e paternidade recentes. “É uma torrente de memórias. É emocionante estar de volta. Algumas das noites mais memoráveis e prazerosas foram no bar do Pedro (como ele chama a Mercearia São Pedro, local que visitou nesta sexta), era diferente, eu podia sentar num bar e apenas beber, ficar quieto.”

Cave diz estar em bons termos tanto com Viviane Carneiro quanto com Luke, seu filho paulistano. “Não vim aprender a cultura, vim porque me apaixonei”, diz. “É muito difícil viver no Brasil sem sofrer influências.”

A ligação com o País faz o músico demonstrar interesse pela situação política turbulenta. Quando questionado sobre como a sua música se relaciona com o ambiente social, ele diz que esse não é o seu alvo. 

“Obviamente, é uma situação desesperadora aqui no Brasil, parece haver um nível diferente de ódio. Mas não estamos resolvemos os problemas do mundo, deixo esse trabalho para o Roger Waters”, ironizou. “Minha música não desafia a sociedade, mas as pessoas que a ouvem. Nosso show tenta ser transformador. Esperamos que as pessoas saiam dali restauradas de algum jeito.” No estado atual de todas as coisas, não é recomendável negar qualquer possibilidade de redenção.

NICK CAVE & THE BAD SEEDS EM SÃO PAULO

Espaço das Américas. Rua Tagipuru, 795, Barra Funda, São Paulo, SP. Domingo, 14/10, portas 18h, show às 20h. De R$240 a R$ 360.

Show mais recente de Nick Cave em São Paulo foi em 1989

Era abril de 1989 quando Nick Cave desembarcou no Brasil para três shows – um no Rio, dois em SP, as únicas apresentações do Bad Seeds até hoje no Brasil. No Jornal da Tarde de 17 de abril, Cristina Iori informava que cerca de 4 mil pessoas compareceram aos shows em São Paulo, no Projeto SP, e que Cave fez versões de 500 Miles, de Peter, Paul e Mary, e Hey, Joe, de Jimi Hendrix. “O som à la The Bad Seeds pode ser comparado a um bom banho com lixa. Dói, mas limpa profundamente”, escreveu. Segundo a reportagem, um especial foi gravado pela TV Cultura.

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