Nicholas Payton sofistica o jazz

Toca amanhã à noite no Bourbon Street Music Club, em São Paulo, acompanhado de seu quinteto, um dos mais impressionantes artistas do jazz surgidos recentemente. Aos 26 anos, com menos de dez anos de carreira, o trompetista Nicholas Payton é reverenciado unanimemente, seja entre os ortodoxos ou entre os modernos. Quem o viu aqui em 1999, no Free Jazz Festival, à frente de uma big band que incluía os virtuosos Lew Soloff e Delfeayo Marsalis, não podia crer que estava diante de "apenas" um garoto, tal o seu nível de compreensão da história do jazz. Acompanhando Payton nos shows de amanhã e depois estarão Timothy Warfield no sax, Anthony Wonsey no piano, Brandon Owens no baixo e Adonis Rose na bateria.Esse time todo estava no disco Dear Louis (Universal Music), que Payton gravou em homenagem ao centenário de Louis Armstrong e que inclui o trompetista cantando em duas faixas - uma novidade em seus discos, mas não em sua carreira."Eu costumo cantar em alguns dos shows em New Orleans, onde vivo", conta Payton, em entrevista por telefone à Agência Estado. "No entanto, não deverei cantar nos shows no Brasil, apenas tocarei trompete", avisou o músico.Payton contou que sua paixão pela bossa nova, aquecida pelas duas vezes que tocou no Brasil, o levaram a gravar uma bossa no seu disco, I´ll never Be the Same.É um dos melhores momentos do CD, com a voz suave e bem colocada do trompetista soando como algo familiar, mas não exatamente conhecido, uma voz entre Chet Baker e Marcos Valle.Há diversos blues também, vitaminados pela interpretação rascante de Dr. John, um dos convidados do CD. "Todo país tem seus gêneros fundadores e um dos nossos é o blues", diz o artista.Blues - "O blues sempre fez parte da música americana, dos spirituals, da música gospel, do jazz, da vanguarda de Ornette Coleman a George Gershwin", afirma. "Eu vejo o blues em toda a música, seja na de Muddy Waters ou de Charlie Parker ou ainda Duke Ellington."O blues está no entroncamento, basicamente, da música de Louis Armstrong, que é uma das obsessões pessoais do trompetista. "Não importava a forma ou o veículo de expressão que ele escolhesse, havia sempre paixão e profundidade emocional na música de Armstrong - um tipo de profundidade que só é inteiramente compreendida por alguém que tenha um alto nível de entendimento da experiência humana", diz.Parte dessa maturidade - e da compreensão do legado de Armstrong - foi passada a Nicholas Payton por seu pai, Walter, contrabaixista que toca no disco Dear Louis e faz um belo solo em Interlude (St. James Infirmary). Outra parte de sua formação vem do mestre, Ellis Marsalis, e das colaborações com gente com Wynton Marsalis, Marcus Roberts e Doc Cheatham.Nicholas Payton pela primeira vez no Brasil em 1996, ainda uma revelação. Tinha 21 anos. No ano seguinte, ganharia um Grammy pela composição Stardust, do disco Doc Cheatham and Nicholas Payton.Trompete - Nascido em New Orleans, Payton veio de uma família musical. O pai era baixista e a mãe, Maria, era cantora de ópera e pianista. Aos 4 anos, ele ganhou o primeiro trompete - em New Orleans, isso é como ganhar a primeira chupeta. Diferenciar-se de uma legião de trompetistas, então, é um desafio colossal.Quando tinha 13 anos, ele se julgava pronto. Pediu uma audiência com Wynton Marsalis, que ficou impressionado. Wynton Marsalis passou a escalar Payton em sua banda e a recomendá-lo para outros band leaders.Com o veterano baterista Elvin Jones, Payton diz que aprendeu sobre o "companheirismo e a seriedade" que precisam existir no mundo do jazz. Com o pianista Marcus Roberts, Payton trabalhou no verão de 1990.Depois, veio o encontro com Clark Terry, com quem Payton cumpriu outra temporada na estrada - mais especificamente, durante um cruzeiro no navio S.S. Norway Jazz Cruise. Com Terry, Payton conta ter aprendido "um bocado da alegria e da felicidade da música".

Agencia Estado,

08 de outubro de 2001 | 15h35

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