Ney Matogrosso se reinventa na música e lança CD e DVDs

Sem medo de arriscar, cantor põe em cena série de canções novas

Lauro Lisboa Garcia, Especial para O Estado de S. Paulo

06 de novembro de 2014 | 03h00

Como num velho clássico do blues, o tempo está ao lado de Ney Matogrosso. Ou ocontrário. Aos 73 anos, na estrada com o show Atento aos Sinais desdefevereiro de 2013, ele diz sentir, naturalmente, mas não se preocupar muito coma passagem do tempo. Reinventor de si mesmo – como Tom Zé, que artisticamenteparece nunca envelhecer –, o cantor traz implícita essa ordem de vida “semmistificação” (como diz um poema de Carlos Drummond de Andrade), mas com marcasincisivas, em canções como A Ilusão da Casa (Vitor Ramil), Vida LoucaVida (Bernardo Vilhena/Lobão), Noite Torta (Itamar Assumpção), Roendoas Unhas (Paulinho da Viola) e Todo Mundo o Tempo Todo (DanNakagawa).

Comimagens e projeto gráfico fieis ao deslumbre da produção no palco, o show saiagora em CD ao vivo e DVD dirigido por Felipe Nepomuceno pela Som Livre.Simultaneamente o Canal Brasil lança o documentário Olho Nu, com direçãode Joel Pizzini. Em ambos os projetos, a nudez é uma metáfora libertária – pelaatitude política que pauta a carreira de Ney desde o início – e não por acasoNepomuceno explora enfaticamente os movimentos sensuais do cantor no show, emângulos e detalhes que poucos veem da plateia. Ney diz que deu algumassugestões nos dois filmes, mas, coerentemente, não interviu na linguagem dosdiretores. “Todas as interferências que Felipe fez no DVD acho muitointeressantes. Ele captou o espírito da coisa de sexualidade do show e acentuaisso. Achei até ousado da parte dele assumir aquilo que filmou, porque está um poucodemais, mas não me incomoda, não tenho nada contra.”

Umdos momentos mais interessantes é o fim Tupi Fusão (Vitor Pirralho/DinhoZampher/Pedro Ivo Euzébio/André Meira), quando o diretor utiliza o recurso decâmera lenta e tanto o vídeo como o áudio se distorcem, e os aplausos e uivosdo público soam como gritos tribais, que fazem sentido dentro do tema dacanção. 

Maisdo que outros shows antológicos de Ney, Atento aos Sinais enfatiza osmetais (tanto os instrumentos de sopro, como o material usado no cenário, quetambém tem enormes painéis de led com projeções) e a arquitetura de luz é dasmais impressionantes que ele já criou. “Estou ganhando muito menos dessa vez,mas não tem problema, inventei toda essa história e queria essa luz, que nunca tive.Agora temos de viajar com dois caminhões para não ser multados por excesso depeso”, diz.

Semmedo de arriscar como outros intérpretes (veteranos ou jovens) têm, Ney põe emcena uma série de canções novas, inéditas ou esquecidas de autores também poucoconhecidos do grande público e o lado B de compositores consagrados como ItamarAssumpção, Dan Nakagawa, Rafael Rocha e Alberto Continentino (ambos da bandaTono), Beto Boing, Paulo Passos, Jerry Espíndola, Alzira E, arrudA, VitorRamil, Caetano Veloso, Pedro Luís, Criolo e Paulinho da Viola. No extra do DVDalguns deles falam da origem de suas canções que estão no show, incluindoFrejat, autor da melodia de Poema, que Cazuza escreveu para a avó, queentrou no bis, a pedido dos fãs de Ney.

Issoé mais uma prova de que tem muita gente nova compondo música boa no Brasil. “Efaço sem nenhum medo, sem nenhum tipo de preocupação. É o que me interessafalar”, diz. “Desde o primeiro show da turnê, pela maneira como essas cançõesforam embaladas, o público foi extremamente receptivo. Então não houve umestranhamento, nenhum sinal de rejeição. Acho que as pessoas não têm é coragemde arriscar. Não tenho esse problema.” E ele arriscou lançar essas canções nopalco antes de gravar o CD, um dos melhores de 2013.

Opreciosismo do cantor levou-o a extrair do roteiro a canção Oração, deDani Black, gravada por ele no CD de estúdio. “Ela estava num lugar do show quenão podia ser outro e era um momento muito crítico para a minha voz, porque jáa vinha desgastando. Quando duas vezes não consegui manter aquela nota final eminha voz falou, disse não: não vou ficar passando esse vexame.”

Neynão só traz esses autores para seu repertório como generosamente participa deshows e discos deles, como Dan Nakagawa, Marília Bessy. Esta semana veio a SãoPaulo para participar de uma gravação da banda Zabomba com a cantora ecompositora Ana Cañas (que dirigiu em 2013 num show para o qual também criou ailuminação), exclusiva para a web, que vai ao ar em breve. “É uma coisa complicacolocar três artistas cantando juntos num tom que não é o de ninguém, mas deumuito certo.”

Adifusão de trechos do show por canais de internet como Youtube contribuem paraessas canções se tornarem mais conhecidas e o cantor diz apoiar os fãs quecompartilham esses vídeos amadores. No entanto, mesmo para um astro consagradocomo ele, é difícil furar o bloqueio da grande mídia, que persiste em repetirmúsicas velhas à exaustão, como é o caso das trilhas sonoras de novelas e atémesmo rádios FM. “Houve um acordo da MPB FM com a gravadora, eles escolheram NoiteTorta, mas depois disseram que não era uma música com o perfil da rádio.Então por que não escolheram outra? Não entendo. Ninguém me fala dessa parte.”

Emmaio deste ano, em entrevista à emissora RTP,de Portugal, Ney foi incisivo ao criticar diversos aspectos do Brasil emquestões político-sociais. Incomodou fãs e foi também bastante criticado porquem apontou equívocos em suas observações, especialmente em relação à saúde eao programa Bolsa Família, criado no governo Lula, que prosseguiu com DilmaRoussef, recém-reeleita presidenta. Ele diz que não mudou de opinião. “Eu nãomenti. Continuo confirmando tudo e quero ver o governo Dilma mudar tudo o queeu disse. A grande crítica que eles fazem é estatística, porque eu falei quetinha 10 milhões de miseráveis no Brasil e eles dizem que são 7 milhõesapenas.”

Porém,há pesquisas comprovando a diminuição da pobreza no Brasil durante essegoverno. “Mas ainda tem 7 milhões de miseráveis, admitido pelo governo eu falei10 milhões. Então, errei. Mas há cidades no interior do Ceará, que nem sequertêm luz elétrica, ainda usam candeeiro. No século 21 ainda tem gente no Brasilvivendo com candeeiro? Dá um tempo”, diz. “Mas e quanto à corrupção galopantede bilhões de reais que são desviados, está tudo bem? Ladrão tem que estar nacadeia, independentemente de qualquer partido. Mas quem é preso no Brasil é sópreto e pobre. E Paulo Maluf está solto e ainda opinando sobre a política. Táerrado. Agora talvez a coisa tenha pesado mais porque é o PT que está nogoverno há 12 anos, então o foco tenha ficado neles, mas não falo deles apenas.Disse claramente que não é o único partido que rouba. Então, não venham compalhaçada pro meu lado.”

 

Neyvota no Rio de Janeiro e diz que felizmente foi poupado do sofrimento deescolher um candidato a governador, porque estava viajando. “Agora, sou aqueleque anulo voto com a maior tranquilidade, não dou a menor satisfação. Não vouvotar no menos pior porque sou obrigado a votar, anulo com todas as letras enão tenho remorso, é um direito meu.” Mas mesmo sem candidatos que mereçam seuvoto, Ney acha que “é muito saudável para a democracia que mude”. No segundoturno para presidente, diz que votaria em Aécio Neves “pelo simples fato demudar de mão”, mesmo com todos os escândalos noticiados a respeito docandidato. “A gente não pode ficar refém, é muito tempo para um partido sóestar governando, com todos os vícios que já estão declarados e publicados.”

Apropósito, nesse DVD Ney abre o show com a canção Rua da Passagem (Trânsito),de Lenine e Arnaldo Antunes em que diz “todo mundo tem direito à vida, todomundo tem direito igual”. Houve quem apontasse na gravação de Incêndio(antiga composição de Pedro Luís do tempo em que fazia parte da banda Urge, noinício da década de 1990) como algo premonitório das manifestações populares dejunho de 2013.

Hátambém uma canção de Lobão e, forçando um pouco a barra, pergunto sobre o queacha das declarações absurdas do ex-roqueiro sobre a ditadura militar e afins.“Acho que as pessoas o levam excessivamente a sério. Lobão não é burro, não élouco, tem uma lucidez até desagradável, então a gente tem de considerar o queele diz, mas eu não levo a sério quando ele diz que a ditadura tirou apenasumas unhinhas, mas estão aí pedindo a volta dos militares, como virecentemente. Acho um bando de gente idiota e louca, que não sabe e não viu oque aconteceu, não sabe o que é uma ditadura militar. Qualquer que seja aditadura é escrota.”

Pela primeira vez Ney diz não ter em mente outroprojeto de disco ou show. “E não estou preocupado com isso. Tinha uma ansiedadede colocar tudo pra fora e que misteriosamente desapareceu e não estoupreocupado com o próximo passo.” No entanto, há em andamento um projeto de seisDVDs reunindo seus grandes encontros com outros intérpretes. “Há até um duetomeu com João Gilberto cantando Curare (Bororó) uma das coisas que sentifalta disso no documentário Olho Nu”, lembra. Se “o tempo não passa noabismo do coração”, como escreveu Drummond, “lá dentro perdura a graça do amor,florindo em canção”. O tempo de Ney é hoje e – pra usar um modismo um tantodesgastado – “urgente"

OLHO NU

Direção: Joel Pizzini

Gênero: Documentário.

Preço: R$ 29,90

ATENTO AOS SINAIS

Direção musical: Sacha Amback

Gravadora: Som Livre

Preço: R$ 33,90. 

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