Ney Matogrosso revisita época de ouro do rádio

Ney Matogrosso anda enfastiado do que ele chama de "malícia pesada" das músicas atuais e com saudade do balanço e da ingenuidade matreira das que ouvia quando criança. Com esse sentimento, lança o disco Batuque, que reúne 13 sucessos dos anos 30 e 40, época de ouro do rádio e do estabelecimento da música brasileira como indústria.As canções não são só desse período. Tem Urubu Malandro, de 1914, e Bambo de Bambu, de 1925; mas o clima do disco fica nas duas décadas citadas. Para isso, Ney pediu sugestões a quatro pesquisadores e escolheu um repertório dançante, que foi vestido com arranjos de época e recursos tecnológicos de hoje. "Respeitei a forma de tocar essas músicas e, no caso de De Papo pro Ar, usei a introdução original (de Gastão Formenti) e segui o clima", conta Ney que levou dois meses entre pesquisa e gravação do disco. "Na hora de cantar fiquei com meu estilo mesmo, não pensei nos cantores originais."Por se ater à época de ouro, seis das 13 faixas foram sucessos com Carmem Miranda. "Ela é a primeira imagem da minha memória, mas esse disco não é uma homenagem. Essa proporção é inevitável porque Carmem é a estrela do período", afirma Ney. Ele quis também um disco dançante, com vistas ao show que monta a partir de junho."Será algo como Bandido, de 1977, meio teatro de revista. Esses arranjos são para eu dançar, mas vou achar ótimo se as pessoas também entrarem nessa ao ouvir o disco."Visitar outras épocas não é novidade para Ney. Ele sempre incluiu músicas antigas em seu repertório e, nos anos 80, rodou o País com o show e disco Pescador de Pérolas. "Lá, o clima era de dor-de-cotovelo. Eu cantava Cartola, Lupicínio Rodrigues, Herivelto Martins e outros clássicos do gênero", compara. "Aqui é festeiro, alegre, malicioso. Além disso, quis trazer de volta o choro cantado. O choro instrumental é muito cultivado, mas o cantado anda meio esquecido."Essa opção pela música dançante não se liga a um momento pessoal. Ney não fala da vida particular. Prefere abordar suas indignações sociais. Atualmente, está em campanha pela erradicação da hanseníase no País. "Estamos em segundo lugar no mundo, atrás só da Índia. Uma vergonha, pois existe cura, o remédio é gratuito e de efeito rápido", reclama ele. "Entrei nessa por acaso (as instituições de saúde pública procuraram o Ney Latorraca e acharam o Matogrosso), mas considero uma causa minha."Feito o desabafo, Ney volta ao disco, que considera ótimo, sem modéstia. "Nem precisava. É um trabalho conjunto, que começa nos pesquisadores e passa pelos arranjos do Nó em Pingo d´Água. Os méritos ficam para todos."

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