Ney Matogrosso mostra força do batuque em SP

Ney não quer dar aula sobre o passado. "Não quis ser prisioneiro dessa época, mas acho que não se deve esquecer que temos um passado. Todos sabem da sua existência, da variedade e riqueza da música brasileira, mas esquecem que tudo o que está aí hoje não é novidade. Tudo isso está bem forte naquelas décadas de 20, 30 e 40", afirma ele. O intérprete refere-se à força dos batuques, da ingenuidade das canções, da malícia elegante das interpretações, do choro e da música negra, principalmente a carioca. A essência desse momento da nossa tradição musical vai estar presente no show do seu novo CD, Batuque, que ele inicia sexta-feira em São Paulo, no Credicard Hall."Acho que esse meu novo trabalho é essencialmente carioca, voltado para o universo da música negra. É um enfoque que eu nunca tinha feito. Havia cantado samba, mas nunca ido nessa fonte, dos negros cariocas, que produziu a música urbana" explica. "Na verdade, ao abordar esse universo, vi claramente a ausência da novidade rítmica na música da atualidade, como pagode, axé e derivados. O duplo sentido, a malícia, sexualidade essas características estão nessa época, só que de uma maneira mais sutil, porque o mundo era muito mais sutil, mais elegante e menos grosseiro, como é agora. Dorival Caymmi já insinuava essa sexualidade."Ney foi fundo nessa história. A começar pelo nome do disco: Batuque. "Lógico, é para remeter à força da música negra pois batuque era um termo usado perjorativamente sobre essa arte tão ampla, que eu quis procurar." Entretanto, Batuque começou com Carmen Miranda, mas está muito além de uma homenagem à cantora. "Acho que há primeiramente uma associação à Carmen - e não ao batuque - porque, talvez, ela tenha sido a primeira cantora branca a se voltar para esse universo. Como ela era a grande estrela da época, todos compunham para ela", analisa. "Mas há sempre uma tendência de as pessoas ficarem na superfície e acabam definindo como uma releitura do repertório dela. Eu fui ao batuque. Fui ao encontro do samba, do choro e do maxixe." Um exemplo é a leitura de Ney para Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu e Eurico Barreiros. "Fui atrás da interpretração de Zequinha, embora eu tenha ido, no princípio, procurar as músicas de Carmen", conta.Do começo até o fim de Batuque, Ney teve a companhia do grupo instrumental Nó em Pingo D´água. A participação desses músicos é bem importante no disco e na feitura de alguns arranjos. Com eles, a inclusão do choro ficou mais acentuada, pois o Nó domina essa linguagem musical. "O mais excitante é ter choro no meio disso tudo, o choro cantado, ninguém canta choro mais. Ele se mantém como uma tradição instrumental, mas ouvir choro, de verdade, é muito bom", diz.A pesquisa também foi importante nesse processo. Por meio dela, ele encontrou o norte da música ingênua e do batuque. Ela foi feita por Fausto Nilo, Jairo Severiano, Paulinho Albuquerque e Zuza Homem de Melo. No CD, todas as composições trazem a informação do seu primeiro registro fonográfico. Além disso, Ney procurou reforçar essa estética com as pinturas do instrumentista Heitor dos Prazeres, que estão no encarte do disco.Ney também não quis montar um cenário didático. A sua radicalidade está em cantar todo o repertório do disco, sem voltar às canções de Vivo e Olhos de Farol. Até agora, os espetáculos, que já passaram pelo Rio e pelo Sul, foram um grande sucesso. Ele é acompanhado pelos músicos Rogério de Souza Bolão, Zero, Zé Trambique da Vila, Jorge Helder, Marcello Gonçalves, Ronaldo do Bandolim, Zé Nogueira e Dirceu Leite.Limite - No dia 1.º, ele faz 60 anos de idade. Não é feliz nem triste. "Eu não entendo o que é ter 60 anos, porque o que eu sei de 60 anos, o que eu conheci de 60 anos, não sou eu. Não sei me portar como um homem de 60 anos. Será que estou certo ou errado?", questiona ele.Os 60 anos de Ney não o fazem pensar sobre o que fez. "Eles me fazem pensar sobre os próximos anos de carreira. Sei que haverá um limite. Estou mais próximo do limite. É estranho. Também sei que 60 anos é o limite para muita gente. O meu limite é mais elástico, mas sei que terei um", reflete. "Eu até propus à gravadora de passar um ano gravando discos, antecipando. Mas eles não são arrojados. Disse que se me pagassem por um ano de shows, que é como ganho dinheiro e não com CDs, faria três projetos: um com repertório inédito de Cazuza, outro com a nata da música romântica brasileira e um terceiro voltando ao pop, um espaço em que me sinto muito à vontade, pois tem um espírito libertário que me move até hoje. Acho que eles vão sair perdendo." Tem razão.Ney Matogrosso. Sexta e sábado, às 22 horas; e domingo às 20 horas. De R$ 20,00 a R$ 65,00. Dia 3/8 não haverá show. Credicard Hall. Avenida das Nações Unidas, 17.955, tel. 5643-2500. Até 5/8. Patrocínio: ZIP.NET.

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