Darrit Lupi/Reuters
Darrit Lupi/Reuters

N.E.R.D., liderado por Pharrell Williams, é uma fábrica de hits

Gênio da rima e da produção, vocalista estreia no Brasil com seu combo de hip-hop & pop

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

05 de novembro de 2010 | 06h00

O garoto é baixinho, tem cara de marrento, mas faz altas rimas. Pharrell Williams, de 37 anos, o líder do combo de hip-hop N.E.R.D., pela primeira vez no Brasil esta noite, é um prodígio da música americana, seja rapeando ou produzindo discos (é um dos nomes-chave por trás dos discos Hard Candy, de Madonna, e Justified, de Justin Timberlake). Sua voz é familiar para quem gosta de rap - ouve-se em sucessos como Excuse Me Miss, de Jay-Z, e Beautiful, de Snoop Dogg.

 

Sua especificidade é juntar a melhor cadência do pop com a pulsão do hip-hop. Ao lado do amigo e "soulmate" musical Chad Hugo, o menino de Virginia Beach criou a "fábrica" de produção The Neptunes, que está por trás de hits fundamentais do dial norte-americano recente. Exemplos: I’m a Slave 4 U, de Britney Spears; Grindin, do Clipse, ou There She Goes, de Babyface. Parece pouco? Pois ele também já está de olho grande no mundo da moda. Este ano, desenhou óculos para uma linha da Louis Vuitton e fez um contrato de parceria com a boutique francesa Colette. Mirou também o mundo das artes visuais: em colaboração com o artista Takashi Murakami e a joalheria Jacob & Co., criou a linha The Simple Things.

 

Curioso lugar, essa Virginia Beach: os maiores gênios da produção americana, na atualidade, vêm de lá: além de Pharrell e Chad Hugo, também Timbaland (que cancelou recentemente sua vinda ao Brasil) é da área. Os três, por sinal, tiveram uma banda juntos, antes de todo esse estrelato, cujo nome era Surrounded by Idiots.

 

N.E.R.D. (No-one Ever Really Dies) mistura o hip-hop ao soul, pop, rock e funk. Chega ao Brasil no exato instante em que é lançado Nothing, o quarto álbum da banda, que conta com parcerias do duo francês Daft Punk e da cantora Nelly Furtado. É rara uma jornada de hip-hop internacional como essa (por exemplo, o único astro a passar pelo Brasil este ano foi 50 Cent, que tocou no Via Funchal em julho). N.E.R.D. é um exemplar do gênero no auge.

 

Neurociência. "Algumas pessoas têm uma coisa inata que permite a elas se expressarem de um jeito que a maioria pode seguir. É assim que a gente afeta a cultura", diz Pharrell Williams, que recentemente revelou uma queda pela neurociência, que estuda (como um leigo) a sério. Descobriu um médico chamado Ramachandran no Youtube e acabou indo até o cientista com suas questões. "A curiosidade ilumina o caminho correto para tudo na vida. Se você não é curioso, sua mente está começando a morrer. A descoberta, eu penso, é o que nos separa do resto de nossa espécie".

 

Evolução. Esse novo foco de curiosidade do rapper desembocou no seu novo álbum, Nothing. Na faixa Life as a Fish, ele traça sua versão da teoria evolucionista, muito pessoal: "From organisms to single-cells, mutate to shells, then mutate into spores".

 

Pharrell identifica suas raízes musicais, como todo mundo, na casa onde cresceu. "Meus pais punham muito para tocar Earth, Wind, & Fire, e o cantor, Maurice White, era parte do Ramsey Lewis Trio, com um grande conhecimento de jazz. Todas essas canções tinham uma riqueza que me estimularam quando criança", analisa.

 

Midas de um gênero que faz milionários a todo instante nos Estados Unidos, e cuja plateia parece um videoclipe do 50 Cent, com muitas correntes de ouro e garotas com pouca roupa, Pharrell parece ter plena consciência do mundo em que ele vive e no qual ajuda a dar as regras. "No começo, quando eu escolhi esse nome (N.E.R.D.) eu queria celebrar a esperteza, porque eu vivi a experiência de ser um nerd quando estava no colégio e isso era a coisa mais hedonista. Mas aí, eu vi o seguinte: esses são os caras que cresceram e agora dirigem BMWs! Não estou nessa, não. Eu acho que é melhor usar minha música para mostrar que ser aquele tipo de nerd que eu idealizava não é legal".

 

Acordes. Pharrell é adepto da reflexão. "Se você pensar nos diferentes gêneros musicais, verá que eles descrevem algo que não tem a ver com a música, como o blues. Quem quer que tenha cunhado esse termo, estava completamente certo, sabia que aquela progressão de acordes, e a natureza daqueles acordes, o jeito como eram construídos, aquilo daria um sentimento que era mais triste, e não necessariamente feliz ou ensolarado", considera. O produtor não fetichiza os meios de produção musicais, nem a tecnologia. "Toda peça de tecnologia, toda peça de arte basicamente é manufaturada a partir de uma ideia", diz.

 

John Caramanica, do New York Times, escrevendo sobre o novíssimo CD do N.E.R.D., vê estranheza ("Pharrell é o único excêntrico de verdade"), mas também charme e invenção. "É o álbum new agge, pós-disco, de jazz suave, electro-funk de erotismo e patético misticismo que o hip-hop estava esperando", ponderou, acrescentando: "Nothing é o quarto disco do N.E.R.D. e o primeiro a se sentir levitando fora da superfície. É uterinamente esquisito, mais simpático em sua mistura que tem a vertiginosa espiral ao estilo dos Doors, o toque flamboyant triunfante do Queen, filtrado por meio de uma versão mais soft do seu tradicional hip-hop roqueiro que tornou seus álbuns iniciais assim tão revigorantes".

 

N.E.R.D. Jockey Club. Hipódromo. Av. Lineu de Paula Machado, 1.263, Morumbi, 4003-1212. Nesta sexta, 5, 20h30. R$ 150/R$ 500.

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