Nem gênios salvam jazz na seleção de veteranos

Arranjos equivocados e falta de ousadia marcam noite de domingo no Ibirapuera

Antonio Gonçalves Filho,

29 Outubro 2007 | 19h32

A programação de jazz do TIM Festival deste ano apostou em extremos. No primeiro dia foram calouros de origem européia que decepcionaram. Domingo, 28, foram os veteranos americanos que tentaram salvar a reputação do gênero sem conseguir, contudo, revelar sinais de vitalidade que confrontassem a diluição do jazz pelos mais novos. Está certo, Cecil Taylor é quase um octogenário. Não seria lícito esperar do pianista outra revolução como a do free jazz. Seus companheiros estão mortos e poucos instrumentistas teriam, hoje, a liberdade de seu parceiro Ornette Coleman. De resto, seria preciso muita coragem e energia para desafiar o gosto comum com exercícios de polirritmia e sons improvisados - especialmente numa época marcada por certa obsessão programática. Cecil Taylor até tentou, ao tocar a primeira peça com piano preparado, intercalando-a com um poema mais inclinado para a nostalgia da literatura ativista de Amiri Baraka que propriamente anunciador de novos tempos. A vanguarda, enfim, envelheceu.   Veja também:   Especial TIM Festival        Alguns envelhecem mais conformados, como o vibrafonista Bobby Hutcherson, convidado especial do organista Joey DeFrancesco. Hutcherson está com 66 anos. Não quer mais provocar ninguém como na época (começo dos anos 1960) em que gravou seus primeiros discos para a Blue Note ao lado de Jackie McLean. Hutcherson já deixou de ser "free" há algumas décadas. Seu negócio é hard bop. Tanto melhor. Limitou-se a ser acompanhante de DeFrancesco que, cada vez mais, segue o trem desgovernado do órgão de Jimmy Smith. Hutcherson tem conduzido sua carreira de modo mais estratégico que Cecil Taylor: aproximou-se de músicos jovens (tem gravado regularmente com Joshua Redman e Nicholas Payton), inclusive DeFrancesco, de 36 anos, buscando uma saída no diálogo intergeracional. Taylor virou uma curiosidade arqueológica: todos querem ver como o pioneiro do free jazz trata seu piano como se fosse uma bateria. Além disso, Taylor é o one-man multimedia: canta, lê poesia, usa meias escandalosas, conserva dreadlocks nos fios que restam de seus cabelos e é assumidamente um gay sentimental, que chora quando ouve o saxofonista James Carter tocar Good Morning Heartache. Só que é preciso manter a reputação e ninguém jamais ouvirá Cecil Taylor tocando algo assim.   Já o saxofonista Joe Lovano não teria pudor em tocar a popular canção de Dan Fisher, imortalizada por Billie Holiday. Ele programou um bocado de peças antigas que já têm para lá de seis décadas, entre elas três gravadas pelo trompetista Miles Davis em 1949, no histórico álbum The Birth of Cool, que ajudou a formatar a "cool school" na costa oeste americana. Lovano gravou, no ano passado, essa suíte como tributo a dois estilos de jazz, o cool e o free, tendo como arranjador o compositor erudito Gunther Schuller, prêmio Pulitzer de composição, que tocou no disco de Miles e cunhou o termo "terceira corrente", ao propor uma fusão híbrida da técnica clássica e jazzística. Lovano é seu discípulo. Isso ficou claro no show de domingo, 28, no auditório Ibirapuera. Ninguém de seu noneto ousou sair da linha. Por vezes era possível imaginar que se estava ouvindo a antiga orquestra de John Green, não fosse uma ou outra escapadela do trompetista citando Tom Jobim em meio à suíte de Schuller.   Ainda como homenagem aos gênios, Joe Lovano tocou Ask Me Now, do pianista Thelonious Monk, que, nunca é demais lembrar, também foi parceiro musical de Miles Davis. Lovano, porém, é reverente demais. Introduziu o tema por três saxofones, eclipsando o piano, foco da composição de Monk. Comparando com a gravação de 1965 (em Solo Monk), o arranjo de Joe Lovano revela falta de entendimento do legado de Monk, mas valeu a intenção, mesmo com a pouca ousadia do saxofonista.   Não se pode dizer que o trombonista Conrad Herwig, última atração da noite de segunda, seja menos equivocado. É bom instrumentista, mas, como arranjador, faz cruzamentos insólitos que parecem pitbulls sonoros. Imagine, por exemplo, So What, a provocação suprema de Miles Davis, tocada por um grupo de salsa ou em ritmo de rumba. Foi esse o desastre que aconteceu. Ora, Miles gravou So What há meio século com toda a sutileza que se pode exigir de um músico (no histórico Kind of Blue), acompanhado na empreitada pelo pianista Bill Evans e o baixista Paul Chambers. Herwig não tinha acompanhantes do mesmo nível no show. Recorreu, então, à lenda do trombone Raul de Souza para salvar Miles Davis. O brasileiro é ótimo, mas não faz milagres. Herwig partiu para outra.   Antes, deixou seu percussionista cubano Pedro Martinez cantar, acompanhado de sua conga. Pedrito arriscou até alguns comentários sobre a intolerância da igreja católica contra as santerias, mensagem subliminar encaixada na letra de sua música. A proposta de Herwig, porém, era explorar a latinidade existente na música de Miles Davis, John Coltrane e Wayne Shorter. Como uma experiência genética que não deu certo, os três amigos do jazz perderam as feições e ficaram com cara de Paquito de Rivera pós-aplicação de botox. Nem tudo é permitido no jazz. Até Miles sofreu em sua fase fusion. Felizmente recuou a tempo.

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