WILTON JUNIOR / ESTADAO
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Nelson Sargento ajudou a revelar o 'morro real' cosmetizado pela alta cultura brasileira

Ao lado de Zé Keti, Paulinho da Viola e Elton Medeiros no grupo A Voz do Morro, sambista começou a mostrar que, lá em cima, e ao contrário das narrativas da "favela imaginária" de autores não negros, havia primavera, amores e sonho

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2021 | 18h28

Antes de Nelson Sargento descer ao asfalto para começar a dizer o que tinha a dizer, a vida nos barracos era um tanto imaginária, cantada com poesia por gênios sofisticados e não negros que a observava sem necessariamente subir a Mangueira e o Salgueiro. Dois Brasis tão próximos e tão distantes que obedeceram por anos a uma lógica tácita de submissão cultural e de poder eternizador às obras que dela saíram: para que a história do negro iletrado fizesse parte da alta cultura nacional, ela deveria passar pelo filtro inconteste dos diplomados. Assim, o diplomata Vinicius de Moraes e o ex-estudante de arquitetura Tom Jobim se conheceram transpondo o mito grego de Orfeu para a realidade que imaginavam ser a das favelas cariocas com Orfeu da Conceição, em 1956; o ex-aluno do Liceu Pasteur Sérgio Ricardo contou sobre a enchente que levou o barraco, o violão e os “pedaços tristes” de um favelado na canção Zelão, de 1960; e, para ficar em três exemplos, o ex-aluno de direito da PUC-Rio Edu Lobo criou para Augusto Boal, em 1965, músicas para a saga Arena Conta Zumbi, sobre o rei africano congolês Ganga Zumba, que chega ao País para se tornar líder no Quilombo dos Palmares.

Aí mesmo, exatamente nesse 1965, foi que surgiu uma resposta às narrativas de morro criadas pela zona Sul do Rio. Não por acaso chamado A Voz do Morro, o grupo de sambistas negros trazia só quem sabia o que significava a palavra. Zé Keti, portelense, era autor do samba de mesmo nome, A Voz do Morro, de 1955. Mais remediado mas nem tanto, Paulinho da Viola, 23 anos, vinha de Botafogo mas frequentava Vila Valqueire e ainda não tinha lançado seu primeiro disco. Elton Medeiros, da Glória, já havia feito uma caixa de fósforo se tornar tamborim e criado, com o ainda inédito em LPs Cartola, a imortal O Sol Nascerá. E mais Anescarzinho do Salgueiro, o portelense Jair do Cavaquinho, o mangueirense Zé Cruz e o primo de Paulinho, Oscar Bigode, diretor da bateria da Portela, traziam tudo o que as quadras haviam ensinado. Nelson Sargento aparecia ao mundo ali, dez anos depois de dar uma resposta surpreendente a quem acreditava que só poderia haver tristeza e indignação sob os tetos de um barraco com o samba Primavera: “Oh! primavera adorada / Inspiradora de amores / Oh! primavera idolatrada / Sublime estação das flores.” Mas como um maltratado rapaz que só seria tratado com alguma dignidade maior nos anos de serviço às forças armadas poderia ver flores? Sim, ele via, e havia muito mais delas de onde Nelson saiu.

Pelas quadras da agremiação Azul e Branco, no Morro do Salgueiro, Nelsinho gastava o tempo livre do trabalho de entregador das roupas lavadas pela mãe para as famílias que podiam pagar pelo serviço aprendendo o que era samba. O pai, que o garoto pouco conheceu, acabou morrendo precocemente mas o padrasto, Arthur Pequeno, era amigo de Alfredo Português, um raro português sambista e dos grandes autores da Estação Primeira de Mangueira que se tornaria seu primeiro parceiro. Um álbum solo de Nelson só viria mesmo em 1979, Sonho de um Sambista, e mesmo lá, o rancor e a tristeza não eram maior do que uma mania de ter esperança que nunca o deixaria. Agoniza Mas Não Morre, o que chamariam hoje de “Respira”, se tornou sua obra maior: “Samba, agoniza mas não morre / Alguém sempre te socorre antes do suspiro derradeiro / Samba, negro, forte, destemido / Foi duramente perseguido na esquina, no botequim, no terreiro./ Samba, inocente, pé-no-chão / A fidalguia do salão te abraçou, te envolveu / Mudaram toda a sua estrutura, te impuseram outra cultura e você não percebeu.” 

A Voz do Morro primeiro, e as vozes individuais de seus sambistas depois, passaram a cantar uma realidade talvez não tão catastrófica quanto a imaginária. Com álbuns de baixíssimo orçamento, sendo a estreia feita com Roda de Samba 1, de 1965, lançado pelo selo Musidisc com uma instrumentação rudimentar e muito improviso, o Voz abria as portas para o samba lançado em larga escala sem os filtros e a cosmética do favelismo poético. Questões raciais e históricas que remetessem à vinda dos escravos e seus consequentes contextos sociais passavam longe das preocupações de quem vivia nas favelas. Isso era conversa para universitários. Os morros de Sargento queriam escrever com poesia e cantar suas figuras ilustres: o bicheiro, o malandro, o conquistador, o traído e os amores perdidos. Conversa de Malandro, de Paulinho da Viola, lançado no primeiro álbum, falava da felicidade de um ex-malandro que havia deixa a orgia para se dedicar ao matrimônio. Linguajar do Morro, de Noca da Portela e Zé Cruz, desenhava para os não iniciados: “Tudo lá no morro é diferente / Daquela gente não se pode duvidar / Começando pelo samba quente / Que até um inocente sabe o que é sambar / Outro fato muito importante / E também interessante / É a linguagem de lá / Baile lá no morro é fandango / Nome de carro é carango / Discussão é bafafá”. E Pranto Ardente, de Nelson Sargento e Oscar Bigode, mesmo composta por um Nelson então com 41 anos de idade, projetava-se em personagens que os morros têm aos montes e muitos se esquecem: “A minha mocidade já tão longe vai / Por isso um pranto ardente dos meus olhos cai / Sou um pobre velho apoiado num bastão / Vivo sem abrigo, implorando proteção.” O morro de Nelson Sargento, ao final, revelava-se nem tão diferente assim do asfalto. Ele só queria ser escutado com a mesma atenção.

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