Nelson Motta fala de livro e CD

Vestido totalmente de preto, como de hábito, Nelson Motta participou de uma coletiva de imprensa na sede da gravadora Universal, no Rio, que acaba de lançar o CD Noites Tropicais - A trilha sonora de nossas vidas, inspirado no livro homônimo, escrito em grande parte em Nova York, cidade onde está radicado há oito anos. Motta estava falante e bem humorado em sua passagem pelo Brasil para este lançamento. Para entender o CD, é necessário conhecer o livro, que registra toda a trajetória da música brasileira dos anos 60 aos 90. É preciso saber do desinteresse que o adolescente Nelson Motta tinha pela música até ouvir João Gilberto pela primeira vez, em um rádio de pilha, então novidade no Brasil. Era uma pacata Copacabana, em 1958. "Andávamos de biquini e calção, e o surf era no peito, não tinha prancha", recorda. Começa aí sua ?fascinação? pela bossa nova e pela música de Tom Jobim, Vinícius, Carlos Lyra, e tantos outros que marcaram sua vida profissional."Como empresário da noite, Motta foi proprietário da histórica Dancing Days, uma casa que foi precursora da onda de discotecas no Brasil. Como compositor assina o hit Perigosa, responsável pelo lançamento das Frenéticas, nos anos 70. Como jornalista, dirigiu o programa Chico e Caetano , na TV Globo, foi produtor e apresentador de programas de rádio, além de ter sido grande amigo de Edu Lobo, Dori Caymmi, Francis Hime, Chico Buarque, e Toquinho - "todos sonhando em viver de música no Brasil", conta.Esse histórico permitiu a Motta escrever a crônica musical brasileira desses 30 anos, lembrando Nara Leão, a cantora que valorizou os sambistas cariocas, a Jovem Guarda, Gal Costa, Gil, Chico Buarque, etc. "Acabei acompanhando a moçada que viria a fazer o melhor do rock dos anos 80: Blitz, Lobão, Lulu Santos, Ultraje a Rigor, Cazuza, Renato Russo, e tantos outros", comenta. "O livro Noites Tropicais nasceu do meu desejo de escrever a biografia do Tim Maia, um dos mais talentosos artistas brasileiros, um dos meus maiores amigos. O projeto não foi adiante por problemas com seus familiares, herdeiros, ex-mulheres, enfim, uma situação bem Tim Maia", esclarece Motta com humor. E conta que o projeto do CD nasceu, naturalmente, assim que começou a escrever o livro e custou-lhe um ano e meio de trabalho. Difícil? "Foi realmente muito difícil, imagine um CD para escolher a trilha sonora de 40 anos de música brasileira? Decidi escolher uma música de cada compositor e, mesmo assim, tive de apertar para caber". Quem ouvir o CD sem conhecer o livro não entenderá muito bem a seleção. A música da Rita Lee, Festa de Arromba, uma parceria com o Paulo Coelho, não foi seu maior sucesso, mas representa o período relatado no livro, quando Rita, grávida, foi presa em São Paulo por causa de uma bagana de maconha. O CD tem ainda uma versão de Ela é Carioca, de Sérgio Mendes & Bossa Rio, talvez a maior banda instrumental do Brasil, com arranjo de Tom Jobim, uma gravação original e inédita em CD". Livro e disco terminam com a cantora Marisa Monte revelada por Nelson Motta.Venho muito ao Brasil e meus amigos reclamam da onda de pagode, sertanejo e axé, mas não posso reclamar de um país que tem Marisa Monte, Ed Motta, Cássia Eller, Chico César, isso só para falar dos anos 90". E justifica "Em todas as épocas existe este tipo de música descartável, produto de consumo cujo público não tem memória?, diz.Em seu exílio voluntário nos Estados Unidos, Motta demonstra ceticismo com a situação da cultura nacional: "o triste no Brasil é a impossibilidade de viabilizar projetos. Atualmente, estou negociando a tradução do meu livro para o inglês, o que abrirá naturalmente as portas dos mercados da Itália e do Japão. A música brasileira tem fãs no mundo inteiro e, com exceção do futebol, ela é a mais importante manifestação nacional?, conclui.

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