Cultura Artística/Divulgação
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Nelson Goerner, um pianista sem medo de riscos

A bem-vinda ousadia do intérprete produz puro encantamento ao mesclar paixão e fúria em Schumann, Haendel e Chopi

João Marcos Coelho , Especial para o Estado

25 de agosto de 2015 | 05h00

Aos 45 anos, Nelson Goerner é da tribo dos cada vez mais rarefeitos pianistas que gostam de correr riscos. Numa era em que a maioria se esconde em interpretações meramente corretas, ele enfrenta saltos mortais sem rede. Uma ou outra nota fora do lugar sempre soa melhor que a mediocridade segura.

Direto ao clímax do recital. Goerner foi estupendo e pessoal na memorável leitura da “Fantasia” opus 17 de Schumann. Empenhada e carnal como imaginou o próprio compositor, que ali retrata os altos e baixos de sua atribulada relação com Clara Wieck. Trinta minutos de música forjada em paixão e fúria. O primeiro movimento, escrito em 1836, quando os namorados foram proibidos de se ver pelo pai dela, levou o título Ruína.

De fato, a palavra ruína é pedra de toque desta obra-prima – e uma espécie de súmula da estética romântica, como acentuam três agudos estudiosos de sua obra. Linda Correl Roesner afirma que Schumann “compõe como um improviso planejado”; Charles Rosen a chama de “estética do fragmento”. E John Daverio fecha o raciocínio ao evocar “uma constelação de fragmentos, sempre levando em conta que a música pode ter a mesma substância intelectual que a literatura”. Não por acaso, terçam lanças os dois alter egos do compositor nesta Fantasia: o raivoso Florestan e o gentil Eusebius.

Outra bem-vinda ousadia foi abrir o recital com a Chacona de Haendel, 10 minutos de puro encantamento desta forma do século 18 que estabelece uma linha de baixo ostinato sobre a qual se tecem variações. Curiosidade: Haendel pegou esta linha de baixo de Purcell, e Bach também a usou nas Goldberg, anota Christopher Hogwood em seu livro sobre Haendel. A sensação é que deveríamos ouvir mais a obra para teclado de Haendel em salas de concerto e com pianos modernos, modernamente soterrada por seu contemporâneo Bach.

Na segunda parte, uma justaposição perfeita: Chopin e Scriabin, nesta ordem. Um pianista mais convencional começaria com a arisca sonata n.º 5 de Scriabin e terminaria cobrindo-se de glória romântica com Chopin. Pois Goerner mostrou como Scriabin é o resultado moderno de uma fusão entre Liszt e Chopin. Daí os dois noturnos, face mais acessível e sedutora do polonês, seguidos do parrudo Scherzo, que prenuncia todo o pianismo moderno. 

A ordem das três peças de Scriabin também seguiu o mesmo script. Primeiro, os dois lindos “Poemas” romanticamente bem comportados, de 1903, momento em que ele começa a aplicar à música os princípios da teosofia; e, no final, a curta porém monumental Sonata n.º 5, de 1907, ano em que Scriabin assumiu de vez sua revolução estético-misticista. A epígrafe conclama “à vida forças misteriosas afogadas nas obscuras profundezas (...) eu vos trago a audácia”. E que audácia. Richter considerava esta a peça mais difícil do repertório pianístico. Goerner foi preciso.


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