Iara Morselli/ Estadão
Iara Morselli/ Estadão

Nelson Freire, soberano e servo de Debussy e Chopin

Ato genial em vários momentos de recital que abriu a temporada 2014 da Sociedade de Cultura Artística

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2014 | 02h10

É lugar-comum dizer que a música só ganha vida no instante da performance. Não, discorda Alfred Brendel em seu delicioso ABC do Pianista, publicado em 2012. Ela já vive na partitura, mas está adormecida. "O intérprete tem o privilégio de despertá-la ou, falando mais carinhosamente, dar-lhe vida com um beijo." Nosso maior pianista Nelson Freire é hoje, possivelmente no mundo inteiro, o músico que melhor sabe despertar uma música, beijando-a delicadamente.

Quem esteve na Sala São Paulo na quarta-feira, compartilhou este ato genial em vários momentos de seu recital que abriu a temporada 2014 da Sociedade de Cultura Artística. Nas três peças de Debussy que abriram a segunda parte, por exemplo. Em Les Collines d'Anacapri, seus dedos transformaram o teclado praticamente numa harpa, tamanha a leveza de toque. Em Soirée Dans Grenade e Poissons d'Or, encantaram as meias-tintas e a gradação quase infinita de dinâmica, do pianíssimo ao forte. Em Chopin, a célebre Berceuse recebeu a mais perfeita tradução do que significa, na feliz expressão de Brendel, "despertar a música beijando-a delicadamente". Em Debussy e Chopin, Nelson entrega-se simultaneamente ao compositor e ao público. "Domina-se e se esquece de si mesmo. Impressiona por sua presença e, quando tem sorte, se dissolve ao mesmo tempo na música. É um soberano e um servo." Brendel define assim a interpretação. E foi o que se viu e ouviu com Nelson soberbo em Chopin e Debussy. Ninguém é melhor do que ele neste tipo de repertório.

O mesmo não se pode dizer do Beethoven da primeira parte. Nelson escolheu justamente a mais enigmática das 32 sonatas, aquela que, de novo citando Brendel, "reúne presente, passado e futuro, o sublime e o profano". Aqui, a música não pode ser despertada com um beijo, mas arrancada de seu sono com um "pathos" heroico, dramático. Na verdade, este despertar é um longo processo contraditório, de idas e vindas, negações e afirmações. A tensão não se sustentou. Nelson parece afobar-se, querendo resolver logo a aporia de uma música que, ao contrário, quer é banhar-se nas contradições. Acaba acelerando desnecessariamente, talvez confundindo dramatismo com aceleração do andamento, me arrisco temerariamente a afirmar.

O fato é que quem assistiu, na mesma Sala São Paulo, ao pianista húngaro Andras Schiff tocar esta mesma sonata opus 11, em agosto de 2012, com certeza percebeu a diferença. Schiff não só convive com as contradições características deste Beethoven tardio como as faz aflorar em toda a sua dramaticidade. Não tenta resolvê-las, como quis Nelson anteontem.

SONATA DE BEETHOVEN PODERIA ESTAR MENOS ACELERADA, NA PRIMEIRA PARTE

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