Nelson Freire interpreta Brahms em São Paulo

O pianista Nelson Freire, um dos nossos mais aclamados artistas em atividade no exterior, apresenta-se de amanhã a sábado com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Ele faz três concertos: quinta e sexta na Sala São Paulo e sábado no Auditório Cláudio Santoro, em Campos do Jordão, na abertura da edição deste ano do festival de inverno da cidade. A regência será de Roberto Minczuk.O programa das três apresentações é o mesmo. Na primeira parte, o magnífico Concerto nº 2 para Piano e Orquestra de Brahms, e, na segunda, a cantata Belshazzar´s Feast, do compositor britânico William Walton, que será interpretada pela primeira vez em São Paulo e contará com a participação do Coro da Osesp, regido por Naomi Munakata, e do barítono norte-americano Thomas Potter.O concerto de Brahms não somente é um dos mais complicados do repertório para piano e orquestra como, de certa forma, redefiniu o modo de se combinar a orquestra com o solista que, nele, antes de qualquer tipo de exibição virtuosística, aparece integrado de modo orgânico ao conjunto que toca a seu lado.O que não significa que a parte do solista é inexpressiva e muito menos grandes dificuldades para Freire, avesso a qualquer tipo de exibicionismo. Discreto, o pianista mineiro percorreu um longo caminho desde Boa Esperança - no interior de Minas Gerais - até a consagração em palcos europeus, sempre respeitando os ensinamentos a ele passados pela professora Nise Obino. "Muitos artistas tentam compensar suas interpretações com gestos, mas isso é uma ilusão. O que realmente importa é saber ouvir", disse ele à reportagem da Agência Estado na última vez que esteve na cidade, para concerto no Teatro Alfa.Nise foi uma das professoras incumbidas de guiar o talento do jovem Nelson, que, com apenas 4 anos, saiu de sua cidade natal ao lado de sua família - preocupada em encontrar um ambiente propício para que o filho pudesse desenvolver seu talento - em direção a Varginha, onde havia um professor de piano uruguaio que o aceitou como aluno e, após 12 aulas, chamou seu pai para dizer que Nelson tinha pela frente uma carreira promissora. O encontro com Nise Obino deu-se um ano mais tarde, quando a família Freire resolveu mudar-se para o Rio, onde também teve aulas com Lúcia Branco. "De dona Lúcia obtive uma educação privilegiada e, de Nise Obino, além de música, aprendi todo o aspecto psicológico e espiritual de que um artista necessita. Na infância, Nise ensinou-me a cuidar da postura como pianista; depois, no decorrer da vida, aprendi que o mais importante é saber se ouvir."Elogios - Não faltam elogios no currículo de Freire. Na década de 50, o Diário de Notícias, do Rio, publicava em suas páginas uma matéria com a seguinte manchete: "Um caso espantoso de precocidade." Anos mais tarde, na década de 70, um crítico da revista Time comparava a sua técnica à "heróica perfeição de Horowitz". E, nos anos 80, foi considerado pela revista Newsweek um dos quatro maiores pianistas da atualidade. O que já é muito, antes mesmo de se olhar os nomes com quem dividia a lista: Maurizio Pollini, Alfrend Brendel e Martha Argerich.Não foi apenas a imprensa, porém, que reconheceu o seu talento. O grande gênio do piano Arthur Rubinstein disse a Freire, certa vez, após ouvi-lo tocar o Noturno, de Chopin: "Você faz os temas como eu." Alfred Brendel elogiou sua versão de Chopin. E Guiomar Novaes - de quem Freire costuma elogiar a espontaneidade e o frescor na interpretação - afirmou: "É um pequeno Rubinstein."Comparações à parte, Freire soube criar estilo e repertório próprios. As suas últimas apresentações em São Paulo, assim como suas gravações, mostram que peças - como o concerto de Brahms - que compõem o repertório tradicional não são as únicas a interessar ao pianista, também bastante atento ao repertório nacional. Nos últimos anos, tem incluído obras de compositores como Villa-Lobos e Camargo Guarnieri em suas apresentações na cidade. Em sua pequena discografia, o álbum dedicado a Villa-Lobos (lançado pela Warner e com peças como A Prole do Bebê, Bachianas Brasileiras n° 4, As Três Marias e Rudepoema) é um dos principais destaques, ao lado de gravações de Chopin, Schubert e Brahms.A apresentação com a Osesp não será a única oportunidade de ver Freire de perto em São Paulo. Ele volta à cidade em agosto para recital que faz parte da programação de concertos beneficentes da Tucca (Associação para Crianças e Adolescentes com Tumor Cerebral), que também inclui apresentações de Antonio Menezes e Cristina Ortiz e do musical Vítor ou Vitória, em agosto.Chance de ver em ação um artista que ama a música acima de tudo. "Sinto-a em todos os momentos de alegria, tristeza ou simplesmente em momentos de coisa alguma, o que é algo muito contagiante." E que, no entanto, não gosta muito de falar no assunto. "Na França, o país do falatório, eles adoram interromper transmissões de rádio para tecer comentários, criticar, elogiar: não há nada mais irritante." Ou melhor: "Existe sim, alguém que fica assobiando junto."Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Regência de Roberto Minczuk e solos de Nelson Freire. Quinta e sexta, às 21 horas. De R$ 10,00 a R$ 30,00. Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, s/n.º, em São Paulo, tel. (11) 3337-5414; sábado, às 21 horas. R$ 50,00. Auditório Cláudio Santoro. Avenida Doutor Arrobas Martins, 1.880, tel. (0--12) 262-6000. Campos do Jordão.

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