Nelson Freire inicia turnê e lança álbum <i>Beethoven</i>

Para quem ficou 20 anos sem gravar, evitando a todo custo pisar em um estúdio, Nelson Freire está se saindo uma grata surpresa. Em 2004, assinou contrato de exclusividade com a Decca e, nos anos seguintes, lançou álbuns dedicados a Chopin e Schumann. Em agosto, apareceu o terceiro disco, com os concertos de Brahms. E agora, menos de três meses depois, chega o quarto do pacote, com sonatas de Beethoven. E ele não vem sozinho: o lançamento, na semana que vem, coincide com a chegada às lojas européias de uma caixa com três discos gravados por ele nos anos 70, dedicados a Chopin e Villa-Lobos. Detalhe: em iniciativa rara no mercado erudito, o álbum pode ser baixado pela internet. Freire lança o álbum Beethoven (que traz as sonatas n.º 14, n.º 21, n.º 26 e n.º 31) no Brasil com uma pequena turnê, que começa neste domingo no Rio, passa por São Paulo na quinta-feira e se encerra em Tiradentes, no dia 24. No Rio e em Minas, ele vai interpretar obras de Bach, Beethoven, César Franck, Francisco Mignone e Chopin. Em São Paulo, o repertório é surpresa - e os ingressos estão esgotados. "Gostei da idéia de decidir o repertório em cima da hora. Acho que vou ver o que ficou melhor nos outros programas e aí repito", diz, por telefone, de sua casa no Rio, durante entrevista na qual falou de Beethoven, do desejo de gravar uma antologia de música brasileira e do momento que vive na carreira. Sua volta ao mundo das gravações começou com Schumann e, na seqüência, vieram Chopin e Brahms, compositores com o qual sua carreira sempre foi associada. Chegou a vez de Beethoven. Era algo que estava previsto desde o início? Nelson Freire - As gravações para a Decca estão sendo decididas no meio do caminho, na verdade. Só os concertos para piano de Brahms já estavam certos, isso porque o Riccardo Chailly (maestro da Gewandhaus de Leipzig) queria fazer e eu tinha gostado bastante da idéia. O Beethoven eu escolhi porque acho que é uma novidade na minha discografia. Já tenho muito Schumann Chopin, quis variar. Eu adoro este repertório, amo mesmo. Mas é bom também fugir dos rótulos, não gosto de ser rotulado, quero variar. O privilégio do intérprete, acho, é poder viajar, mudar de mundo a cada concerto, cada recital. Como você definiria a importância das 32 sonatas de Beethoven dentro do repertório pianístico? Acho, na verdade, que nessas sonatas você encontra a essência da genialidade de Beethoven. Elas são tão diferentes... Cobrem todos os períodos da carreira dele, desde o início, com influência de Haydn, passando pela revolução dos primeiros momentos do romantismo e chegando, nas últimas sonatas, à música moderna quase. Mas o que me interessa muito é quantidade fabulosa de emoções que você encontra nessas peças. Todas as que existem estão lá, de alguma maneira, você pode procurar (risos). Você já afirmou várias vezes que não gosta de ouvir seus discos, prefere os dos outros. Em Beethoven, que outro pianista lhe faz a cabeça? Ah, são vários. Tem os especialistas, Artur Schnabel, Wilhelm Backhaus, Walter Gieseking, o Frederich Goulda, que gravou as sonatas nos anos 50. Mas também gosto dos não especialistas. Guiomar Novaes, Horowitz, Rubinstein. Beethoven tem isso, acomoda uma variedade muito grande de interpretações das mais diferentes vertentes. A Warner também acaba de lançar um disco com obras de Villa-Lobos. Você tem vontade de voltar a elas, inclusive com novas gravações? Claro, tenho muita vontade. O repertório é vastíssimo e pouco tocado. As pessoas conhecem o nome de Villa-Lobos mas não conhecem a música dele. Mas aí quero fazer também uma antologia brasileira, com Francisco Mignone, Lorenzo Fernandes, Claudio Santoro. Se der, quero também fazer um disco com obras de Liszt, outro só com música de compositores franceses, um de Mozart. Ah, tem muita coisa! A Warner está oferecendo esse disco também em versão digital, para download, o que ainda é raro no mercado de clássicos. Esse flerte com a tecnologia te interessa? Ih, não me pergunte nada dessas coisas de internet, e-mail, não tenho idéia de como funciona (risos). Acho que disco inteiro deve ser o primeiro, mas a Decca ia oferecer, quando eu lancei os concertos de Brahms, um Intermezzo dele e, agora, uma Bagatela de Beethoven, que não está no disco mas que eu gravei. Mas não sei como funciona, deve ter um botão desses aí que ajuda (risos). No Rio e em Minas, você vai tocar um repertório variado, com Bach, Beethoven, César Franck, Albéniz, Mignone. Para São Paulo, está anunciado um repertório-surpresa. Eu sei que, se você contar alguma coisa, deixa de ser surpresa, mas... Acho que vou fazer o seguinte, tocar os dois programas e aí ver o que ficou mais bonito, para repetir em São Paulo. Mas sabe que eu gostei muito da idéia do repertório-surpresa? É meio absurdo esse negócio de ficar prevendo com meses de antecedência o que você vai tocar, você nunca sabe o que vai ter vontade de tocar no dia, qual o clima, como vai sentir a platéia, essas coisas. Então é bom poder decidir assim, em cima da hora. Estou animado. Quando você assinou o contrato com a Decca, disse que o disco tinha uma vantagem: podia viajar pelo artista, de forma que você esperava poder reduzir o ritmo de concertos. Mas sua agenda parece mais intensa do que nunca. O que deu errado? Pois é, minha tática não funcionou, rapaz. No final das contas, estou viajando muito mais, indo para lugares que não conhecia, como a Coréia. E para eles é bom, porque ajuda a divulgar os discos. Tá terrível! (risos). Mas está sendo interessante, às vezes fico meio assustado, mas no fundo está bom assim. Primeiro, foi o filme de João Moreira Salles, que levou seu trabalho a um público bem amplo. Agora, a participação, com a "Melodia de Orfeu e Eurídice", na trilha da novela "Páginas da Vida". Nelson Freire agora é pop? (Risos). Quando eles vieram nos consultar, perguntando se podiam usar a gravação, eu e o João Moreira Salles ficamos em dúvida, talvez banalizasse demais se fosse o tema da novela. Mas depois ficamos sabendo que não seria o tema principal, então tudo bem. E novela é algo que atinge milhões de pessoas, então não deixa de ser uma maneira de difundir a música clássica pelo interior do País. Claro, o enfoque não é esse, mas é bom saber que você está chegando à gente que nunca tinha ouvido esse tipo de música Nelson Freire. Auditório Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/n.º, Portão 2, 5908-4299. 5.ª (9/11), 20h30. R$ 30 e R$ 160

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