Nélson Freire faz concerto beneficente em SP

O pianista brasileiro radicado na França Nélson Freire faz, nesta terça, na Sala São Paulo, uma apresentação beneficente em prol da Associação para Crianças e Adolescentes com Tumor Cerebral (Tucca). Com um programa bastante variado, porém, como ele mesmo ressalta, "com um propósito bem definido", ele volta aos palcos paulistanos tocando um pouco daquilo que esteve presente em sua longa carreira como solista de prestígio internacional.Ele abre o concerto com uma transcrição de Siloti para piano do Prelúdio em Sol Menor para Orgão, de Bach. "Trata-se de uma peça bastante interessante", define Freire. Na seqüência, ele interpreta peças do repertório romântico de Schumann e Chopin. Primeiramente, estão Arasbesque e Fantasie, de Schumann. "Gosto muito de tocar Fantasie após Arabesque, pois elas representam um contraste: a segunda soa como uma carícia de brisa primaveril ao passo que Fantasie traduz um grito de paixão, sendo uma das mais importantes peças do repertório romântico."Em seguida, toca Três Mazurcas op. 5, o Scherzo em Mi Maior e Barcarola, de Chopin. "Escolhi as Três Mazurcas por elas formarem um todo de lirismo e serem extremamente requintadas, cada uma com seu caráter singular." A razão da escolha do Scherzo é pessoal. "Durante muito tempo ele foi o menos popular dos quatro mas, leve e alegre, é o que mais se aproxima da designação do título e a melodia da parte central é uma das mais belas do compositor e uma das minhas preferidas."De Myra Hess ele interpreta a transcrição para piano de Jesus Alegria dos Homens, também de Bach. "Quando ela fez esse interessante trabalho de transcrição, a peça tornou-se hit mundial."Quatro mãos - A paráfrase de Godowsky a partir de Die Fledermaus, de Strauss, também está presente. "É dificílima, com suas vozes entremeadas dando a impressão não de duas, mas de três ou quatro mãos tocando simultaneamente e, além disso, a interpretação tem de ser elegante e fluir como água." Quem quiser conferir sua inspirada interpretação desta peça, pode recorrer à edição dedicada a Nélson Freire da série Great Pianists, da Philips.A música brasileira não ficou de fora e ele interpretará em suas palavras, "algumas pequenas jóias do repertório nacional". A primeira é Minha Terra, de Barroso Netto. "É uma peça bastante sutil em harmonias e ritmicamente muito brasileira, sem, no entanto, apelar para o óbvio." O programa segue com Tocata, composta por Camargo Guarnieri e dedicada a Guiomar Novaes. "É uma obra-prima", afirma Freire. E completa: "É uma peça pouco tocada porque é muito difícil, haja vista a indicação que o compositor faz na partitura: picante ma con garbo."Por fim, como não poderia deixar de ser, Villa-Lobos. Dele, Freire toca Alma Brasileira e As Três Marias. "Esta peça é uma jóia, fugaz como as estrelas em que se baseou."Sucesso - Nélson Freire já foi considerado, em 1980, pela revista norte-americana Newsweek, um dos quatro maiores pianistas da atualidade (ao lado de nomes expressivos como Pollini, Brendel e Marta Argerich). Em 1970, a Time já havia publicado uma crítica na qual sua técnica fora comparada à "heróica perfeição de Horowitz". E até mesmo Arthur Rubinstein ao ouvi-lo tocar o Noturno, de Chopin, teria dito: "Você faz os temas como eu."No entanto, ele afirma não estar num momento em que possa dizer que já fez de tudo. E, aos 55 anos, está mudando sua relação com os concertos que faz no Brasil: ele tem feito, ao longo do ano, apresentações beneficentes. Para ele, além desses concertos serem fonte de realização pessoal, esta é uma forma de colaborar com a situação ruim por que passa o País. "Quero fazer concertos que me deêm prazer e que, de alguma forma, possam colaborar com a complicada situação política, econômica e social do Brasil."Gravações - Em seus planos, também está a volta aos estúdios. "Quero gravar algumas peças brasileiras, pequenas jóias que, infelizmente, não têm espaço nos programas dos concertos que faço ao redor do mundo." Antes que isso ocorra, porém, o público brasileiro poderá conferir seu trabalho em gravação. Foi lançado em julho o primeiro de uma série de quatro discos intitulada Nélson Freire en Concert, que reúne gravações feitas por rádios francesas e alemãs de recitais do artista nas décadas de 70, 80 e 90.Mais do que nunca apaixonado pela música, com quem nutre uma relação ativa, ele afirma sentir sua presença em todos os momentos de sua vida. "Sinto a música em momentos de alegria, tristeza ou, simplesmente, em momentos de coisa alguma: não imagino música sem vida, o que é algo contagiante", admite Freire.Sempre preocupado com seu repertório, Freire colhe os frutos do cuidado em relação às obras que interpreta. "Há peças que toco em meus concertos e outras que preparo só para mim, à espera do momento certo de levá-las ao palco; e essa espera tem se mostrado bastante interessante." A razão: "Tive a grata surpresa de, depois de esperar por um tempo antes de interpretar uma peça, ver que as dificuldasdes foram superadas; enfim, detalhes aparentemente sem importância, mas, na verdade, fundamentais, como a respiração, um dedilhado, uma atitude, uma série de coisas que vêm à tona após o famoso ´banho-maria.´"Nelson Freire - Terça-feira, às 21 horas. De R$ 40,00 a R$ 120,00. Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, s/n.º, tel. 3351-8000.

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