Iara Morselli/Estadão
Iara Morselli/Estadão

'Nelson Freire - Bach' traz o essencial de Bach, por Nelson Freire

Amplitude das frases e a riqueza melódica marcam seu toque aveludado

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO

19 Julho 2016 | 22h56

Que Johann Sebastian Bach (1685-1750) é alfa e ômega da música para teclado, raros duvidarão. Um trajeto que inclui as partitas e os dois volumes revolucionários do Cravo Bem Temperado até atingir a abstração pura da Arte da Fuga, que sequer prevê instrumentação. Quis a tradição cristã que a primeira e a última letra do alfabeto representassem a figura de Deus. Pois Bach parece mesmo abraçar o começo e o fim, ser o mais poético e o mais radical dos compositores, de ontem e de hoje. Foi ungido em 1829, em Berlim, pela opinião pública, como pai fundador da música clássica europeia no histórico concerto em que Mendelssohn comandou uma execução da Missa Segundo São Mateus. Nascia ali o mito de Bach como o pai da “mais alemã das artes” e primeiro fiador do sonho de se constituir um Estado alemão – o que só aconteceu meio século depois, com Bismarck.

Todo candidato a pianista começa martelando as invenções a duas vozes, passa pelas suítes francesas e inglesas e desembarca no Cravo. Todo pianista na plena maturidade sabe que conquista o público por meio do repertório romântico, mas tem consciência de que, para refazer as forças, é necessário revisitar Bach. Numa de suas mais emocionantes gravações, as ‘final sessions’ de 1991, Claudio Arrau gravou quatro das seis partitas.

Agora, é Nelson Freire que escolhe uma dessas seis partitas, a quarta, para abrir um CD inteiro a Bach. É como se o menino de Boa Esperança refizesse seu itinerário pedagógico. Do alto de seus 71 anos, Nelson promete – e entrega – o essencial. Sente-se isso em cada uma das 23 faixas. É uma sensação preciosa, que todo apaixonado por Bach busca e só encontra muito raramente.

A quarta Partita é de longe a mais bela de todas. Faça a experiência. Ouça primeiro a faixa 2, uma Alemanda que por 6 minutos prova que é mais bela das alemandas que Bach compôs. A amplitude das frases, a riqueza melódica, a expressividade. Tudo isso está no toque aveludado de Nelson; na mão esquerda, as notas se sucedem quase como em arpejo, com um pedal discretíssimo fazendo fluir a ressonância exata. Enquanto isso, a mão direita desfila melodias em tons conjuntos contagiantes. Agora, pule para a faixa 23. Sim, é o famoso coral Jesus, Alegria dos Homens, da Cantata 147, com uma melodia igualmente encantadora – só que muito mais conhecida de todos.

Entre uma e outra, Nelson nos presenteia com duas gemas espetaculares, nas quais se solta mais, até em função de uma escrita mais virtuosística e de sabor improvisatório: a Toccata em dó menor BWV 911 e a Fantasia Cromática e Fuga em ré menor, BWV 903. Bach tinha 20 anos quando levou dez dias a pé, em 1705, para ir de Arnstadt, onde era organista, até Lübeck, para ouvir o famoso Dietrich Buxtehude ao órgão. Pirou com a mistura da liberdade do improviso com o rigor do contraponto fluindo nos dedos do velho mestre. Outros dez dias a pé e, já de volta, compôs uma tocata para cada um dos sete anos seguintes. A Fantasia Cromática e Fuga vai pelo mesmo caminho: o perfume do improviso a guia, em direção a uma expressividade rara em sua obra. Preste atenção nos arpejos que culminam os primeiros 32 compassos da partitura – é fácil de perceber. A Toccata e a Fantasia têm a mesma estrutura: um primeiro movimento virtuosístico e uma fuga.

Nelson tocou, durante toda a carreira, apenas peças curtas de Bach, na maioria transcrições – como sua diva Guiomar Novaes também fazia. E retorna a elas nas seis faixas finais. Todas são transcrições de obras vocais ou para órgão de Bach que pulularam no século 19. O roteiro de “hits” que costumam frequentar como extras as salas de concerto em noites de recitais de piano começa com uma transcrição do próprio Bach: trata-se de uma versão para teclado solo do Adágio do Concerto em ré menor BWV 974, de Bach, que por sua vez já era “cópia” do concerto do compositor veneziano seu contemporâneo Alessandro Marcello. Quem já assistiu a recitais de Nelson provavelmente já o ouviu tocando como bis a transcrição do Prelúdio em sol menor, BWV 535 feita pelo grande pianista ucraniano Alexander Siloti, que morreu em 1945, em Nova York, aos 82 anos. Detalhe: Guiomar Novaes adorava tocar esta transcrição em seus recitais.

De certo modo, alfa e ômega se encontram nas personalíssimas transcrições de um dos maiores bachianos da passagem dos séculos 19 e 20: o ítalo-germânico Ferruccio Busoni, morto em 1924, aos 58 anos. Ele chegou a publicar um álbum só com transcrições de prelúdios dos corais de Bach. Busoni dizia que estas não são transcrições de concerto, ou seja, não exigem muito tecnicamente do pianista. São mais “no estilo de música de câmara”. Mesmo assim, não são fáceis. Exigem do pianista o gosto de esculpir cada nota, pesar intensidades, aplicar o pedal em doses diminutas, só para prolongar um pouquinho os harmônicos. Nestas transcrições, sente-se, como Beethoven gostava de dizer, que a “música fala do coração para o coração”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.