Neil Young é grande atração do Rock in Rio

Uma voz fanha, um rosto meio amarfanhado, um jeito um tanto déjà vu, Neil Young chega ao Brasil dois meses depois de fazer 55 anos - ele os completa neste domingo. Tem 37 anos de carreira e ainda assim se mantém no auge, reciclando-se continuamente.Vai tocar no dia 20 de janeiro, na Cidade do Rock, com shows de abertura de uma discípula ilustre, Sheryl Crow, e um ilustre canastrão, Dave Matthews. Um acontecimento para os roqueiros nacionais.Nesta década de 90, Young fez discos barulhentos e flertou com o grunge de Pearl Jam e Nirvana. Mas termina a década com um disco contemplativo, Silver and Gold (WEA), no qual fala de perda, ausência, separação e nostalgia.Em Silver and Gold (WEA) ele se atém à sua veia folk essencial, trazendo um punhado de canções calmas e de uma poesia simples e direta. Também revisita diversas fases de sua carreira do Buffalo Springfield (na canção Buffalo Springfield Again) ao Crosby, Still, Nash and Young (em Horseshoe Man).Segundo conta, as canções foram compostas sob inspiração do filho, Ben Young, e uma delas é endereçada ao rebento (Daddy Went Walkin). "Eu costumava tocar numa banda de rock-n´-roll", diz Young, em Buffalo Springfield Again, nostálgica homenagem aos velhos parceiros do Buffalo Springfield. "Ouço uma velha canção no rádio/Buffalo Springfield de novo", canta."Nunca achei difícil ser eu mesmo", disse Young, quando do lançamento de um filme sobre sua turnê (documentário realizado pelo cultuado Jim Jarmusch). De fato, ele tem capacidade de demonstrar extrema sinceridade e coerência. Ele é muito bom nas guitarras e no barulho, como provou recentemente, mas é ainda melhor no seu território natural, o formato acústico - base de Silver and Gold.Extremamente politizado, o rock de Neil Young anda de mãos dadas com sua atitude pública diante das grandes causas humanísticas. É um militante da antiga bandeira Paz & Amor. Em janeiro de 1973, ele interrompeu um concerto em Nova York para anunciar que estava acertado um acordo de paz no Vietnã. Em 1975 arrecadou US$ 200 mil com um concerto beneficente em São Francisco para um fundo educacional.Chegou a ser processado pela própria gravadora, a Geffen Records, por recusar-se a abrir mão de sua independência artística. Em 1983, a empresa fonográfica de David Geffen entrou com um pedido judicial de indenização contra Neil Young, acusando-o de estar produzindo álbuns "que não têm natureza comercial" e são "musicalmente distintos" dos que vinha fazendo anteriormente.Não adiantou. Young manteve-se impassível. Contraria a ordem estabelecida sem alardes ou sem se descabelar - bem, ele já é bem descabelado. Em 1988, ele produziu um vídeo (que foi banido da MTV) , This Note´s for You, no qual um ator parecido com Michael Jackson aparece com o cabelo em chamas, após um acidente na gravação de um comercial da Pepsi.Também não dá o braço a torcer aos fãs. Recusa pedidos de autógrafos, que acha bajulatórios e fruto de uma mitomania, e só toca as velhas canções dos seus discos quando está a fim. Nunca as toca por obrigação.

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