ANTONELLO VENERI
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Nego Gallo lança 'Veterano', o primeiro grande projeto do rap nacional em 2019

'Eu não sei o que é hype. Fiz esse disco numa casa dentro da favela, não sabia se alguém ia querer ouvir', diz o rapper

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2019 | 03h00

Em Fortaleza, um “veterano” pode ser tão jovem quanto um rapaz de 12 anos – é o que explica, por telefone, Carlos Gallo (o Nego Gallo), rapper que, com o grupo Costa a Costa, marcou época no rap nacional com a mixtape (compilação) Dinheiro Sexo Drogas e Violência de Costa a Costa, em 2007. Agora, nas primeiras semanas de 2019, Gallo lançou o primeiro grande projeto do gênero no Brasil com a mixtape Veterano, já disponível nas plataformas digitais.

“É uma gíria da cidade. O veterano já está nessa guerra, que não é dele, ele nasceu ali. É como se estivesse na Síria, você nasce no meio de um negócio e vem lutando. Tenho 44 anos, mas ‘veterano’ não tem a ver com a idade. A cidade ainda tem que melhorar muito.”

A mixtape, na verdade, é um trabalho de mais de um ano, mas calhou de ser lançada nesse momento (a sexta-feira marcou o primeiro dia do ano que Fortaleza não registrou ocorrências ligadas aos ataques do crime organizado). “As pessoas receberam (o disco) como um reflexo dessa situação. Nesse sentido, fiquei feliz de ter transportado essa reflexão durante alguns minutos.”

O disco nasceu e fala diretamente sobre as ruas da capital do Ceará. Gallo conta que viveu na comunidade das Goiabeiras, na costa oeste da cidade, por oito meses, onde trabalhou na realização do disco com o produtor Coro MC (depois, por intermédio de seu amigo e parceiro de Costa a Costa, Don L, a produção foi finalizada em São Paulo por Leo Grijó). “Tinha a ideia de fazer um disco para Fortaleza, com a música que pairava por aqui”, diz, citando o reggae (a marca mais forte do disco), o brega, o passinho e a cumbia villera, ritmo criado nas quebradas argentinas. O nome de Aldair Playboy – o jovem criador do hit Amor Falso e expoente do “batidão de João Pessoa”, ritmo que mistura forró, reggae e funk – aparece mais de uma vez durante a entrevista.

Sobre o reggae nos beats, Gallo explica que Fortaleza tem uma ligação forte com o ritmo. “É um lugar para a juventude se expressar e se encontrar nas praças, é uma válvula de escape para fugir da atuação do crime, de um lado, e da polícia opressora, do outro.” Bezerra da Silva é outra de suas influências no álbum.

“Eu não sei o que é hype”, diz Gallo. “Fiz esse disco numa casa dentro da favela, pessoas morreram em volta dela, não sabia se o público ia querer ouvir.” Ele conta que enviou as músicas e pediu a opinião de Don L. “Ele é sempre muito assertivo. Mas aí sumiu e uns dias depois disse: ‘está na mão do Leo Grijó’. Eu falei: ‘não, mano, você é doido, é?’ Mas aí foi acontecendo, naturalmente”, relembra.

O disco tem 9 faixas, 2 interlúdios e 31 minutos. No Meu Nome é um diálogo entre Gallo e Don L (uma das marcas do Costa a Costa), e introduz o clima num beat de trap suave com guitarras (“Tipo minhas área mata que nem Bagdá / Na quarta eu tive sorte, saca? / Vários outros não”, canta Gallo), e Don L complementa na sua cadência característica com uma história típica de um garoto no crime que acabou por ouvir a música dele. “Pensei que aquela última rima / Que embalou o irmão / Naquela última tarde/ Num era minha, era da minha cidade / Onde os moleque corre o dobro pra viver a metade.”

A transição perfeita para a próxima faixa, O Bagui Virou, coroa o clima mais celebrador da canção, cujo título é um aviso. Em Onde Há Fogo Há Fumaça, o reggae toma conta dos beats e, bem como na próxima faixa, Downtown, Gallo conta histórias das ruas, crimes, mas também causos, reflexões e contos de amor (que volta na love song do disco, Dois Cofres Uma Porta). DVD é um pancadão feito por encomenda (Gallo conta que se sensibilizou com o pedido feito por telefone por um presidiário), e Acima de Nós Só o Justo, com participações de DaGanja, Galf AC e Mc Mah, termina o disco com o tom de desafio lá em cima.

“Eu moro numa região onde a música é feita por se gostar de fazer. Nunca tive a pretensão de ficar rico ou ganhar dinheiro com rap. Foi o meu veículo de chegar às pessoas, tocando o coração, tentando mostrar outros caminhos além daqueles que encontramos nas esquinas do bairro”, diz Gallo.

O rapper diz que o hip hop foi a melhor coisa que aconteceu na sua vida – a ética de abrir caminhos, construir pontes e estender a mão, marca de nascença da cultura hip hop, Gallo aplicou em trabalhos sociais para as secretarias de Fortaleza e do Ceará, para onde trabalhou durante a última década, com pessoas em situação de vulnerabilidade.

“Independente da região do Brasil e da classe social que desenvolve a música do hip hop, temos que entender que existe um caminho, juntos, enquanto todo mundo está aqui, vivos”, avisa o veterano. 

Costa a Costa abriu caminhos e propôs nova estética ao rap

Componente ético do hip hop (intrinsecamente ligado à produção estética), o fator “abrir caminhos” é familiar ao Costa a Costa. O grupo formado em 2005 em Fortaleza por Nego Gallo e Don L (e depois Junior D, Flip-Jay e Berg Mendes) marcou época ao oferecer uma alternativa ao rap nacional em 2007, momento de transição nas tendências do gênero, com a mixtape Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa.

Se antes o rap privilegiava a narrativa em terceira pessoa (ou pelo menos contando histórias de terceiros), o Costa a Costa passou a falar do “eu”, propondo diálogos entre classes sociais, regiões do País e ritmos latinos.

“Surpreendeu (o sucesso da mixtape)”, diz Gallo. “A gente tinha um sentimento, vivendo em Fortaleza, de estar vivendo desafios de qualquer lugar. Conhecemos pessoas, a música chegou em lugares que nunca pensamos. E aí veio Hermano Vianna.”

O antropólogo foi quem descobriu o grupo, segundo Gallo. Em um texto de 2007, Vianna cravava sobre o disco: “É – não tenho nenhuma dúvida – um dos documentos mais contundentes, impressionantes e acachapantes sobre a realidade brasileira contemporânea (como se ler jornal não fosse suficiente...). É um Sobrevivendo no Inferno traduzido para o século 21 – e é preciso constatar: o inferno piorou muito.” Ele segue então analisando as 23 faixas da mixtape, que define como “uma mistura poderosa e violenta de hip hop (estilo bounce de Nova Orleans, ou crunk de Atlanta/Memphis) com brega (Sidney Magal!), salsa, Perez Prado, carimbó e reggaeton, quase tudo muito dançante mas sem perder o ar soturno jamais”.

Hoje, o disco é sempre lembrado nas discussões sobre a nova geração do rap vindo do Nordeste, de nomes como Baco Exu do Blues, Diomedes Chinaski, Vandal, e outros.

 

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