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Nazareth erudito e pop

João Carlos Assis Brasil grava clássicos do autor com dois amigos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2014 | 02h05

As comemorações dos 150 anos de nascimento do compositor carioca Ernesto Nazareth no ano passado revelaram dados impressionantes sobre a popularidade do autor de Odeon, como o número de gravações catalogadas desde que o "tango brasileiro" Está Chumbado (1898) foi registrado, em 1902, pela Banda do Corpo de Bombeiros do Rio, regida por Anacleto de Medeiros (1866-1907). De lá para cá a música de Nazareth tem 2.859 gravações catalogadas, segundo o site dedicado pelo Instituto Moreira Salles (IMS) ao sesquicentenário do compositor. Nazareth foi tocado, no ano passado, em concertos na Alemanha, EUA, Indonésia, Japão, Noruega, Portugal e gravado em 11 álbuns com diferentes formações. Um deles, Nazareth Revisitado (selo Tratore) acaba de ser lançado e traz o pianista erudito carioca João Carlos Assis Brasil ao lado da lendária cantora Alaíde Costa e do cantor Carlos Navas.

Erudito. O CD atende principalmente ao desejo de Nazareth ser reconhecido como um compositor erudito. Assim, ao lado de composições mais populares, como Bambino (1907) e Odeon (1909), gravada 325 vezes, ambas interpretadas por Carlos Navas, destacam-se duas suítes com peças escolhidas pelo pianista Assis Brasil, que justificam a inclusão também no repertório de instrumentistas estrangeiros, especialmente pianistas. Entre eles está a canadense Christina Petrowska, que tocou com Boulez e lançou recentemente um CD duplo dedicado aos tangos brasileiros de Nazareth. Esse não é um fenômeno recente: o compositor francês Darius Milhaud (1892-1974) usou excertos de suas peças em obras eruditas, além de escrever sobre ele em sua autobiografia.

Essa capacidade de Nazareth seduzir e criar uma ponte entre o erudito e o popular, como já notou Mário de Andrade em 1926, é sintetizada por Assis Brasil numa única frase: "A escrita de Nazareth é muito próxima de Chopin". O pianista carioca vem tocando há alguns anos a primeira suíte do CD, de forte sotaque romântico - integrada por Brejeiro (1920), Faceira (1926) e Apanhei-te Cavaquinho (1914). A segunda suíte tem o mérito de evidenciar essa proximidade de Nazareth com a escola romântica, em particular Chopin, e é quase uma demonstração didática da evolução musical do compositor, da polca Quebradinha (1899) ao fox-trot Até que Enfim (1926), passando pelos tangos brasileiros Escovado (1904), Ouro sobre Azul (1915) e Atlântico (1921).

Todas essas peças foram gravadas nos anos 1970 por Arthur Moreira Lima para o selo Marcus Pereira. Com todo respeito ao pianista, que também transita com facilidade entre o erudito e o popular, Assis Brasil preferiu não ouvir o registro. "Quero preservar meu jeito de tocar", justifica.

Mediúnico. Tanto Nazareth como Assis Brasil foram prodígios. O compositor começou a aprender piano antes de ser alfabetizado. O pianista intérprete, aos 10 anos, ganhou seu primeiro prêmio de uma carreira marcada tanto como solista de orquestras sinfônicas como parceiro de músicos populares como Ney Matogrosso. "Lembrei que abria com Batuque o show Pescador de Pérolas, que fiz com Ney em 1987, e incluímos no disco". Resultado de um show do trio Assis Brasil, Alaíde Costa e Carlos Navas, realizado em maio do ano passado, no Centro Cultural São Paulo, o CD Nazareth Revisitado foi gravado em apenas quatro horas num estúdio do Rio. Sem takes alternativos.

"Foi uma sessão muito incrível, eu diria até mediúnica", define o cantor Carlos Navas, surpreso com a repercussão do disco, que deve ganhar nova tiragem brevemente (os mil primeiros exemplares estão se esgotando). Talvez isso anime o Sesc paulista a promover um show com o trio, repetindo o êxito das duas concorridas apresentações no Sesc do Rio, em outubro passado. Seria uma oportunidade para o público atestar que nem só de Keith Jarrett vive o improviso. O encerramento do CD traz uma improvisação idiomática de Assis Brasil que une Chopin e Nazareth para sempre.

O pianista, aos 69 anos, continua a apostar em novas parcerias. Há duas semanas fez no Rio a apresentação inaugural de sua Camerata Assis Brasil, formada por 12 jovens músicos entre 20 e 25 anos. O repertório do novo grupo é marcado pelo trânsito entre o popular e o erudito, que caracteriza a carreira do músico. "Queremos divulgar lá fora a música brasileira, mas tocar também peças renascentistas e obras de contemporâneos como Nino Rota e Luiz Gonzaga, a exemplo do que fizemos no concerto de abertura do CCBB".

Tributo. O CD Nazareth Revisitado foi pensado como um tributo aos 150 anos do compositor pelo cantor paulista Carlos Navas, que tem feito um trabalho de recuperação da obra de antigos mestres, como Custódio Mesquita (1910-1945), homenageado há dois anos com um CD do intérprete (Junte Tudo Que é Seu). Custódio Mesquita, filho de uma família de classe média alta, pianista e compositor de peso, cruzava igualmente seu conhecimento erudito com a música popular (foi parceiro de Noel Rosa e Orestes Barbosa). "Pensei em Nazareth quando pesquisava a obra dele, pois ambos têm muito em comum, além de Custódio ter sido intérprete de suas músicas". Custódio gravou, entre outras, Apanhei-te Cavaquinho (que está completando 100 anos e foi registrada em 1943 por Mesquita, acompanhado por sua orquestra) e Brejeiro (também em 1943), ambas incluídas no CD de Navas com Alaíde e Assis Brasil.

Alaíde Costa, que completou 78 anos em dezembro, 60 deles dedicado à música, já gravou com Assis Brasil em duas ocasiões anteriores, em 1995 e 2006. No primeiro CD registrou Sertaneja, de Ernesto Nazareth, que ganhou letra de Catulo da Paixão Cearense, e voltou a ser gravada em Nazareth Revisitado. "O que sempre me atraiu na obra de Nazareth são as suas modulações". Essas mudanças de tonalidade, aliadas ao talento melódico do compositor, seduziram Alaíde quando era ainda menina. "Acho que a primeira vez que ouvi sua música foi uma versão instrumental de Odeon", lembra a cantora, parceira de Vinicius de Moraes em duas canções (Amigo Amado e Tudo o Que é Meu).

Vinicius, aliás, escreveu a letra de Odeon em 1968, a pedido de Nara Leão. Carlos Navas canta o clássico no CD (a outra música é Bambino, com letra de José Miguel Wisnik). Navas vai homenagear o centenário do "poetinha", comemorado no ano passado, com um show no dia 13 de fevereiro, ao lado da atriz Clarice Abujamra, no Teatro Sesc São Carlos.

Inéditas. Alaíde Costa anuncia um CD de composições inéditas, ela que, além de Vinicius, foi parceira de Tom Jobim (Você é Amor), Johnny Alf (Meu Sonho) e Geraldo Vandré (Canção do Amor Sem Fim). A temática do disco? É fácil adivinhar, considerando os títulos dessas canções: "É sempre o amor, as várias fases dele", responde ela, que recentemente sofreu um acidente, mas está melhor.

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