Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Nasi deixa o passado conturbado para trás e lança o disco solo 'EGBE'

Novo trabalho em CD e DVD traz duas músicas inéditas

Entrevista com

Nasi

João Paulo Carvalho, O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2015 | 06h00

Se o rock 'n’ roll nacional tivesse de escolher um único sobrevivente da sua época mais triunfante, esse nome, certamente, seria o de Marcos Valadão Rodolfo. Aos 53 anos, o popular Nasi agora esbanja vigor físico. Em plena forma, bebe muita água durante a entrevista realizada em sua casa, na região do Butantã, na zona oeste de São Paulo. Adepto de uma comunidade espiritual chamada Odwdwa, com o sacerdote Baba King, desde 2009, o vocalista do Ira! agora tem novos hábitos. “Cheguei aos 118 quilos antes da cirurgia de redução de estômago. Hoje, com 72, sou saudável. Pratico exercícios físicos regularmente e tenho uma alimentação mais correta. Só não consegui largar o cigarro e o álcool, mas não descarto fazer isso em breve”, afirma ele, ao receber a reportagem do Estado para falar sobre seu novo trabalho solo, o CD e DVD EGBE, gravado ao vivo no estúdio Áudio Arena, no Estádio do Morumbi.

Na estrada há mais de 30 anos, Nasi já passou por poucas e boas. Teve problemas com as drogas e acabou em uma clínica de reabilitação. Foi às vias de fato com o irmão e empresário do Ira!, Airton Valadão. Em 2007, o pai do cantor pediu sua intervenção judicial. Nasi estava fora de controle. “Com sangue nos olhos”, como ele mesmo lembra. Desfez a parceria com Edgard Scandurra e o Ira! se desintegrou. Começava ali um período difícil, com processos de ambas as partes. “Às vezes, a gente precisa cair para aprender a se levantar. E toda essa mudança e adoção de hábitos saudáveis fazem parte de um método de renovação espiritual. Meu culto a orixá diz exatamente isso: precisamos nos tornar menos ruins. É muita pretensão querer melhorar”, diz.

O impulsivo Nasi aprendeu a perdoar e a pedir perdão. Em meados de 2012, orientado pelo sacerdote Baba King, procurou o pai em seu sítio no sul de Minas Gerais. Estava disposto a “desculpá-lo” e encerrar a longa guerra judicial. Pouco tempo depois, também fez as pazes com o irmão Airton e seu companheiro de banda Edgard Scandurra. Em maio do ano passado, o Ira! voltou à ativa com um show arrebatador na Virada Cultural. Airton reassumiu os negócios da banda. 

“Num primeiro instante, na volta do Ira!, não me preocupei com o meu peso. Apesar de o Edgard olhar para a minha cara e dizer que eu estava muito gordo e precisava emagrecer (risos). O objetivo, no entanto, era retomar a banda com uma nova formação e fazer a coisa funcionar. Me preocupava com a recepção do público e as coisas que a gente ia tocar. Se eu me preocupasse com o meu peso, com a volta do Ira! e tudo mais, seria muita coisa de uma única vez. Isso eu aprendi na filosofia de orixá: calma, paciência e tolerância. Impulsivo, queria consertar tudo que estava errado na mesma hora”, afirma. 

Quarenta quilos mais magro e com a energia espiritual renovada, Nasi decidiu entrar no estúdio em março deste ano para gravar um novo projeto solo. O último trabalho tinha sido o disco Perigoso, em 2012. As 13 canções de EGBE mostram um Nasi mais leve, à vontade e livre das amarras do passado. A faixa Perigoso conta com a participação de Renato Teixeira. Há ali uma alma folk à la Johnny Cash. Renato, surpreendentemente, mostra seu lado rock’ n’ roll setentista. O vocal e a letra se aproximam dos melhores tempos de Raul Seixas. “Comecei a conviver com o Renato Teixeira agora, mas meu irmão Airton é empresário dele há 20 anos. Essa música é faixa-título do CD Perigoso que lancei pela Trama em 2012. À época que eu estava mixando Perigoso, meu irmão apareceu no estúdio, logo depois que a gente se reconciliou, e disse que aquilo era a cara do Renato Teixeira. Infelizmente, não dava mais tempo de convidá-lo. Aquilo ficou na minha cabeça. Quando fui preparar o material deste disco, me veio a oportunidade de convidar o Renato. Foi um encontro muito bacana. A música fala sobre superação e ele viveu um momento difícil na vida dele recentemente, que foi a morte do filho João Lavraz.”

Todas as músicas de EGBE foram gravadas ao vivo no Áudio Arena. Cinco composições, incluindo Perigoso, com Renato Teixeira, pertencem originalmente ao disco homônimo de 2012. Nasi queria um registro mais encorpado das canções. Além das inéditas Alma Noturna e Egbe Onire, há regravações interessantes de Alceu Valença (Sol e Chuva) e Taiguara (Dois Animais na Selva Suja da Rua). Para os fãs do Ira!, uma surpresa. Rubro Zorro, clássico do disco Psicoacústica, de 1988, ganhou uma nova roupagem. “É uma das músicas que mais gosto do Ira!. Há tempos, queria fazer uma versão bluegrass. E me veio essa vontade quando ouvi a canção outro dia. Rubro Zorro parece trilha sonora de um filme de faroeste. Tem uma levada sulista, com influências de caras como Johnny Cash e Dick Dale. Os fãs da banda vão curtir bastante. Para eu gravar alguma coisa do Ira!, preciso acrescentar algo diferente. Dei uma nova cara para a música. A letra é mais valorizada.”

Crise política. Há 13 anos filiado ao PC do B, Nasi fala sobre a atual crise política e econômica do País. Para ele, o principal problema do Brasil na atualidade é o número alarmante de partidos políticos. Hoje, são 35 registrados oficialmente na Justiça Eleitoral. “Ainda sou filiado ao PC do B, mas a última coisa que eu quero falar hoje é sobre política. Estou completamente desiludido. É triste. Para termos algum resultado concreto na sociedade, precisamos de movimentos sociais que não estejam contaminados com os partidos políticos. Movimento social precisa ser independente. Movimento estudantil precisa ser independente. Movimento de trabalhador não pode ser contaminado por partido. Partidos existem porque é a condição da política. Democracia não é perfeita, mas é a menos pior dentre todas as ideologias. Então, acho que dessas decepções que vamos vivendo, a gente tira algum aprendizado. É melhor a desilusão do que a ilusão, porque a ilusão nos aliena”, avalia ele. 

“Hoje me preocupo pouco com o futuro do mundo. Meu mundo me interessa. Minha atuação política é na região onde moro, com as pessoas que convivem comigo. É o que posso fazer dentro do meu mundo. Jovens envelheçam. Quando isso acontecer, vocês vão ver que o micro é mais importante do que o macro”, conclui.

FAIXAS

'Dois Animais Na Selva'

Clássico de Taiguara e Erasmo 

'Ori'

Releitura mais hard rock

'Alma Noturna'

Primeira música inédita

'Feitiço na Rua 23'

Remake com sonoridade vintage

'Amuleto'

Inspirado em Muddy Waters 

'Perigoso'

Renato Teixeira surpreende

'Não vejo mais nada'

Relembra lugares emblemáticos

'Monia'

Regravação de Michel Cogoni 

'Rubro Zorro'

Clássico do Ira! ganha nova cara

'Problemas'

Um blues poderoso

'Sol e Chuva'

Regravação de Alceu Valença

'Egbe Onire'

Ritmo interessante

 

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