Eduado Nicolau/AE (30/4/2008)
Eduado Nicolau/AE (30/4/2008)

Nasi abusa do idealismo e não faz concessões em biografia

Obra de Mauro Beting e Alexandre Petillo fala da dissolução litigiosa do Ira! em 2007

Marcelo Moreira, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2012 | 07h00

A beatlemania estava no auge na Londres do segundo semestre de 1965, o quarteto de Liverpool era unanimidade e a rivalidade com os Rolling Stones era só fachada. Mas a situação fervia mesmo em vários pontos da periferia, com as brigas feias entre os mods e os rockers (algo como mauricinhos enfezados x roqueiros com cara de mau), como foi bem retratado pelo filme Quadrophenia, de 1979, estrelado por Sting e baseado na obra-prima da banda The Who.

Se Marcos Valadão Rodolfo tivesse vivido naquela Londres conturbada de 1965, teria pacificado os ânimos: teria sido um bad boy e extremado como um rocker, mas também antenado e versátil a ponto de abraçar o rhythm and blues venerado pelos mods. Líder nato, brigaria até o fim para impor sua visão de mundo, mas seria o primeiro a reverenciar a música boa, fosse qual fosse. 

Intenso, teimoso e impulsivo, Nasi, o ex-vocalista do Ira!, travou um duelo particular com a sua natureza italiana para registrar suas memórias de forma crua e contundente, mas sem distribuir pontapés para todos os lados. A Ira de Nasi, a biografia do vocalista escrita pelos jornalistas Mauro Beting e Alexandre Petillo, abusa do tom reverente - Beting não esconde em um dos prefácios que é amigo do biografado -, mas cumpre o objetivo: retrata de maneira satisfatória como a ira e a fúria roqueira moldaram a personalidade contraditória do músico.

A dissolução litigiosa do Ira! em 2007 dá o tom do livro. Ainda bem, já que a obra surgiu dos escombros de uma biografia quase pronta de autoria de Petillo, que foi engavetada por conta da briga e do fim da banda. O texto até tenta evitar a mágoa o ressentimento, como se isso fosse possível ao contar uma história de 30 anos de carreira vividos no limite. Nasi não se preocupou nem um pouco com isso: não poupa os ex-companheiros, mas não força a barra. Dá a sua visão sobre a crise expondo fatos documentados e citando eventuais testemunhas, entre elas Rick Bonadio, conhecido produtor de pop rock e responsável pelo último álbum da banda, Invisível DJ, de 2007.

Consciência. O cantor gosta de sua condição de roqueiro rebelde e impulsivo. Ele reforça essa imagem nos depoimentos, e não se incomoda em deixar transpirar um idealismo artístico ao se referir de forma dura, mas respeitosa, a eventuais interesses meramente financeiros nos últimos anos da banda. 

“Houve imaturidade e infantilidade nos debates, tanto na parte artística como na parte administrativa. O ego falou mais alto e afetou diretamente o resultado final de nossos trabalhos”, disse Nasi em entrevista ao Estado. “A liderança natural do Edgard Scandurra (guitarrista) começou a ficar forçada quando as contribuições dele diminuíram. Com o tempo, eu me impus e ele ficou preocupado. Vi que a coisa estava ruim quando, numa reunião, ele exigiu que 80% do material dele estivesse em um álbum. Ok, desde que houvesse material de qualidade para tanto. E fazia tempo que não havia. Ele estava desesperado para manter a fatia de direitos autorais e manter o seu padrão de vida.”

Seguindo a tendência no mercado internacional de biografias e autobiografias - exemplos de Eric Clapton e Keith Richards -, abordou com serenidade os assuntos espinhosos e dramáticos. 

Foi corajoso ao citar os erros cometidos, as internações para reabilitação e casos assustadores, como o envolvimento com uma namorada atormentada pela família, ávida por lhe tomar a herança - houve perseguições, sequestro, agressões, muita polícia envolvida e uma longa batalha judicial. “Sempre houve briga no Ira!, mas a banda teve competência e sorte para manter a discrição. Foi muito pesado o que ocorreu em 1999, durante as gravações de Isso É Amor. Pouca gente soube desse problema comigo e minha namorada.”

Se conseguiu escapar dos excessos ao mencionar desafetos e ex-companheiros - e abusar da sinceridade ao longo do livro -, Nasi não se preocupou em amenizar a postura de vítima. Não perdeu as chances de enfatizar quanto foi injustiçado e traído na banda e pelo empresário - por ironia, o irmão dele, Ayrton Valadão Júnior. “Fiz o que pude para manter o Ira! unido e produtivo, mas as coisas só ficaram mais difíceis com o sucesso do Acústico, de 2005. Administrar aquilo era insano e ficou incontrolável. O fim foi inevitável, e bem desagradável como ocorreu.”

Entre virtudes e defeitos, parcialidades e unilateralidades, romantismo ideológico e rebeldia até certo ponto deslocada, A Ira de Nasi tem o mérito de reunir informações preciosas e detalhes interessantes dos anos 80. Ao lado de 50 Anos a Mil, biografia de Lobão, é o melhor retrato do rock nacional. 

Aos 50 anos, Nasi faz oito shows por mês e está prestes a lançar um novo álbum solo. Não sente falta do Ira!, faz questão de ainda ser um rocker em estado puro e de não fugir a uma briga com os mods. Continua fazendo a diferença em um mercado dominado por emos, hermanos e outros seres insípidos. 

Momentos cruciais:

1986 - O Ira! arromba o camarote das grandes bandas com o clássico Vivendo e Não Aprendendo

1999 - Envolve-se com a família barra-pesada de uma namorada e sofre ameaças de bandidos

2007 - O sucesso de Acústico acirra os ânimos e implode o Ira!

Tudo o que sabemos sobre:
músicaIra!Nasirock

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.