Napster não assusta mercado nacional

O meio discográfico brasileiro não espera impacto significativo no mercado nacional com os acordos recentes entre o sistema de troca de música pela Internet, o Napster, e a indústria fonográfica.Os motivos são simples. Em primeiro lugar, segundo dados da Associação Brasileira de Produtores de Discos, o uso de sistemas como o Napster não tem sido prejudicial ao mercado. Ele incrementa o consumo de CDs em até 30% (entre os usuários do sistema), ao invés de afastar o consumidor."Além disso, se esse mercado for profissionalizado, nós entraremos nele com mais tranqüilidade", diz Hegel Braga, gerente de marketing online da Sony Music. Braga refere-se à iminente entrada no mercado de downloads pagos de música por meio do Napster, anunciado pela empresa alemã Bertelsmann (gestora da companhia discográfica BMG).A cobrança pelo serviço, antes gratuito e presumivelmente ilegal, não assusta subsidiárias nacionais de empresas como Universal, Warner Music e Sony Music, duas majors do setor. A EMI já se sentou à mesa de negociações com a BMG e o resultado deve ser o download pago pelos usuários do Napster - um número estimado em 38 milhões de pessoas.A EMI tem em seu catálogo artistas como Spice Girls e Rolling Stones. A BMG inclui músicos como a Dave Matthews Band, David Bowie, Santana, Annie Lennox, e Christina Aguilera. A EMI nacional informou que o mercado brasileiro - um tanto defasado - tem outras prioridades no momento, como a atualização dos lançamentos de seus catálogos em DVD.No Brasil, estima-se em 7 milhões o número de usuários da Internet. Pouco mais de 30% deles utilizam-se de serviços de trocas de músicas como o Napster, conforme estimativas.A Sony Music já tem um formato de música digital desenvolvido para a distribuição de música online. Mas, segundo Hegel Braga, "não adianta cobrar pelo serviço se as pessoas podem fazer isso de graça"."É como vender o uso de um pedaço da praia sendo que todo o resto é de graça", afirma o executivo. "Se o mercado se profissionalizar, nós teremos um comércio sadio, sem a prostituição que o MP3 promove e com qualidade e legalidade", pondera, dizendo que a legalidade se dá principalmente em relação aos direitos autorais dos artistas.A disposição de BMG, EMI e Napster de dispor downloads pagos na rede vai estimular as outras companhias fonográficas a fazerem o mesmo, ele avalia.O executivo Hank Berry, da Bertelsmann, estimou na semana passada em US$ 4,95 o custo de adesão ao novo serviço de busca de música via Internet. O acordo entre BMG e Napster tem sido visto por muitos usuários como uma traição aos princípios de liberdade do sistema.Não é à toa. O grupo alemão Bertelsmann possui mais de 200 selos em sua gravadora, como Arista, RCA e Windham Hill. Além de faturamento anual de US$ 17,6 bilhões, também é proprietário da Random House, do CDNow e tem 40% do site de venda de livros barnesandnoble.com.A repercussão do "acordão" entre Napster e a indústria fonográfica, embora tímida no Brasil, caiu como uma bomba no mercado americano. Um antigo e mítico produtor musical de São Francisco, Matthew Katz, dono do selo San Francisco Sound, diz que o acordo vai colocá-lo "fora do negócio" em pouco tempo. E entrou com ação hoje contra a Bertelsmann nos Estados Unidos, numa corte de São Francisco.Na visão de Katz, o acordo permite que o Napster continue operando como sistema de troca de músicas de forma ilegal. "Tenho esperança que isso (a ação) possa atrair atenções daqueles músicos que não estão entendendo o que eles querem de fato", disse Katz, para quem o interesse real do negócio é botar as mãos em catálogos de artistas alheios. A Bertelsmann não comentou o caso.Um grupo britânico de pesquisas sobre o mercado da Internet, o Forrester, previu esta semana que os serviços de intercâmbio de arquivos musicais na rede, como o Napster e o Gnutella, provocarão perdas de cerca de US$ 3 bilhões no comércio global de música em 2005.Isso tem provocado reações fortes. Essa semana, Paul McCartney e Elton John atacaram o Napster. E a organização British Music Rights, que reúne compositores, autores e editores de música na Inglaterra, anunciou campanha publicitária contra a troca de música gratuita na rede."Isso não afeta somente aos famosos e bem pagos criadores de música, mas também esses milhares de compositores e autores que não estão à vista do público mas dependem da venda de seu trabalho para continuar fazendo música", diz o texto da organização que anunciou a campanha.

Agencia Estado,

29 de novembro de 2000 | 15h59

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