Dayran Dornelles
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'Não posso me dar ao luxo de pirar', diz Maria Rita

Cantora, que se apresenta esta sexta-feira (4), em São Paulo, fala da decisão de voltar aos shows presenciais e da maneira que encontrou para se manter sã na quarentena

Entrevista com

Maria Rita, cantora

Danilo Casaletti, Especial para o Estado

04 de setembro de 2020 | 05h00

Mãe, dona de casa, cantora, produtora, empresária. Maria Rita, prestes a completar 43 anos, assume – como a maioria das mulheres – múltiplos papéis. Por isso, sabe que precisa se manter forte. Por ela, pelos filhos (Antonio, 16 anos, e Alice, 7) e também pelos músicos e equipe técnica. Por todos eles – e pelo amor à profissão –, ela aceitou os convites para se apresentar fora de casa em tempos em que a pandemia do novo coronavírus ainda é uma ameaça. Nesta sexta-feira, 4, ela mostra o show Samba da Maria no Arena Sessions do Allianz Parque, em esquema de drive-in.

Em agosto, ela já havia experimentado esse formato, em apresentação no Parque Burle Marx – depois de fazer lives patrocinadas da sala de sua casa. “Foi uma experiência muito louca!”, contou ao Estadão, por e-mail. Com projetos interrompidos – inclusive, de um novo álbum –, Maria Rita entendeu que não é tempo de ter tudo sob controle. “O que funcionou para mim foi lembrar que a minha frustração não iria me levar a nada. O que está acontecendo não é culpa minha.”

Você começou fazendo lives na sua casa. Depois, se apresentou em drive-in e em estúdio. Como foi a decisão de dar esse passo a mais, de aceitar convites para se apresentar fora de casa?

O principal fator, não vou mentir, foi a consideração para com aqueles que precisam trabalhar, inclusive eu. Não só por uma questão afetiva, emocional ou psicológica, mas também financeira. A vida não está ganha. Meu cachê nunca foi R$ 200 mil ou R$ 300 mil. Nunca chegou a esse patamar. Então, sei que a minha equipe precisa trabalhar. Eu também preciso. Precisava sinalizar para as pessoas próximas – meus filhos e minha equipe – que estou trabalhando, que não estou acomodada. Conversei com os músicos e com a equipe técnica para ver até onde eles estavam confortáveis em trabalhar. Estamos respeitando as normas, mas, de fato, foi uma decisão bem difícil.

Sentiu-se segura nessa volta ao trabalho?

Não. Eu não me senti segura. E ainda não me sinto segura em avião, por exemplo. Nesse processo de ponderar o que vale e o que não vale, já neguei algumas apresentações fora do eixo Rio – São Paulo. Dependendo do lugar, a gente pega estradas perigosas, de noite, para evitar hotel. Tornou-se um quebra-cabeça não muito fácil. Isso abre uma margem para algumas exigências: não posso ficar doente, não posso parar em hospital por qualquer coisa. São cuidados exacerbados. Se antes eu tinha alguns, hoje tenho mais! Mas tenho encontrado pessoas muito compreensivas, muito profissionais, que respeitam minhas inseguranças e fazem com que haja um conforto pra que o trabalho seja feito, porque a gente ama o que faz.

Recentemente, você fez um show em um formato drive-in e, agora, fará outro, em um local maior. Como foi essa experiência de cantar para com o público dentro dos carros?

Foi uma experiência muito louca! Mas muito bacana, sabe por quê? Foi muito interessante ver a capacidade que a gente tem de se adaptar. No início, me senti como se estivesse no meu primeiro encontro (risos). Ninguém sabe muito o que falar, fica aquele silêncio constrangedor. Lá pela terceira ou quarta música, o público já tinha entendido a dinâmica e a gente começou a alimentar a energia um do outro. Lá pela quinta música, as pessoas estavam dançando dentro do carro. Ih, bicho! Lá pela décima música, a galera já estava com a janela aberta, braços para fora. Uns sentavam na janela e dançavam, batucavam no teto do carro. Foi muito maneiro! Lembro de uma família que estava com um bebezinho, que deveria ter três meses. Em uma situação normal, eles não teriam ido ao show por conta do barulho, né? Mas, nesse formato, conseguiram. Eles ficavam dançando com o neném. Fiquei super emocionada. São modelos novos que eu acho que vão acabar fazendo parte da cultura da gente. A gente se adapta, cara! A gente não deixa a peteca cair, não! (risos)

Do lado pessoal, como você se comportou nessa quarentena? Como organizou sua rotina longe dos palcos?

No começo, achei que ia voltar a ter aula de piano, que eu ia ler muito, sair dessa quarentena muito culta, praticamente com um PHD nos assuntos que eu gosto. Tenho uma filha de 7 anos de idade. E, sem o tempo gasto na escola, não só as aulas online, o dia a dia ficou tudo muito em cima de mim. Então, se resume a distração, aula online, almoço, jantar. Eu me voltei totalmente pra ela, assim que entendi que a quarentena não ia ser apenas quinze dias. Quando eu vi que a situação se prolongaria, falei: para! O bicho pegou.

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O meu grande foco é me manter saudável espiritualmente e mentalmente
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Maria Rita

Vou cuidar da minha saúde mental por ela (filha). Meu filho tem 16 anos, já entende muito melhor, mora com o pai em São Paulo. A gente ficou quatro meses sem se ver. Consegui ir a São Paulo de carro para buscá-lo. Ele ficou aqui comigo dez dias e o levei de volta assim que começaram as aulas. O que funcionou para mim foi lembrar que a minha frustração não iria me levar a nada. Por ser cantora, empresária, artista, a mãe, dona de casa e sei lá mais o que, tenho a tendência de trazer tudo pra mim. Tive que fazer um exercício rápido, muito rápido, de que tudo isso não era culpa minha. Se não está tendo show, não foi porque eu tomei alguma decisão equivocada na minha carreira. É porque realmente não tinha como ter show. Não posso pirar, não posso me dar esse luxo.

Você tem dois filhos em idade escolar e o estudo a distância está sendo um desafio para os estudantes e também para os pais ou responsáveis. Como lidou com essa questão?

Eu presto muita atenção aos sinais que a minha filha dá. Tem dia que ela está super animada e fica focadíssima na escola. Tem dias que dá uma hora de aula, ela vira pra mim com o olho cheio d’água e fala: mamãe, não quero. Aí, eu desligo (a aula). Conversei isso longamente com a coordenação. Eu respeito. A criança não tem ferramenta o suficiente pra entender o que está acontecendo. Já basta não poder estar em contato com os amigos, não poder sair para rua, não poder ir ao parque, passear. Considero isso, de certa forma, um trauma. Estamos vivendo um trauma coletivo, um luto - com mais de 120 mil famílias sofrendo um luto real. Se daqui há 10 anos ela olhar pra trás e lembrar dos dias que brincamos de Lego, que cozinhamos juntas, ficamos sem fazer nada vendo TV, sentada do lado dela ajudando a fazer a lição de casa, para mim, será uma vitória.

Além de seus grandes sucessos, músicas como O bêbado e a equilibrista e O mestre-sala dos mares se tornaram importantes em suas apresentações. Ambas de João Bosco e Aldir Blanc, lançadas por sua mãe na década de 1970. Ao mesmo tempo que isso atesta a longevidade dessas composições, também mostra que nossos problemas ainda são os mesmos. Qual significado que elas têm para você?

Essas músicas ainda são reais, a gente vive isso. Acho que estávamos meio anestesiados ou disfarçados por algumas grandes conquistas da sociedade brasileira. Estamos falando de formas de pensar de cento e poucos anos atrás. Só que agora está escancarado porque, como num pêndulo, a história está indo para este lado de novo e encontra representantes dessa forma de pensar, não só no Brasil, como em outros lugares no mundo. A indignação é: como as pessoas ainda pensam dessa forma? Como a sociedade não andou pra frente? Como ainda tem gente que age desse jeito? Como ainda tem gente que usa palavras de sábios como Jesus para justificar um comportamento absolutamente retrógrado. Retrógrado é pouco. É absolutamente sombrio.

A música – e a arte em geral – foi um grande alento para as pessoas durante a quarentena. Isso traz mais responsabilidade para os artistas?

Para mim, essa responsabilidade existe desde sempre. De 2016 ou 2017 pra cá, prestigiar arte nacional virou um ato resistência, com mais intensidade de 2018 pra cá. Fora essa questão política, o simples fato de uma pessoa escolher sair do conforto da sua casa para prestigiar o artista, para ser um agente incentivador de cultura, mesmo que sem perceber, mesmo que inconsciente, é de uma força muito grande. Minha relação não é com a fama, é com arte. Como meu pai me ensinou: é entretenimento para o outro, mas é o nosso ganha-pão. É o meu ofício, missão. É uma relação que eu prezo muito. Temos o microfone na mão. Somos megafone das sensações e experiências humanas.

De que maneira todas essas questões sociais e políticas pelas quais o Brasil e o mundo estão passando podem refletir em um futuro trabalho seu?

Em 2007, no (álbum) Samba Meu gravei uma música chamada Corpitcho que poucas pessoas entenderam a mensagem. Quando entenderem falaram: “Caraca! Você já estava cantando isso em 2007?” Eu respondia: “eu não! Tinha um compositor pensando nisso e escreveu". Dá uma olhada nessa letra para ver o que eu estou falando.

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A realidade do povo brasileiro, infelizmente, não muda. Vou seguir buscando cantar essas dores que reflitam a experiência humana
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Em uma das apresentações online, você disse que teve pelo menos três projetos paralisados por conta da pandemia. Entre eles, estava um novo disco?

Sim, um deles era o disco. Agora, eu tenho que esperar porque as dinâmicas mudaram. Era um trabalho que eu estava contando com apoios, parceria comercial. Puxaram o freio de mão em tudo. Como eu disse, estou focada na minha filha, no bem-estar dos meus dois filhos. Não tenho como parar e fazer pesquisa de repertório de nove, dez horas por dia, durante por sei lá quanto tempo. Para ir para o estúdio gravar, mesmo que seja um EP, com três músicas, não tenho esse tempo agora. Minha cabeça não está funcionando para essa frequência. Mas isso não significa que eu não esteja pensando em absolutamente nada, não estou bloqueada. Só quer dizer que a relação com o tempo está um pouco diferente.

 

Samba da Maria

4 de setembro, às 21h, no Allianz Parque (Rua Padre Antonio Tomás, 72), Portão de Acesso: C2. R$ 280 a R$ 500 por carro (até 4 pessoas por veículo)

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