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'Não pensava em gêneros, pensava em música', disse Inezita Barroso ao 'Estado'

Confira a íntegra da última entrevista da artista cedida ao jornal, em novembro de 2014

Entrevista com

Inezita Barroso

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

09 Março 2015 | 10h36

Em novembro de 2014, em razão do lançamento do livro Inezita Barroso - Rainha da Música Caipira, uma autobiografia em forma de depoimento ao jornalista Carlos Eduardo Oliveira, a artista - que morreu neste domingo, 8, aos 90 anos - respondeu a algumas questões do Estado sobre sua trajetória e sobre a então recém lançada biografia.

Leia a entrevista na íntegra a seguir:

Como a senhora absorveu as várias influências musicais que teve na infância e na adolescência, como a música caipira ouvida nas suas férias no campo, a música erudita que seu avô escutava e o bolero mexicano do qual seu pai era fã? E como essa variedade de referências musicais se refletiu na sua música?

É uma coisa engraçada, porque todas as referências se misturavam mesmo. Não pensava em gêneros opostos, pensava em música. A clássica, a viola caipira, as modinhas, as serestas e até os mexicanos. Muitos desses músicos famosos, como o Pedro Vargas, vieram ao Brasil e eu ia assistir. Eram artistas sensacionais. Acho que minha música acabou por refletir uma diversidade de influências, mas fiz escolhas. Cantei apenas música popular brasileira. Tanto aquela pura do folclore, também aquelas populares baseadas nas lendas folclóricas e ainda as apenas populares, feitas por ótimos compositores. Ouvir e conhecer música assim diferente foi essencial para escolher o que e como fazer a minha obra.

A senhora conta que, quando começou a cantar, era uma quebra de tabu cantar com a voz grave. Como foi para a senhora impor sua voz de contralto? Chegou a reconsiderar a adaptar sua tom de voz para o que mais usual para uma mulher cantora naquela época?

Minha voz é contralto absoluto. Cheguei a ouvir no começo da carreira que eu ia perder a voz em poucos anos porque aquele jeito de cantar não existia. Bom, estou aí beirando os 90 anos já e não perdi a voz. Nunca adaptei a voz a modismos. Nem mesmo quando a bossa nova e a Jovem Guarda pediam outra moda. Segui o caminho que quis.

A senhora conta que, muitas vezes, soube de lançamentos de discos seus, inclusive no exterior, dos quais não tinha o menor conhecimento nem recebeu pelas vendas. Em algum caso, a senhora chegou a tomar providências jurídicas?

Realmente isso aconteceu. Mas se você assinava um contrato na época, estava sujeito a isso. Nunca processei ninguém porque acho que isso não ia adiantar. Queria mesmo é que as pessoas conhecessem minha música. Mas, hoje em dia, o caminho é ser independente. Cuidar do processo do começo ao fim. Você tem mais controle da obra.

Existe uma febre do dito 'sertanejo universitário'. O que a senhora acha dessa febre? Ela afasta ou pode aproximar o público da música de raiz, caipira?

Sempre digo que são coisas muito distintas. É claro que há público para o que chamam de sertanejo universitário e também para a música caipira. Isso é evidente. Mas são coisas absolutamente distintas. Caminhos que não se cruzam pela música. Acho que quem gosta de música caipira não escuta automaticamente o universitário. E vice-versa. Cada um faz suas escolhas. A que eu fiz e batalho é pela música caipira: moda de viola, catira, cururu, toada, pagode e tantos ritmos que temos.

No livro, a senhora comenta sobre o problema que teve com Tom Zé durante entrevista no Roda Viva. Por que a senhora acha que Tom Zé não gosta da senhora? Vocês chegaram a conversar depois disso?

Nossa, isso faz tanto tempo. Nós nunca conversamos depois disso. Sinal também que não houve nada grave. Naquele momento, houve esse desencontro. Respeito muito o trabalho dele e acho que ele respeita o meu.

Como foi para a senhora receber a notícia de ter sido eleita para a Academia Paulista de Letras? Já se preparou para assumir a cadeira?

Fiquei emocionada, com certeza. A proposta da candidatura veio do poeta Paulo Bomfim, meu amigo há anos. Fico fez de ver que o folclore e a relação da música com as letras ainda encontram eco entre os intelectuais. Minha ideia é trocar experiências lá na academia. Ainda não decidi a data para assumir, mas conversei com o Paulo de tentar coincidir com meu aniversário de 90 anos, em março do próximo ano.

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