Bruno Nicola/FotoRepórter/AE
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'Não me arrependo de nenhuma vírgula', diz Ed Motta

Ao falar com exclusividade ao 'Estado' sobre as repercussões ao que escreveu a respeito de seu público no exterior, cantor diz que teve trechos editados nas redes e que só lamenta o fato de ter respondido com agressividade

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2015 | 15h12

Ed Motta vive há uma semana sob incessante bombardeio por ter escrito em suas redes sociais que não falaria português em seus shows na Europa e não cantaria a música 'Manuel' por lá, além de se referir a uma parcela de sua plateia no exterior como formada por uma turma mais “simplória” que nunca o acompanhou no Brasil, “público de sertanejo, axé, pagode, que vem beber cerveja barata com camiseta apertada tipo jogador de futebol, com aquele relógio branco...”. 

O Estado o entrevistou na manhã desta sexta-feira, dia em que fará a primeira apresentação depois de toda a polêmica, na casa de espetáculos Terra da Garoa, em São Paulo. Ed disse à reportagem ter tido trechos de seu texto original isolados nas redes para torná-lo mais polêmico. Ele não se arrepende “de nenhuma vírgula” do texto original, reafirma seu incômodo em ter de cantar 'Manuel' sobretudo no exterior e faz analisa mais a fundo sua plateia. Ao mesmo tempo, pensa que precisa parar de se expor como se fosse um menino de 15 anos de idade. “A forma como eu me expresso é um troço completamente contraditório com o meu comportamento. Isso deve vir dessa frustração, de eu achar que não sou reconhecido como merecia”.

O que houve com você, já deu para entender depois de uma semana?

Olha, os trechos que foram parar nas redes foram editados pelas pessoas. Eu dizia, no original, que quem ia aos meus shows, o público brasileiro que me acompanhava, era um público mais culto, mais informado. Isso foi retirado e as pessoas espalharam um texto do tipo: “Ed Motta não quer mais cantar em português, o público dele é culto, é europeu.” Uma coisa muito maldosa e não verdadeira, porque não foi isso que eu escrevi. Qualquer pessoa que pegar meu texto original e ver o que foi espalhado pelo País inteiro vai ver que não corresponde. Me pegaram pra Cristo.

Mas, considerando agora o texto inteiro, contextualizado, você não acha que errou?

Assim que postei o texto, a resposta àquilo que eu escrevi foi muito ruim, as pessoas começaram a me escrever de forma agressiva. E meu grande erro foi a forma como eu respondi a essas pessoas, escrevendo coisas lamentáveis das quais não me orgulho. Mas do conteúdo original do meu texto, não me arrependo nem de uma vírgula. O conteúdo original tem um quê de ironia, de brincadeira, não tem esse aspecto raivoso, de ódio. Se tivesse ódio, o texto seria diferente. Não iria falar do cara que vai beber cerveja barata com camisa apertada e relógio branco. É uma idiotice, mas é uma brincadeira, uma ironia. Isso representa, na verdade, de 5% a 10% do meu público. Esse brasileiro que vai gritar “Manuel”, nome de time - você entrou no palco, o cara grita “Flamengo” - isso é uma minoria. De fato, juntando com as respostas desagradáveis que eu dei, acho que errado mesmo foi colocar isso pra fora.

Falar português fora do Brasil é um incômodo?

Veja, você está em um show em Roterdã (Holanda) e o cara grita: “Fala em português!” Por que eu vou falar português em Roterdã? O Brasil tem esse complexo. No Brasil jamais poderia surgir um A-Ha (banda norueguesa), um Scorpions (alemã) ou um ABBA (sueca). Afinal, esses são grupos de países mais abastados financeiramente que têm o inglês como uma segunda língua. Mas o Brasil tem essa coisa de que você tem de carregar a cultura do seu País. Eu sou grato a tudo o que o Brasil me deu, mas eu não sou um representante da cultura brasileira de forma alguma.

E 'Manuel', será que as pessoas sabiam que o incomodava tanto?

E me incomoda há 20 anos. Só que a minha relação com ela, no Brasil, é respeitosa. Canto 'Manuel' em todos os meus shows. A minha relação com 'Manuel' está resolvida. Só coloquei ela ali porque fazia um estereótipo daquela pessoa sem informação, que nunca foi meu público no Brasil. Nunca tive no Brasil  esse público extremamente popular e, mesmo quando meu primeiro disco saiu, eu estava naquela cena do rock Brasil. Meu público é o mesmo dos Titãs, Paralamas, Kid Abelha, não era do axé, do sertanejo. Então, quando vai essa figura no show é um troço que incomoda. Agora, o 'Manuel' está resolvido. Não é uma música que tenho o mesmo prazer de tocar como, por exemplo, 'Colombina' ou 'Fora da Lei'. Isso é um fato técnico. Em termos de arrecadação, o que segura minhas pontas é 'Colombina' ou 'Fora da Lei', dez vezes mais do que 'Manuel'. Até porque 'Manuel' não foi composta por mim. Mas 'Manuel' toca menos em rádio do que essas duas. A forma como coloquei no texto passou algo esnobe, de eu criticar uma figura popular, e aí virou essa coisa de que eu só fiz 'Manuel' na vida. Aí é jogo de futebol, todo mundo xingando.

Ao falar o que queria, você não deu um tiro no pé? Não duvide de que, agora, pessoas irão aos seus shows só para gritarem 'Manuel'.

Mas isso não tem diferença do que eu venho passando nos últimos 30 anos. Na primeira música, o sujeito grita 'Manuel'. E agora, com esta confusão, o pessoal vai gritar mais 'Manuel' mesmo. Isso porque o brasileiro é um povo irônico, brincalhão, e tudo vira uma grande chacota.

Você vai fazer um show na noite de hoje, na casa Terra da Garoa. Por que não abre cantando 'Manuel' em inglês?

(Risos) Eu não tinha pensado nisso (risos). Cara, vai ser um show mais acústico que tenho feito muito. E 'Manuel' está no roteiro, e eu conto a história de como foi feita a música, de quando o Fábio Fonseca me mostrou ela em um ônibus. A gente ia tocar no Aeroanta. Ele disse que eu sempre fazia esse “uél” com a voz e que seria interessante eu ter algo com o nome de Manuel, usando esse fonema. Eu já toco 'Manuel'. Em território brasileiro, nunca faltou no repertório. Mas quando eu viajo 12 horas de avião em busca de um novo público, de uma nova coisa, eu não tenho vontade de cantar 'Manuel'. Eu tenho 43 anos e a realidade de 'Manuel' está muito distante musicalmente de mim. Felizmente para minha alma, mas infelizmente para minha conta bancária, a minha música avançou.

Você diria que nasceu no país errado?

Acho que não, cara. Porque esse é o país do Tom Jobim. E o Tom Jobim se deu bem pra caramba fazendo música para o mundo inteiro com muita dignidade.

Já li você dizendo que o disco 'Manual Prático Para Festas, Bailes e Afins' (de 1997) não é o disco que te representa. Mas para muitos, é sua grande obra.

Foi o disco com maior investimento, que teve uma máquina de uma empresa como nenhum outro teve por trás. Então, por isso, muita gente vai gostar mais. Como gostaria muito mais de comer em um McDonald’s do que em uma cantina. A cantina não vai ter um quinto da exposição comercial do McDonald’s. E a cantina, que o cara acorda cedo para preparar a massa, fazer o molho, ele tem menos cliente e menor visibilidade. A verdade tem menos visibilidade. Gosto das canções desse disco, mas, na época, ele foi completamente deturpado da ideia que eu tinha para fazer minha música.

O que você aprende com essa história toda?

A gente sempre aprende com nosso erros. Até o próximo erro. Errar é nosso dom mais divino. O que aprendo é que realmente existe uma coisa ruim em minha personalidade que é de me expor de uma maneira ingênua, infantil. Eu me exponho como um menino de 15 anos, mas tenho que ter a responsabilidade de um homem de 43 anos. No fundo, tem muito a ver com meu dia a dia, um cara que fica em casa o dia todo ouvindo música, fico alheio à realidade mesmo. Gera esse tipo de comportamento colegial de minha parte, me arrependo demais. A forma como eu me expresso é um troço completamente contraditório com o meu comportamento. Como falaram, parece que sou a Odette Roitman. E eu sou super bonachão, de se dar bem com todo mundo. Mas, infelizmente, eu tenho essa praga, ou essa revolta. Pode ser reflexo muito dessa minha frustração, de achar que não sou reconhecido como merecia. 

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