Ana Fuccia/Divulgação
Ana Fuccia/Divulgação

‘Não há mais John Neschling’, diz o maestro Tortelier

Para Tortelier, orquestra deveria saber aproveitar a liberdade que hoje desfruta

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

06 de novembro de 2010 | 06h00

Leia abaixo trechos da entrevista concedida por Yan Pascal Tortelier ao jornalista alemão radicado em Washington Jens F. Laurson, colaborador de veículos como o Washington Post, o blog ionarts e a emissora de rádio WETA FM. Na conversa, após elogiar o grupo, que define como o melhor da América Latina, dono de "enorme potencial", ele revela descontentamento na relação com os músicos, chamando atenção para a enorme quantidade de "jogos políticos", "pelos quais não esperava ao chegar em São Paulo".

Era pós-Neschling

"Depois do impacto inicial da minha chegada, todos precisamos fazer ajustes. Eles ficaram animados com a saída de John Neschling, que tinha uma relação autoritária com eles. Mas não estavam preparados para outra relação. Meu sentimento é de que há algo especial que podemos fazer juntos. Mas minha função agora é colocar a orquestra de volta nos trilhos. A turnê é parte desse desenvolvimento, vai catalisar a relação. Acredito que os músicos vão se sair bem na Europa e com o tempo vamos fazer alguns ajustes."

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Dificuldades técnicas

"A questão é que minha relação é tão diferente da que Neschling tinha. A Osesp tinha com ele uma relação de pai e filho, foram acostumados a ter alguém cuidando deles o tempo todo, ajudando a resolver cada problema técnico. Eles precisam entender que não há mais Neschling. Eu espero que respondam às minhas expectativas, mas nem sempre isso acontece, talvez tenha algo a ver com o repertório. Há peças que saem de primeira, outras exigem trabalho maior. Preciso ficar pedindo a eles que ultrapassem as limitações técnicas, quero ir além das notas, mas nem sempre funciona. Espero que sejam profissionais e lidem com as questões técnicas de maneira mais eficiente. Eu parto do pressuposto de que eles estarão prontos quando eu puder ajudá-los a colorir a interpretação. Posso auxiliar em questões técnicas, claro, mas o que quero mesmo é liberdade para fazer música em outro nível. Eu busco uma outra dimensão."

Relação com músicos

"Há certa resistência, relutância, ou mesmo desconforto. Eu me preparei para reger os Choros porque amo o sabor e o charme de Villa-Lobos e queria construir a minha interpretação dessa obra. Sabia que eles já a haviam gravado a obra, uma boa gravação, aliás, apesar de algumas notas erradas, mas cheguei pronto para criar a minha interpretação. Porém, senti resistência da parte deles e tenho que ficar passando por cima disso, o que não me interessa. Eu sei que posso levá-los a uma jornada rica com essa peça, mas eles não entraram ainda no jogo, sei lá por que razões, instrumentais, psicológicas, não sei. Mas tenho esperança de que dê certo, foi assim com outras peças. Com Ravel, Rachmaninoff, Strauss, funciona bem. Mas há autores que são mais difíceis. Preparar obras como o Concerto de Lutoslawski aqui leva mais tempo do que em orquestras como a Sinfônica de Pittsburgh. Mesmo na Rapsódia Espanhola, que, sendo músicos latinos, você imagina que se saiam bem de cara, demoraram muito para criar os coloridos e sabores da peça. O desempenho com a música deles, e mesmo os Choros, me decepcionou."

Futuro da orquestra

"Parte do problema é que eles ainda não se assumiram como uma orquestra madura. Houve muito trauma e não estou certo de que eles se recuperaram. E não há sentido em romper com um regime para voltar a ele. Mas os músicos precisam entender que são responsáveis por seu futuro. Se você tem acesso à democracia, precisa atuar dentro dela. Democracia não é dizer queremos isso ou aquilo, gostamos disso ou daquilo. Não se trata de ficar criticando quem toma decisões por eles mas, sim, de assumir responsabilidades. Se a Osesp quer ser um conjunto internacional, tem que jogar o jogo internacional e não se perder em jogos políticos, que são muitos e pelos quais não esperava quando cheguei."

Jogos políticos

"Há um potencial enorme e eu espero que ele não seja destruído por causa da política. Estou tentando mostrar que, para mim, trata-se de fazer música. Há maneiras diferentes de trabalhar. Neschling fez um trabalho acadêmico com a orquestra. Eu só posso oferecer o meu jeito. E o que quero é fazer música. Sei que há muitos jogos sendo jogados, mas não me interesso por isso. Não quero saber de políticas, de jogos de poder. Tenho falado com os músicos: é preciso olhar além da questão técnica. E vejo que eles reagem, ou me olham, como que procurando um sinal, mas não sei o que esperam de mim! Para eles, ainda se trata de tocar mais rápido, mais devagar, mais curto. Quero fazer música em outro nível."

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