Steven Gullick
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'Não ficamos mais loucos e bêbados no palco', diz Jim Reid, do The Jesus and Mary Chain

The Jesus and Mary Chain, clássico do rock alternativo, toca em São Paulo com disco novo na bagagem; livro lançado no Brasil conta a história da banda

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

27 de junho de 2019 | 03h00

Quando o The Jesus and Mary Chain estourou, por volta de 1985, não era raro que seus shows em Londres terminassem em confusão. Na primeira vez em que a palavra “riot” (tumulto) foi utilizada para descrever um deles, garrafas voaram, equipamentos foram destruídos e o vocalista Jim Reid foi puxado para a porrada no meio da galera. A história está no livro Barbed Wire Kisses: A História do Jesus and Mary Chain, de Zoë Howe, que a nova editora Sapopemba lança nesta quinta, 27 – no único show que o Jesus and Mary Chain faz no Brasil, no Tropical Butantã, em São Paulo. Ainda há ingressos por R$ 240 (com meia-entrada).

Fato é que 34 anos se passaram. “O show mudou bastante, para melhor”, diz Jim Reid ao Estado, por telefone. “Não ficamos mais loucos e bêbados. Naquele tempo, fomos jogados para os holofotes tão rápido que não tive tempo para me ajustar. Sou uma das pessoas mais tímidas que você pode imaginar. Mas aí, de repente, sou vocalista nessa banda de rock n’ roll, e é aterrorizante. Eu queria ser como Iggy Pop, mas não podia, porque simplesmente não tinha aquilo em mim. Então o único jeito que poderia lidar com ser o vocalista era ser totalmente maluco: ficar bêbado, tomar drogas. Por anos, acreditei que esse era o caso. Mas não bebo há dois anos e meio, é diferente no palco. Ainda fico intimidado, mas o fato de estar fazendo isso há tanto tempo e as pessoas continuarem indo ver, devo estar fazendo alguma coisa certa. Agora, me concentro na música e tento aproveitar e me divertir.”

O Mary Chain volta ao Brasil com Jim e o irmão William e o disco Damage and Joy (2017) na bagagem, o primeiro desde Munki (1998) e sétimo da carreira. O novo álbum tem as mesmas intenções do início da banda – “é baseado no fato de estarmos insatisfeitos com as músicas que existem”, diz Jim – mas certamente cede mais espaço para as melodias respirarem, embora elas estivessem presentes desde o começo. 

Precursor do shoegaze britânico, movimento que voltou a ganhar tração nos anos 2010, o Mary Chain ficou conhecido por envelopar as intenções pop em muitas camadas de barulho, influenciando muito as gerações posteriores do rock.

“Não podíamos entender por que tanta música no rádio era música ruim, tudo meio padronizado”, comenta Jim, hoje com 57 anos. “A ideia, naquele tempo, era essa mesmo: colocar músicas boas ali para equilibrar. Nos anos 1960, a rádio pop tocava (I Can’t Get No) Satisfaction, dos Rolling Stones. Ou Revolution, dos Beatles. Nos anos 1980, era Culture Club, Spandau Ballet e todo tipo de coisa assim. Queríamos trazer de volta o que costumava ser, algo com um pouco mais de intensidade. Isso era antes e isso é agora, é o que estamos fazendo.”

É curioso ver no YouTube, além dos “riots” da época, as entrevistas da banda: o carisma vinha da atitude punk misturada com timidez, mas também da certeza sobre o que eles queriam. Em um dos vídeos mais famosos, em 1986, para a TV da Bélgica, Jim dizia: “Não temos nada a ver com o Sex Pistols. Somos um grupo totalmente comercial, de olho nas paradas de sucesso. Nossos competidores diretos são o Duran Duran. Nós estamos tentando fazer o que os Beatles fizeram nos anos 1960”. O entrevistador então pergunta: “Vocês acham que vão fazer sucesso?”. A resposta é curta e direta: “Sim”.

Hoje, Jim ri quando lembrado da situação (“não achava que as pessoas me perguntariam dessa entrevista 33 anos depois”). “Não queríamos apenas competir, queríamos destruí-los”, prossegue, referindo-se aos atos populares dos anos 1980. “Era uma ideia inocente, mas era o que estávamos tentando fazer. Sentíamos que a música que fazíamos era boa o suficiente para tocar no rádio. As pessoas naquela época queriam tocar numa sala em cima de um pub para 25 amigos, acho que todo mundo se sentia meio para baixo por estar numa banda indie. Nós não, queríamos fazer música autêntica e levar para os grandes espaços.”

Em Barbed Wired Kisses, o livro, a jornalista britânica Zoë Howe reúne as histórias de várias pessoas envolvidas com a banda, de Jim Reid a Alan McGee (primeiro empresário do Mary Chain, criador da Creation Records, icônica gravadora da época que depois lançaria o Oasis, que também ficou conhecido pelo relacionamento explosivo entre irmãos). Ela escreve: “(A banda) criou o próprio estilo, nascido de um coquetel de barulho psicótico, letras enigmáticas e levadas em estilo Phil Spector, servido em uma explosão visual de névoa, couro, cabelos revoltos, Ray-Bans, luzes de holofote e silhuetas”. William, o irmão mais velho de Jim, não quis se envolver no livro. 

A relação entre eles está boa, segundo Jim. “Nós nos juntamos em Damage and Joy. Nós nos preocupamos tanto com o que aconteceria lá, mas, uma vez dentro do estúdio, é difícil explicar o que aconteceu. Discutimos, mas pelo menos não estamos tentando matar um ao outro.”

THE JESUS AND MARY CHAIN – 10 ANOS DE POPLOAD GIG

Tropical Butantã. Av. Valdemar Ferreira, 93 – Butantã, São Paulo. 27/6. 20h. R$ 240 / R$ 380.

BARBED WIRED KISSES — A HISTÓRIA DO THE JESUS AND MARY CHAIN

Autora: Zoë Howe

Trad.: Letícia Lopes Ferreira

Editora: Sapopemba (348 p., R$53)

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