Denise Andrade / Estadão - 8/12/2016
Denise Andrade / Estadão - 8/12/2016

‘Não aprendi dizer adeus’

Todas as pessoas da música eram de alguma maneira ligadas a ele, Miranda foi professor de muita gente

Roberta Martinelli, O Estado de S.Paulo

27 Março 2018 | 02h00

Nunca pensei que escreveria essa coluna. Ainda não acredito que o Miranda morreu. Carlos Eduardo Miranda 1962-2018. Todas as pessoas da música eram de alguma maneira ligadas a ele, Miranda foi professor de muita gente. Ele produziu alguns discos que a gente ouve. Miranda era um baita de um contador de histórias. E mais precioso que isso, ele era o grande criador das histórias que ele contava. Um grande cara para a música, uma criança sempre, um carisma ambulante, um pai apaixonado pela família, uma pessoa que vai fazer falta.

Toda vez que a gente entrava junto em um avião ele me dizia: “Fica tranquila que comigo não cai”, sabendo do meu medo de voar. Todo mundo no meio musical tem uma coleção de lembranças com ele. E, na maioria das vezes, com ele cuidando, ensinando, divertindo... Miranda era bem “coraçãozudo”, encantou nossas vidas e nossa música com discos do Cordel do Fogo Encantado, Skank, Raimundos, além disso fez muita coisa boa acontecer como a cena de Belém, a cena de Porto Alegre nos anos 80, os independentes dos 90. 

E se tem um lugar que eu indico para que você saiba do que eu tô falando é o filme Sem Dentes – Banguela Records e a Turma de 94. O documentário foi dirigido pelo jornalista Ricardo Alexandre e leva o nome do selo da gravadora Warner. De todas as histórias que o Miranda me contou, e eu adoraria contar para vocês, a maioria está lá como a não contratação do Planet Hemp pelo Banguela: “Porque se pegarem vocês com maconha e formos soltá-los, vão prender nós junto, véio. Vocês têm que estar numa gravadora com uns caras de gravatas para soltar vocês”. Então assistam. 

Outras mais recentes, não. Uma vez, a cantora e compositora Luísa Maita me convidou para ouvir o disco dela antes do lançamento. Fui ao estúdio em que estava gravando, cheguei lá e era ela, o Zé Nigro (produtor), eu e o Miranda. Entramos no estúdio, ele logo sentou na cadeira perto do computador e deu play. A música começou, ele fechou os olhos e começou a passar pra frente.

Luisa ficou em pânico, achando que ele estava odiando. Quando acabou ele disse: “Passei pra frente porque eu durmo se ficar parado ouvindo qualquer disco inteiro, mas gostei demais”. Quando ele saiu, a Luisa me perguntou: “Ele não gostou né?”. Eu respondi: “Ele gostou. Miranda falaria se não tivesse gostado, pode ter certeza!”. Esse era ele. 

Ano passado, apresentamos juntos o Festival Bananada em Goiânia. Eu fiquei em dois palcos e ele em outros dois, mas no último show ele me chamou e disse: “Entra comigo para a gente encerrar juntos”. E assim foi! Queria poder encerrar essa coluna com ele, mas fica aqui minha homenagem. 

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Novas Famílias 

Faixa que dá nome ao 21.º disco da Marina Lima, que saiu na semana passada. Artista ligada ao seu tempo, envolvida com o Brasil, crítica com o que nos tem acontecido. Artista mesmo – arte é também nos preocupar com o discurso e seus desdobramentos na história. 

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