Nando Reis lança seu terceiro álbum solo

Em 1995, o baixista dos Titãs,Nando Reis, empreendeu seu primeiro vôo-solo, lançando o disco12 de Janeiro, no qual mostrava que tinha mais afinidadescom a MPB do que com o hard rock, elemento predominante do somda sua banda. Foi bem-sucedido, e arrebanhou admiradores entreintérpretes como Marisa Monte, Cássia Eller e Carlinhos Brown.Em agosto de 2000, cinco anos depois, Nando lançouPara quando o Arco-Íris Encontrar o Pote de Ouro, um discoproduzido em Seattle, na antiga meca do grunge, e que buscavauma fórmula menos sombria da MPB e mais próxima de um popinternacionalizado, assobiável. Passou quase batido.Pode-se dizer que seu terceiro disco-solo, Infernal...but there Is still a Full Moon Shining over Jalalabad (WarnerMusic Brasil) é um pouco daquilo e um pouco disso, um mix deduas coisas. Começa com Infernal, um rock sujo, cheio deanfetaminas de metais dissonantes (trumpete, sax e trombone) e aguitarra do convidado Tom Capone. Em seguida, repassa grandessucessos de Nando gravados por outros músicos, como E.C.T. eO Segundo Sol (megahits de Cássia Eller).Lulu Santos, papa das canções pop brasileiras, dá umtestemunho sobre o trabalho do colega, e é bastante feliz aodefinir que, do ponto de vista do acabamento, é "um rascunhão,uma coisa feita para tirar uma vasta chinfra, tocar com a bandaantes que ela vá embora".Há de fato um sentido de jam no disco, que mostra Nandocomo um músico melhor, um cantor mais treinado (mas não menosestranho, estridente). Ele é um letrista interessante, que nãocria imagens demasiado pretensiosas e que vive de um certononsense cotidiano - caso da letra de E.C.T. (dele, de Browne Marisa Monte), que fala de um carteiro que abre uma carta porengano e depois se apropria dela para fazer uma canção norádio.Ele monta o repertório também como uma espécie de linhaevolutiva do seu trabalho na música, incluindo desde seuprimeiro grande sucesso com os Titãs (Marvin, uma versão dePatches, de R. Dunbar e G.N. Johnson) aos seus próprioscampeões do rádio, como Me Diga. E também evidencia as boasparcerias, como Resposta, do repertório do Skank (encetadade mãos dadas com Samuel Rosa).Agradável, quase como um luau de amigos numa praia,Infernal oferece ao fã quase tudo que um disco ao vivopoderia oferecer, mas sem as armadilhas da encenaçãonaturalista.Interessante comparar os trabalhos-solo dos Titãs, quetem sido uma das principais bandas brasileiras desde o iníciodos anos 80. Paulo Miklos e Arnaldo Antunes parecem trilhar umcaminho limítrofe, uma coisa entre o alternativo e o popular - eisso tem a ver com a sua militância naquele nicho artístico quebusca a chamada multimídia.Já Nando Reis e Sérgio Britto sugerem que são maisinfluenciados pela canção comercial clássica brasileira, aquelatradição que começa com Sérgio Murillo, evolui com a JovemGuarda e deságua em Jorge Ben Jor e Lulu Santos. Os quatro,quando estão fora dos Titãs, exacerbam essa fidelidade. Às vezeserram, mas às vezes acertam, como é o caso desse disco de NandoReis. Livre da ambição da perfeição, que só fazia estrago (overso é dele), Nando manda bem.

Agencia Estado,

24 de fevereiro de 2002 | 15h04

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