Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

Nando Reis fala sobre a carreira e a parceria com Cássia Eller

Cantor, que faz quatro shows em São Paulo, também aborda sua relação com a morte: 'Já passei por maus bocados na vida'

Entrevista com

Nando Reis

João Paulo Carvalho, O Estado de S. Paulo

19 de fevereiro de 2015 | 03h00

Nando Reis é fúria, amor, entusiasmo, perfeição e timidez. Tudo junto, no mesmo pacote. Avesso à tecnologia, o cantor e compositor odeia ser tachado de romântico e detesta o rótulo de hitmaker. "É engraçado porque as pessoas acham que para subir ao palco você precisa ser um sujeito extrovertido. Não é verdade. Eu não curto tocar com músicos que eu nunca vi na vida. Odeio jams. Não gosto nem de fazer e nem de ver. Acho chato", afirma. Aos 52 anos, pai de cinco filhos, e casado pela segunda vez com a mãe de quatro deles, o músico não esconde seus medos. Fala abertamente sobre a morte, os problemas que teve com as drogas, o alcoolismo e a saída conturbada dos Titãs. "Eu gosto da vida. Poucas são as pessoas que morrem sem perceber. É um privilégio. Como todo ser humano, possuo alguns medos. Tenho fobia de elevador. Apesar disso, nunca acho que vá acontecer algo. Sou um cara otimista, mas já passei por maus bocados", diz. Em entrevista ao Estado, o músico, que faz quatro apresentações em São Paulo, no Sesc Pompeia, a partir do dia 26 de fevereiro, lembra com carinho de Cássia Eller, sua parceira mais intensa. "Eu adoraria ver a Cássia cantando qualquer coisa hoje em dia, principalmente algo escrito por mim. Acho que muitas músicas que escrevi depois da sua morte ficariam perfeitas naquela voz. Eu ainda penso: putz, a Cássia ia adorar cantar essa aqui".

Você vai fazer 4 shows no Sesc Pompeia a partir do dia 26 de fevereiro. Trata-se de um projeto diferente. São apresentações mais intimistas, com voz e violão. Como foi a escolha do repertório?

O show com voz e violão é sempre uma coisa mais intimista. A ideia é que o artista apresente no palco aquilo que está habituado a tocar na sua sala de estar. Embora essa seja uma ideia um tanto quanto utópica. A minha relação com o violão e a música, por exemplo, não é exatamente na sala de estar. Eu não sou uma vitrola que fica tocando sem parar. Deduzo que essas apresentações simulem coisas que aconteceram dentro da sala de estar e não exatamente o que tocamos na sala estar. Até porque eu mais ouço do que toco. Eu fiz a escolha do repertório com a Sofia, minha filha, e ela escreveu um texto apresentando a ideia do show. Há, portanto, uma relação com aquilo que compus a partir do que escutei. A Sofia, com muita felicidade, diz neste texto que eu me sinto mais à vontade para tocar no palco do que na sala de estar.  O palco, sim, é o lugar onde eu tenho uma relação intimista. Quis aproveitar essa oportunidade rara de fazer uma temporada de quatro shows na sequência. Eu não sei qual foi a última vez que pude tocar por quatro dias seguidos no mesmo teatro. A capacidade de concentração da plateia é muito maior. Não é como um show aberto. O repertório é prévio e ainda não está fechado. Estou experimentando coisas, fazendo a ponte entre composições minhas e músicas que me influenciaram e despertaram algo dentro de mim. Canções nas quais eu utilizei algum resíduo para compor. Músicas que usavam técnicas e sequências harmônicas importantes para a minha carreira. As pessoas vão se surpreender.

O repertório prévio da apresentação é bem interessante. Beatles, Janis Joplin e Bob Marley. Pretende fazer alguma modificação?

Na verdade, eu não sei se vou tocar isso em todos os dias. São canções que eu apresentei no pré-repertório. Pretendo apresentar duas músicas inéditas no final de cada apresentação. Não gosto de fazer sempre a mesma coisa. Evidentemente o corpo básico das apresentações será mantido. Vale ressaltar que eu não vou fazer covers. Isso eu já fiz no Bailão do Ruivão. Apresentarei músicas do meu repertório relacionadas a músicas importantes da minha vida, mostrando a relação que elas têm e o quanto me impulsionaram a compor. Sou um sujeito que tem uma espécie de linearidade sonora nos discos que gravo. O que me fez como compositor está muito longe daquilo que as pessoas imaginam. Eu não um cara que uma hora chama um DJ e, pouco tempo depois, tem outra ideia mirabolante. As experimentações que gosto de fazer estão nos arranjos e nas harmonias.

Há motivos específicos para escolher algumas dessas composições?

Todos os motivos são específicos. My Sweet Lord, do George Harrison, por exemplo, é uma música importante para mim. Tocá-la representa toda a admiração que tenho pelo trabalho dele, meu beatle preferido. O All The Things Must Pass, primeiro disco solo do George, gerou um impacto muito grande na minha vida, mesmo não tendo nenhuma relação espiritual e filosófica com ele. Waiting in Van, do Bob Marley, é uma canção lindíssima. Não inspirou All Star, mas as duas composições têm uma densidade dramática similar. Já Kozmic Blues, da Janis Joplin, é uma música que eu amo. Quando ela entra na parte principal, há uma semelhança com o refrão de O Segundo Sol. Kozmic Blues é extremamente difícil de ser cantada. A canção de Joplin possui um excesso de palavras, cacos e improvisos. As músicas, portanto, se amarram. Há uma construção harmônica no repertório deste show. São coisas que vejo e faço junções. Quero mostrar às pessoas músicas que nunca toquei antes.

Como foi se sentar com a Sofia e preparar este repertório?

Quando a gente começou a bolar o repertório do show eu expliquei para a Sofia o que tinha em mente. Mostrei a ela as relações entre as músicas e o que queria fazer. Há evidentemente um cunho biográfico e cronológico nas canções que serão apresentadas. O roteiro do show tem uma ordem lógica. Não necessariamente dos discos que lancei, mas da minha vida.

Mesmo após todos esses anos de carreira, você ainda é uma pessoa introvertida?

Não mudou. Subir ao palco e sofrer assédio do público em geral não alteraram em nada a minha natureza. É engraçado porque as pessoas acham que para subir ao palco você precisa ser um sujeito extrovertido. Não é verdade. O que me faz subir ao palco é a música. Isso me motiva. A relação com a plateia pressupõe algo anônimo. Embora as pessoas que estejam ali conheçam meu trabalho artístico, elas não sabem quem eu sou. Elas não convivem comigo. Eu não curto tocar com músicos que eu nunca vi na vida. Eu odeio jams. Não gosto nem de fazer e nem de ver. Acho chato. Porque eu também não sou um músico que sabe improvisar. Sou um cara da composição. Minha relação com a música tem um campo da organização. Eu gosto das coisas organizadas para poder criar. Não tenho vocabulário, técnica e competência instrumental suficiente. Tanto que eu componho sozinho. Mesmo com os parceiros, eu não gosto de sentar com eles e escrever. Para que eu me sinta apto no palco eu preciso estar muito próximo de mim e esquecer os outros.

Você se sentia oprimido nos Titãs?  Algo parecido com que George Harrison sofria nos Beatles diante dos gênios John Lennon e Paul McCartney?

Ninguém nunca havia me perguntado isso. Eu mesmo não tinha parado para pensar nesta comparação. Eu não estava cercado de tantos gênios assim. Nunca me senti ofuscado. A questão ali de ser tolhido era de outra ordem. Eu não sou um cara competitivo. Aliás, o meu trabalho era muito melhor do que muitas das coisas que foram gravadas por eles. Eu sou tão genial quanto os outros 'gênios' dos Titãs. Eu fui tolhido, sim, por outros motivos. É, entretanto, uma coisa complexa. Me aborrece um pouco falar sobre isso porque pode soar como ressentimento. E eu não tenho. Mas jamais me senti ofuscado por gênios.  Até porque nunca existiu nenhum George Harrison e Paul McCartney na minha banda (risos).

Como é sua relação com os outros membros do Titãs?

Ótima. Eu estou em carreira solo e eles estão na banda deles (risos). Eu adoro o Paulo (Miklos). Ontem mesmo (quinta-feira passada) nós fizemos uma brincadeira no Instagram. Tudo passou. A historia que a gente teve é muito forte. É adorável. A minha relação com eles é predominantemente amorosa. Justamente por isso eu deixei a banda. Eu não queria contaminar mais aquela relação intensamente amorosa com disputas de ego. Era uma espécie de política tóxica. Eu sou mais feliz agora, distante. Até porque eu fiquei 20 anos no grupo. É muito tempo, bicho. Muita história.

Sente saudades dos Titãs?

João, eu tenho saudades da minha mãe, da minha infância e, claro, dos Titãs. Sinto falta de tudo que era bom, mas não é algo que eu não possa conviver. A saudade está presente em todos os movimentos para se fazer outras coisas. É assim que se permite sentir saudades. A felicidade das coisas que eu concretizo faz com que a saudade seja algo bom, não torturante. É como sentir falta de quando eu tinha 19 anos, jogava bola, não tinha ruga e era cabeludo (risos).

Assistiu aos últimos jogos do São Paulo?

Eu vi o jogo do São Paulo contra o Capivariano pelo Campeonato Paulista porque foi aqui no Pacaembu, do lado da minha casa. Ir ao estádio hoje em dia é algo perigoso. Essas torcidas uniformizadas veem, na verdade, uma oportunidade de utilizar sua agremiação para desfilar o ódio. É a força coletiva do anonimato. O indivíduo se aproveita da situação para não ter responsabilidade sob seus atos criminosos. É o local propício para disparar a raiva. É um ambiente coletivo onde a violência, diluída dentro de tantos sentimentos, vem à tona. Eu adoro ir ao estádio. Amo ver gente gritando e abraçar um cara que eu nunca vi na vida na hora gol, mas não consigo mais frequentar. Ficou insustentável.

Qual o maior legado da Cássia?

A Cássia deu voz às minhas próprias palavras. Ela era uma pessoa incrível. Eu me identifiquei com a Cássia desde a primeira vez que nos vimos justamente pela timidez que externávamos. Aquela coisa de não pertencer a nenhum grupo, de não ter patota, de se sentir desconfortável. Foi a partir dela que percebi que não estava sozinho no mundo. Havia uma pessoa que sentia coisas parecidas, ainda mais dentro da mesma profissão. O que nós fizemos juntos, de 1998 a 2001, foi incrível. Um dos maiores orgulhos da minha profissão.

A Cássia disse certa vez que a música era uma fuga da sua incapacidade de se relacionar socialmente. Era bem isso?

Eu posso imaginar que a música tenha tido este efeito na vida da Cássia. Eu também me identifico com isso. A música não resolveu exatamente a minha questão com o mundo porque neste ponto eu talvez não seja tão enclausurado quanto ela parece ter sido. A música, no entanto, amenizou os meus tormentos, antes mesmo de me profissionalizar.

Você disse que não assistiu ao documentário 'Cássia Eller', de Paulo Fontenelle. Eu tive a oportunidade de vê-lo duas vezes. Nas duas ocasiões, o filme foi aplaudido de pé. Nele, você dá um depoimento muito emocionante. O quanto Cássia faz falta em sua vida?

Não tive a oportunidade de assistir ao documentário. Só vi o musical. A vontade de estar com a Cássia nunca passou. Quando ela morreu, em dezembro de 2001, nós estávamos no auge da nossa parceria. Eu disse a Cássia que produziria mais três discos e, depois, ela teria de procurar outro produtor. Sempre fui defensor de que a Cássia era talentosíssima e, por mais que nosso trabalho juntos fosse bom, eu só poderia cuidar de uma pequena parcela daquele furacão. Lembro que ela reclamou. "Só três discos, Nando?". Quando ela morreu, eu já tinha produzido dois. Daí veio o 10 de Dezembro, álbum póstumo, para fechar a conta. Fazia parte daquilo que havíamos combinado. Eu adoraria ver a Cássia cantando qualquer coisa hoje em dia, principalmente algo escrito por mim. Penso que muitas músicas que escrevi depois da sua morte ficariam perfeitas na voz dela. Eu ainda penso: "putz, a Cássia ia adorar cantar essa aqui".

Você acha que toda música é autobiográfica? É o seu caso?

Não. Existem músicas que são inventadas ou falam sobre coisas de outras pessoas. De certa maneira, em qualquer criação, há um traço muito forte do artista. E, indiretamente, ele vivenciou aquilo. No meu caso, todas as minhas músicas são autobiográficas. O disparador de qualquer letra que eu venha a escrever surge com coisas que eu vivi. Tenho uma incapacidade quase nula de inventar. Seria incapaz de escrever uma peça de teatro ou de ser um ator. Eu simplesmente não sei fazer isso. Todas as minhas músicas partem de experiências próprias.

O seu processo de composição ainda é o mesmo depois de tantos anos de carreira?

Ainda é o mesmo. Eu só preciso de um violão, da minha cabeça e do meu coração. Eu não faço música em computador. Nunca compus nada pelo Skype. Eu sou basicamente um sujeito que gosta de estar ao lado do seu instrumento. O processo todo se dá a partir disso. Raramente eu escrevo letras antes, embora meu trabalho com o Samuel Rosa, do Skank, funcione assim. As coisas acontecem juntas. Não existe nada melhor do que pegar um violão nas mãos.

Você não é um cara muito adepto às novas tecnologias? Ouve música por streaming? Deezer? Spotify?

Eu nem sei o que é isso, cara. Em casa, eu só escuto música no vinil, que felizmente voltou ao mercado. Comprei um iPod no ano passado e já nem me lembro mais como colocar músicas nele. Deve ser simples, meus filhos podem me ensinar. O lugar onde mais gosto de ouvir música é no carro. Não existe ambiente melhor. Meses atrás eu penei para conseguir tirar a maldita música 'automática' do U2 do meu celular. Aquilo é uma desgraça, principalmente de manhã.

Como você enxerga a morte?

Eu faço muitas coisas para amenizar o impacto do tempo no meu corpo. A morte em si não me assusta. Morrer faz parte da vida, é algo natural. Mas, a meu ver, há uma diferença gritante entre morrer e estar morrendo. O estar morrendo significa ficar doente e isso eu não quero, claro. Eu gosto da vida. Poucas são as pessoas que morrem sem perceber. É um privilégio. Como todo ser humano, eu possuo alguns medos. Não gosto de altura. Tenho fobia a elevador. Apesar disso, eu nunca acho que vá acontecer algo. Eu sou um cara otimista, mas já passei por maus bocados com drogas e álcool. Quase estive do outro lado.

NANDO REIS

Sesc Pompeia.

Rua Clélia, 93. Tel.: 3871-7700

Dias: 26, 27 e 28/2, às 21h, e 1.°/3, às 19h.

R$ 15 a R$ 50.

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