Jedson Nobre/Divulgação
Jedson Nobre/Divulgação

Naná Vasconcelos e as estrelas do maracatu

Percussionista rege 600 batuqueiros e homenageia a mais antiga nação na abertura da festa no Recife

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

12 Fevereiro 2010 | 05h00

Este ano, nada de Caetano Veloso, Marisa Monte ou Maria Bethânia. As estrelas da abertura do Carnaval Multicultural do Recife são de outra grandeza. Naná Vasconcelos, que há nove anos vem administrando com inteligência e dedicação o encontro de diversas nações de maracatu, para esta edição agregou mais 3 além das 14 dos anos anteriores. Decidiu, com a direção do carnaval recifense, homenagear as duas mais antigas agremiações culturais daqui: a Nação Maracatu Estrela Brilhante de Igarassu, fundada em 1824, e a Tribo Canindé do Recife, de caboclinho, criada em 1897. Coincidentemente, as duas agremiações têm mulheres no comando. Dona Olga no maracatu e dona Juracy no caboclinho.

 

Sob a batuta do percussionista, cerca de 600 batuqueiros fizeram o último ensaio anteontem no Marco Zero, onde voltarão hoje, abrindo a festa, depois de seguir em cortejo pelas ruas do Recife Antigo. Em entrevista depois do ensaio geral, Naná disse que essa homenagem "é necessária" porque o Estrela Brilhante é de outro município e nunca pôde participar da abertura do carnaval recifense. "Por outro lado, essa nação de maracatu tem uma originalidade que nenhuma outra tem. Além do baque, eles têm uma maneira diferente de tocar. Não se sabe bem porquê nem como, é o único maracatu que usa o bacalhau, uma vareta normalmente usada na zabumba que toca baião, xote. Isso faz com que o acento rítmico deles seja bem funk, parece coisa de James Brown."

 

Tanto no maracatu como no caboclinho, as sucessões de dirigentes se dá entre membros da própria família, sempre na base da amizade e do compadrio. Dona Olga vem da linhagem de africanos que vieram ao Brasil no tempo da escravidão. "Então eles lutam muito lá em Igarassu para manter viva essa cultura, que estava prestes a desaparecer", conta Naná. "E graças a esse evento eles renasceram e hoje estão aí quebrando barreiras. Você vê universitários de classe média participando, mulheres e crianças tocando. Antes não podia. A acho isso muito importante."

 

Os caboclinhos não tiveram a mesma projeção nacional e popular do maracatu, principalmente depois do advento do mangue beat. "Eles não são muitos e fazem muito sacrifício para se manter. E é uma coisa única de Pernambuco também", afirma Naná. Ele espera que com maior visibilidade, a partir dessa homenagem de hoje no carnaval, eles tenham a mesma repercussão do maracatu. "Espero que o público em geral procure saber melhor da história deles, que vêm espiritualmente não dos orixás, como o maracatu, mas da Jurema, dos índios, dos caboclos e caboclas. Essa cultura vem da selva, vem dos índios. Os banhos de ervas, os incensos, o respeito à natureza, a medicina que sai da natureza. Tudo isso tem a ver com os caboclinhos, é muito sério e profundo, e são coisas que os brasileiros não sabem muito. A parte africana é mais conhecida."

 

Anteontem, Juracy Simões era uma das mais empolgadas pra subir na passarela na frente do palco, onde vai atuar hoje encarando a multidão em vocal-solo. Aos 64 anos, ela diz que foi gerada dentro do caboclinho e sempre ouviu da avó e da mãe que "mulher nunca, aqui é dominado por homens". Mas estava bem preparada quando aceitou o desafio de ser a primeira mulher a presidir a agremiação. Para ela essa homenagem no Marco Zero é bastante significativa. "Estou muito feliz, mas minha felicidade seria maior se minha mãe, que já sei foi, estivesse aqui. Guardei durante oito anos um vestido que usei na passarela do Canindé, quando fui campeã, pra usar de novo numa ocasião especial que fosse dedicada ao Canindé."

 

Dona Olga não pôde ir ao ensaio final nem o Estrela Brilhante, porque tinha uma apresentação agendada numa cidade do interior. Esse, aliás, é um dos pontos cruciais na evolução dos maracatus por orientação de Naná, que nunca incorporou o maracatu em seu trabalho musical: formar pequenos grupos para poder viajar fazendo shows. Naná também nota que a rivalidade entre eles já não é tão radical como no início de sua atuação com eles. Este foi, afinal, seu grande desafio: congregar as diferenças entre as nações de maracatu. Em seu papel agregador conseguiu o impensável antes. Hoje, além dos batuqueiros e dos homenageados, participam da festa de abertura o Grupo Voz Nagô, que vai entoar loas de maracatu e o versátil trompetista Maestro Forró.

 

O repórter viajou a convite da organização do evento

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