Nação Zumbi lança 1º CD sem Chico Science

Na edição deste mês da conceituada revista musical britânica MOJO, há uma matéria sobre o grupo pernambucano Nação Zumbi, apesar de ele nunca ter tocado na Inglaterra. Diz o texto: "um pequeno lapso de concentração em 2 de fevereiro de 1997, tirou Chico Science deste mundo, quando seu carro derrapou e bateu em um poste perto de sua cidade natal, Olinda. Como Bob Marley ou Kurt Cobain, ele é visto pelos fãs como uma força da natureza retirada tragicamente cedo de um planeta que mal merece suas dádivas". E continua: "os dois álbuns feitos por Science e sua banda, Nação Zumbi, deram uma sacudida na cena pop brasileira de meados dos anos 90, fundindo estilos tradicionais - coco de roda, ciranda, baião, embolada - com funk, hip hop, reggae e heavy metal. Ao contrário dos Wailers ou do Nirvana, a Nação sobreviveu ao choque da morte de seu fundador e faz um trabalho de igual potência." Nada mal para um observador à distância (Marc Starr), que conclui chamando de mangroove o movimento manguebeat, ou manguebit, como queriam os artistas pernambucanos que divulgaram o manifesto mangue em 1991. Chico Science e Fred 04 (líder do mundo livre s/a) estavam entre eles e se tornaram os grandes ícones do movimento. Especialmente Science por seus versos cortantes, embasados pelas levadas hipnóticas dos tambores de maracatu da Nação Zumbi. Isso levou a banda a um reconhecimento nacional (Gil, Alceu Valença, Elba Ramalho e Paralamas estão entre os muitos artistas que trabalharam com eles), seguido por um sucesso que ultrapassou fronteiras (o New York Times elegeu o álbum de estréia do grupo, Da Lama ao Caos, como um dos dez melhores de 1995). Sem falar do ex-líder do Sepultura, Max Cavalera, que além de convocar integrantes da Nação Zumbi para tocar em seu projeto Soulfly, vive dizendo que a banda poderia estar entre as grandes do rock mundial. Com todo este cacife, é certo que os caras apostaram no novo projeto da banda. Dois anos depois de editarem um disco duplo de remixes (CSNZ), os remanescentes da Nação saem com o CD Radio S.Amb.A, editado pelo selo independente YBrasil - o primeiro álbum inédito após a morte de Science. Por conta de um modo de produção mais livre, o grupo se sentiu à vontade para ousar, misturando a tradição do mangue com diversas vertentes musicais, criando um trabalho regional /cosmopolita. Mesmo nos detalhes, a banda imprimiu sua marca . O S. Amb. A do título se refere ao Serviço Ambulante de Afrociberdelia, organização virtual que reúne os "agentes do samba", na verdade os próprios integrantes do grupo com codinome. Assim, o percussionista convertido em cantor (após a morte de Science), Jorge du Peixe, virou Pixel 3000. O guitarrista Lúcio Maia, o baixista Djangue e o baterista Pupillo agora atendem pelos nomes de Jackson Bandeira, Djeiki Sandino e Fortrex, respectivamente. Quanto a turma dos tambores, Gilmar Bolla 8 se transformou em Amaro Satélito, Toca Ogam em Tocaia e Gira em Mocambo. Com esta "nova formação" e embuído de um pique impressionante, o grupo concebeu Rádio S. Amb. A. como uma bem-sucedida continuação do trabalho desenvolvido com Chico. Desde a faixa de abertura - Do Mote do Dr. Zambohead (o codinome que Science costumava adotar) - até o encerramento com a impagável Del Chifre, há vários momentos de brilho. Com certeza, Arrancando as Tripas e Astromangue/Brasília (parceria de Peixe com Chico) estão entre eles. Fora as participações especiais que vão desde a entidade de ciranda Lia do Itamaracá até o rapper/produtor Afrika Bambaataa (na pauleira de Zumbi a Zulu). Um disco que deve tanto sedimentar a reputação do grupo na era pós- Science, quanto ampliar sua projeção internacional. Não à toa, o CD está sendo lançado também nos Estados Unidos e Europa, além da banda já ter apresentações agendadas em Nova York e Londres.

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