Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Nação Zumbi e Ney Matogrosso se encontram no Rock in Rio para tocar Secos e Molhados

Ensaios já começaram e o 'Estado' esteve no primeiro deles

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2017 | 05h00

A principal atração do palco Sunset do Rock In Rio 2017, no dia 22 de setembro, vai escrever um capítulo na história do festival. O cantor Ney Matogrosso vai se juntar ao grupo Nação Zumbi para cantar um repertório intercalado: músicas dos pernambucanos seguidores de Chico Science, morto em 1997, e outras do grupo Secos e Molhados, trio que concebeu uma das linguagens mais inovadoras defendidas por Ney, Gerson Conrad e João Ricardo entre 1971 e 1974.

Os ensaios já começaram e o Estado esteve no primeiro deles, na tarde da última terça-feira, 7, nos estúdios da Red Bull Station, no centro de São Paulo. Ney dividia vozes com Jorge Du Peixe, vocalista da Nação, sobre uma base que já havia sido gravada pelo Nação horas antes. Eles passavam alguns takes de Amor, música que estava no primeiro álbum do grupo, de 1973, um poema de João Apolinário musicado por seu filho, João Ricardo. O repertório ainda está em formação, mas Du Peixe antecipou o que deve entrar de Secos e Molhados: Sangue Latino, Assim Assado, O Patrão Nosso de Cada Dia e Rosa de Hiroshima estão em um primeiro esboço.

A força do encontro, além de unir duas expressões complementares pela energia cênica de Ney e pelo peso da Nação, está em dois ineditismos: um na parceria e outro em uma decisão. Desde a dissolução do grupo, em 1974, Ney nunca havia feito um show só com o repertório do Secos e Molhados. O episódio final de um conjunto que vivia um momento de glória, quebrando recordes nas vendagens de seu primeiro disco, foi traumático. Ney chegou a ser chamado anos mais tarde para refazer o repertório dos dois discos deixados pela banda, mas sempre se recusou.

Agora, talvez por obra do tempo, foi Ney quem deu a ideia de usar sua passagem pelo Sunset para revisitar o repertório da banda. Quem estava com ele no momento da decisão é Zé Ricardo, músico, compositor e diretor artístico do palco Sunset. “Fomos almoçar, começamos a falar do que poderíamos fazer para o repertório e Ney soltou essa: ‘E por que não fazemos só Secos e Molhados?’”, lembrou, com entusiasmo. “Eu sempre quis trazer Ney para o Sunset, é um artista que sai de si mesmo quando está no palco e essa é justamente a proposta do espaço, tirar o músico de sua zona de conforto.” Mesmo com todo o valor que o encontro pode ter, há uma limitação de festival. Ele não pode passar de uma hora de duração. “Claro que dá vontade de fazer mais.”

Ney falou com o Estado depois dos ensaios de Amor. Tocar com a Nação, ele diz, era um projeto desde a concepção de Atento aos Sinais, álbum de Ney que já está sendo apresentado no palco há cinco anos. “Nós nos vimos primeiro em um programa do Serginho Groisman. Fiquei olhando, vendo como eles tocavam, e pensando em como poderia ser se nos apresentássemos juntos.” O curioso foi que alguns músicos da Nação tiveram a mesma ideia. Ney se movimentou primeiro e fez o convite, mas chegou tarde. Marisa Monte sairia em turnê do disco Verdade, Uma Ilusão com o dínamo do motor da Nação, o baixista Dengue, o baterista Pupilo e o guitarrista Lucio Maia. “Eles pediram para eu esperar por três meses até acabar a turnê de Marisa, mas eu sabia que ela não iria sair do palco em três meses”, afirma Ney.

Nação e Ney seguiram seus caminhos, até que veio o convite de Zé Ricardo. “Eu me vejo no que eles fazem”, considera Ney. “Eu herdei o primeiro disco do Secos e Molhados de meu irmão. Ney é importante para o grupo, tem uma expressão única”, diz Jorge Du Peixe. Questionado sobre onde acha que a Nação pode contribuir na música já tão bem formatada do Secos, ele comenta: “É na psicodelia deles que entra a Nação. Vai ser um desafio, não sabemos o que pode acontecer no estúdio”.

Os traumas de 1974 parecem ser passado. Aquela foi uma época conturbada. Os jornais guardam matérias que narram uma das dissoluções mais turbulentas da música brasileira moderna. João Ricardo era uma espécie de líder do grupo. Concebeu a proposta e musicou poemas do pai João Apolinário para, logo depois, chamar Gerson Conrad e Ney Matogrosso para darem forma às ideias. O sucesso absurdo de um grupo que lotava o Maracanãzinho, colocando 30 mil pessoas nas arquibancadas e deixando 90 mil para fora, e que vendia mais de 700 mil cópias de um disco, não poderia mais ser considerado modismo. Ney, rompendo com os comportamentos de palco, se transformava em um animal que os militares não sabiam como domesticar. Se rebolasse quatro vezes, pediam que diminuísse para três. Chico Buarque e Aldir Blanc ouviram agentes jurando que ele seria “o próximo torturado da lista”. Mas Ney não se calou.

O dinheiro do Secos e Molhados entrou, ergueu coisas belas e as destruiu com uma velocidade igualmente espantosa. Quando saiu o segundo disco, em 1974, não existia mais banda. Ney e Gerson desabafaram à imprensa sobre as mudanças internas promovidas por João Ricardo. Depois de chamar seu pai, João Apolinário, para empresariar a banda e ganhar um quarto do que o grupo recebesse, propôs, segundo entrevistas da época, que Gerson e Ney não fossem mais sócios, mas contratados do grupo. Gerson relatava um surto de raiva de João nos bastidores, depois que o grupo tocou sua versão de Rosa de Hiroshima, poema de Vinicius de Moraes musicado por Conrad, em um bis por duas vezes. Dizia que João Ricardo não admitia que alguém fizesse sucesso maior que o dele.

Ney saiu do grupo dizendo-se leve como há muito não se sentia. E ficou a obra. “Eu não sou desses (de guardar mágoas). Canto as músicas do Secos e Molhados porque aquilo também me pertence.”

CeeLo Green vai fechar palco no dia 23 de setembro

O empresário Roberto Medina diz que está ficando difícil de fazer festival apostando em superstars. Isso porque os nomes que podem encher locais com capacidade para mais de 50 mil pessoas estão cada vez mais raros no mundo. Segundo as suas estimativas, eles não são mais do que 20 em todo o planeta.

Talvez esteja aí a razão que faz com que alguns nomes sempre retornem à Cidade do Rock. No que já se sabe sobre o line up de 2017, no entanto, não há grandes repetições. A confirmada mais recente foi Lady Gaga, que fará seu show dia 15 de setembro, o primeiro dia do projeto. O festival será realizado entre este dia, 15 de setembro, e 17 de setembro e, no fim de semana seguinte, entre 21 e 24 de setembro. Um nome de última hora que é anunciado nesta sexta-feira, dia 10, é o de CeeLo Green, que vai se apresentar no dia 23 de setembro, fechando o Sunset.

Os outros nomes, alguns que já estiveram pelo Brasil recentemente, são Aerosmith, Maroon 5, Red Hot Chili Peppers, Bon Jovi, Billy Idol, Ivete Sangalo, Fergie e 5 Seconds of Summer. O ineditismo no elenco deixou de ser uma busca de Medina desde que ele mudou o foco de sua festa, apostando na Cidade do Rock como um parque de diversões para a família, e não apenas em um festival de música.

A Cidade do Rock também mudou de local. Depois de três edições sediada em Jacarepaguá, o espaço se muda para perto dali, no Parque Olímpico. A produção informa que a nova estrutura tem quase o dobro do tamanho. “Depois dos shows no Sunset, você vai poder andar até o Palco Mundo sem trânsito, passear por uma Rock Street ainda mais boêmia (com lago artificial e tudo) e curtir tudo o que o Rock in Rio pode oferecer”, anuncia um comunicado no site do festival. Outras promessas falam também de uma infraestrutura sempre sensível, o acesso e a limpeza. “As operações também vão melhorar, facilitando o acesso de pessoas com mobilidade reduzida, aumentando a limpeza e permitindo um número maior de banheiros.”

Os ingressos para o festival só começam a ser vendidos a partir do dia 6 de abril. O preço ainda não foi definido pela organização.

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