Vladimir Zivojinovic / AFP
Vladimir Zivojinovic / AFP

Na Sérvia, músicos estão sem alternativas por causa da pandemia

Projetos, como do grupo Dingospo Dali, foram interrompidos pelo coronavírus, que afetou a indústria da música

Jovan Matic, AFP

10 de agosto de 2020 | 09h44

Em Belgrado, em uma antiga gráfica que se tornou uma grande espaço para o rock independente, o grupo Dingospo Dali ensaia, embora às vezes sem vontade. Seus projetos foram interrompidos pelo coronavírus, que afetou a indústria da música.

"Perdi muitos trabalhos como músico e engenheiro de som", conta Nikola Vidojevic, de 33 anos, baterista desse grupo de rock. "A pandemia interrompeu tudo".

O grupo toca em um estúdio com vista para o rio Sava, em uma antiga gráfica e casa de edição chamada BIGZ, onde muitos artistas ensaiam e gravam.

Essa obra arquitetônica dos anos 1930, que até a dissolução da antiga Iugoslávia abrigou uma das maiores gráficas dos Bálcãs, foi nos últimos 15 anos um templo do rock independente e um centro de arte alternativo.

A existência da BIGZ ajuda os artistas, para quem a precária situação de um país onde o salário médio é de cerca de 450 euros, se tornou insustentável por causa da pandemia. 

Segundo o Instituto de Estatísticas, cerca de 57.000 pessoas trabalham no setor cultural. Essa indústria representa entre 3,4% e 7,1% do PIB sérvio, segundo o site serbiacreates.rs.

Invisíveis 

A maioria dos músicos sérvios não tem outra fonte de renda, conta Nikola Jovanovic, dono de um espaço de edição e organizador de shows.

"Fomos ao Ministério da Cultura, ao da Economia e à Câmara do Comércio e não tivemos resposta", conta. 

A Câmara do Comércio informou à AFP que examinará "todos os aspectos da crise" para buscar soluções, ainda que admite que o lucro por direitos autorais reduziram em cerca de 50% neste ano.

"O festival não acontecerá"

"Pela primeira vez em 20 anos, não haverá festival", lamenta Zdravko Vulin, da direção do Exit, evento que teve Manu Chao e The Cure entre artistas da programação, e que estava marcado para julho, posteriormente adiado para agosto, até que foi cancelado por causa da pandemia.

Milhares de empregos estão ameaçados, alerta. E pede ajuda pública, similar a feita pelo Reino Unido ao setor cultural. 

Alguns músicos já estão desempregados. Sreten Kovacevic, de 63 anos, diretor da Audio-konstruktor, responsável pela construção dos cenários do Exit e Nisville, demitiu sete dos seus oito funcionários. 

"É uma catástrofe para toda a indústria", afirmou à AFP Ivan Blagojevic, de 60 anos, diretor do festival de Nisville,  onde o público já ouviu artistas como Candy Dulfer e Tony Allen. 

O empresário gostaria de poder organizar o festival em setembro, mas a forma como a pandemia evolui não deixa espaço para esperança. 

Por semanas, a Sérvia apresentou mais de 400 casos diários e contabiliza mais de 600 mortos. 

A cantora do Dingospo Dali, Sandra Vidojevic, de 31 anos, é pessimista: "Saí do emprego para me dedicar à música, talvez não devesse ter feito isso", relata a ex-funcionária da companhia aérea Etihad.

 

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