Eric Rahal/ Divulgação
Eric Rahal/ Divulgação

Ná Ozzetti volta-se para o Norte

Cantora fala sobre novo disco, no qual realiza parceria com músico da região

Lauro Lisboa Garcia - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

02 de outubro de 2013 | 19h53

Primeiro, foi uma certa influência de Luiz Tatit sobre o paraense Felipe Cordeiro. Depois, a união de Dante Ozzetti com a amapaense Patrícia Bastos. Agora, é Ná Ozzetti quem estabelece nova relação da chamada vanguarda paulista com a música do Norte do Brasil. Sua parceria inédita com João Gomes (Os Enfeites de Cunha) é uma das muitas boas surpresas no décimo álbum solo da cantora, Embalar, que será lançado sábado, 5, e domingo, 6, no Sesc Vila Mariana.

Mais novidades que engrandecem o CD são os duetos com outras grandes vozes da música de São Paulo: Mônica Salmaso, Juçara Marçal e Marcelo Pretto. Além de juntar os habituais contemporâneos (Dante, Tatit, Alice Ruiz), Ná também assina parceria inédita com Tulipa Ruiz (Pra Começo de Conversa) e grava três canções de pessoas/artistas que admira: Déa Trancoso (Minha Voz), Manu Lafer (A Lente do Homem) e Kiko Dinucci (que participa de Lizete, parceria dele com Jonathan Silva).

Além do mais, a banda - formada por Dante Ozzetti, Mario Manga, Sérgio Reze e Zé Alexandre Carvalho -, com quem ela divide a produção, é a mesma de seus álbuns anteriores, mas o conceito é outro. Ao mesmo tempo em que o entendimento mútuo dá um certo conforto a esses músicos, sempre surpreendentes, eles vivem procurando novos caminhos. Apesar de a sonoridade ser um tanto familiar, há detalhes diferentes neste trabalho, que puxa para um perfil mais de rock. É notável a evolução sonora.

"Esse disco é uma sequência que começou em Balangandãs, que tem uma sonoridade mais leve, mais brejeira. Em No Meu Quintal, a gente começou a pesar um pouco mais, porque as músicas pediam isso. Nesse, ficamos com muita vontade de mudar um pouco as cores dos timbres, experimentar umas somas para dar mais densidade sonora", diz Ná. "Antes das composições, a gente partiu desse desejo de pesar um pouco mais e deixar a coisa mais rítmica. Comecei a trabalhar nas composições já pensando nisso. Não só eu como o Dante - temos quatro músicas cada um no disco. As outras três sempre tive vontade de cantar um dia."

Para Ná, o que norteou o disco foi a vontade de experimentar outras possibilidades, com os mesmos músicos, usando os mesmos instrumentos, sem partir para outros recursos. "Sérgio foi pesquisar que bombos ele ia usar, mudou algumas coisas da bateria pra poder gravar. O Manga também", conta. "A única coisa que é um pouco diferente e de que senti falta em No Meu Quintal foi a gente ter um pouco mais de coberturas. Neste disco, tem algumas coisas de violino e violoncelo que acrescentam um pouco mais, tem o Ivan Vilela tocando viola em duas músicas. No outro, a gente estava muito fiel à banda. Fiquei com vontade de abrir um pouco mais."

Há três canções que falam de música: Embalar, brilhante declaração de intenções que resume o conceito do álbum, com música de Dante e letra de Tatit, Musa da Música (outra parceria dos dois que Ná canta com Juçara) e Minha Voz (Déa Trancoso), que ela divide com Mônica. Em suma, tudo se resume a uma grande celebração musical. "Fazer música é o sentido da minha vida, e fazer música junto. Estou falando de uma coisa pessoal. Como vai soar para as pessoas é muito maior", diz a cantora. "Do meu lado, o conceito do disco é uma celebração, porque eu pessoalmente não sou uma solitária, comecei minha carreira com um grupo (Rumo) e, mesmo em carreira solo, para mim sempre foi importante agregar as pessoas e trazer o que elas têm para dentro do meu trabalho." Ela apenas fica "meio na direção", mas gosta de ver as performances, como os arranjos acabam sendo elaborados pelas mãos dos músicos. "Acho fantástico, no meio musical, esses talentos que se reúnem e, de repente, uma coisa que era só uma ideia vira uma obra comum."

Os Enfeites de Cunha é o grande diferencial dançante do CD, com partes instrumentais em que se destacam as guitarras bem próprias da música nortista de influência caribenha. Ná confirma que a melodia criada por ela tem mesmo inspiração nos sons do Pará. "Compus já pensando no João Gomes, que nem conheço pessoalmente - coisas do mundo moderno -, mas gostei muito das quatro letras que ouvi dele no disco da Patrícia Bastos e propus a parceria", revela. "A parte das guitarras (introdução, meio e final) foi feita primeiro pelo Dante, depois a banda incrementou. Pra mim, é interessante, porque ela tem duas caras: tem essa parte mais rock -n’-roll bem anos 70, e, aí, entra numa coisa nortista brasileira. Gosto do contraste."

Uma das canções mais belas do disco é outra parceria de Dante e Tatit (As Estações). Há também a presença de dois poetas: o mineiro Makely kA (parceiro de Dante em Nem Oi) e Alice Ruiz, de quem Ná musicou o poemontagem Olhos de Camões, soneto com versos do poeta português que falam de olhos e tem resultado surpreendente.

Ná sempre primou tanto pela unidade sonora como pela coerência temática do que canta, virtudes que honram o conceito de um álbum. As letras, como não poderiam deixar de ser, são outro ponto forte deste trabalho. Pertinentes e provocativas, como em Lisete, que trata de forma bem-humorada da relação afetiva entre duas mulheres, e Miolo (Ná/Tatit), que tem a ver "com a superficialidade que paira hoje" em quase tudo: "Falta língua/ falta o gesto/ frente e fundo e todo o resto". Em suma, falta a educação que "vem da mãe, vem do pai, vem do avô". Ou pelo menos deveria vir. "As coisas não estão muito aprofundadas, acho que tem a ver com a questão do consumo e todo esse conceito", diz Ná. Sua música e sua poesia, enfim, são um conforto porque têm o que falta no miolo mole de tanta gente.

NÁ OZZETTI

Sesc Vila Mariana. Teatro. Rua Pelotas, 141, 5080-3000.

Sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 6,40 a R$ 32.

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