Na ópera, um ano à luz de Wagner, Verdi – e um excelente Britten

Aniversários dos compositores pautaram programação dos principais teatros, de São Paulo a Belém do Pará

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

24 de dezembro de 2013 | 12h28

No ano do bicentenário de Giuseppe Verdi e Richard Wagner, os dois principais expoentes da ópera romântica, seria natural que obras dos dois compositores dominassem a programação lírica. Foi, de certa forma, o que aconteceu. Mas em temporadas que tinham tudo para ser monótonas, houve espaço para surpresas – dentro e fora do palco.

 

Wagner ganhou, das mãos do diretor Caetano Vilela, uma inteligente montagem de O Navio Fantasma, que não apenas recriou a narrativa de modo fluente como investigou no palco do Teatro da Paz o próprio universo de referências do compositor. Em Minas, a Filarmônica fez, em concerto, um impecável primeiro ato da Valquíria, sob regência de Fabio Mechetti. Em São Paulo, também em concerto, Stefan Margita fez um Loge inesquecível em O Ouro do Reno – ainda que o cancelamento da encenação da tetralogia O Anel do Nibelungo tenha sido um presente às avessas no ano do bicentenário do autor.

Verdi, por sua vez, ganhou número maior de produções. Mas a celebração em torno do compositor se baseou em duas características que, de resto, são tendência na relação das últimas décadas entre sua obra e os palcos brasileiros – a aposta em poucos e repetidos títulos; e a criação de montagens pouco ousadas.

Ainda assim, nesse cenário amplo, é possível fazer distinções e resgatar singularidades. A Aida que abriu a temporada em São Paulo conseguiu aliar o corte tradicional com um trabalho mais criativo de luz – e trouxe à cidade, sob a batuta de John Neschling, interpretações memoráveis de Maria José Siri, como Aida, e de Gregory Kunde, como Radamés. Em Belém, Il Trovatore teve no elenco – em especial na presença de Eliane Coelho e Denise de Freitas – e na direção de atores (Mauro Wrona) seus pontos altos. Em Belo Horizonte, Un Ballo in Maschera revelou vozes como a da soprano Elaine Morais, em uma das interpretações mais comoventes do ano, e a regência expressiva de dois novos maestros – Marcelo Ramos e Gabriel Rhein-Schirato; mas merecia uma concepção cênica menos convencional e óbvia – e o mesmo vale para a Aida do Municipal do Rio, em que pese a qualidade da realização musical comandada pelo maestro Isaac Karabtchevsky.

No Teatro São Pedro, ainda precisa ficar claro o papel da Academia de Ópera – e se ela vai se limitar apenas ao fornecimento de elencos alternativos para produções da casa. Tanto o Falstaff, de Verdi, dirigido por Stefano Vizzioli, quanto A Volta do Parafuso, de Britten, porém, foram espetáculos de qualidade indiscutível, seja na concepção cênica, seja na realização musical e, em especial, na aposta em bons cantores brasileiros.

Além de Aida e O Ouro do Reno, o Municipal de São Paulo apresentou montagens de excelente nível técnico e musical de Cavalleria Rusticana, Jupyra e, em especial. La Bohème. Foi o primeiro ano de uma nova gestão, capitaneada por Neschling e José Luiz Herencia. E, com ela, vieram polêmicas, como a discussão em torno do futuro do Coral Paulistano. No debate acalorado, eufemismo para o que às vezes pareceu, com algumas exceções, um enorme bate-boca, duas obviedades pareceram esquecidas: é prerrogativa de uma nova gestão fazer mudanças para implementar um novo projeto – e é direito da sociedade se manifestar sobre elas. No entanto, a postura maniqueísta, que criou mocinhos e bandidos, e o surgimento de perfis falsos em redes sociais, ensinaram uma coisa: por tudo o que tem sido feito nos últimos anos, a ópera brasileira merece um debate de nível mais alto. Não deixa de ser um bom desejo para o ano que começa.

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