Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Na memória de Riachão

Sambista da Bahia, cuja obra poderia desaparecer, já recuperou 61 canções inéditas

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2013 | 19h29

Não larga a boina e está sempre com uma toalha no pescoço. As mãos repletas de anéis, um deles com um microrrelógio como ornamento. Colares no pescoço, muitos colares. Foi office-boy de banco, alfaiate, radialista, malandro, “carpideira” de velório. Compôs a primeira música aos 15 anos, Deixe o Dia Raiar (ou Eu Sei Que Sou Malandro). Eis como ele descreve o fato:

"Ia comprar material de alfaiataria na Misericórdia quando vi no chão um pedacinho de jornal. Eu não tinha estudo, mas conseguia ler. Estava escrito no jornal: ‘Se o Rio não escrever, a Bahia não canta’. Fiquei com isso no juízo. Sempre conto essa história para a imprensa: amanheci aquele dia com uma música na mente”.

E Riachão canta: “Sei que sou malandro, conheço o meu proceder. A turma só é boa para batucar”. Clementino Rodrigues, o Riachão, o mítico autor de Cada Macaco no seu Galho, remanescente do samba baiano, só sabe tocar pandeiro, mas estima-se que tenha composto mais de 300 canções. A maior parte delas existe apenas em sua memória: como só gravou três discos em seus 91 anos de existência, possui bem mais de 200 canções que um dia desaparecerão consigo.

Quer dizer: desapareceriam. Em um esforço hercúleo do próprio compositor, mais de 60 canções inéditas do grande Riachão já foram recuperadas de seu hardware cerebral. Funciona assim: os amigos trazem Riachão de sua casa, em Salvador, Bahia, até um estúdio na Vila Romana, em São Paulo, um grande casarão repleto de ambientes diversos: lounges, jardim de inverno, bar e cafeteria. Os músicos convidam o baiano para fazer aquilo que ele mais gosta: conversar. Como Riachão praticamente só fala por música, eles registram cada nova canção que ele usa para argumentar ou contar histórias. Uma sobrinha anota as letras. Em seguida, levam-no para o estúdio, e ali ele grava a voz.

Fizeram isso duas vezes, a última entre os dias 22 e 24 últimos, uma megablitz dentro das memórias de Riachão. Foi ali que a reportagem conheceu o músico, um encontro do qual a gente não sai impune. O sambista é um tornado artístico, sua presença é a materialização de uma gênese cultural. Nosso equivalente de um John Lee Hooker. Quantas músicas você tem, Riachão? “Menino, eu não sei a quantia. É Jesus quem manda, já vem pronta. Quando apareceu a baleia, fiz música. Quando a onça fugiu, o samba apareceu na hora. A tartaruga de 70 quilos que veio para o nosso Brasil pela água: aí o samba também entrou.”

E a profusão de histórias começa – sem hora para acabar. “Fui conhecido tanto do lado da orgia quanto do lado da tristeza”, conta. “Fui o maior cachaceiro da Bahia. Desconheço quem bebesse mais do que eu. Só igual.” Mesmo assim, sempre foi um homem caseiro, zeloso da família. Teve dois amores. Com Lalinha, teve oito filhos. Com Dalvinha, quatro. “Eram 12, mas dois morreram num acidente de carro.”

Riachão iniciou-se na boêmia quando ia para a “sentinela” (como eram chamados os velórios em seu tempo), porque ali haveria o que comer e o que beber. “Ficava com o defunto até de manhã com mais dois companheiros, Manoel e Pai João. Inventava casos a noite toda só para tomar a cachaça. Mas se você me perguntar, não tenho o que falar da cachaça, porque não me fez mal”, conta o cantor.

Já cantava desde os 9 anos no bairro do Garcia, em Salvador, mas não tinha se tocado que também podia ser compositor. “Eu cantava as músicas do Rio de Janeiro.” Depois de sua primeira composição, aquela que lhe veio por intermédio de um pedaço de jornal, ele passou a falar por música. Durante seus anos de radialista na Rádio Sociedade, chegava todo dia com uma música nova na cabeça, que cantava para os ouvintes.

Quando Caetano Veloso e Gilberto Gil voltaram do exílio, em 1972, mandaram chamar alguns músicos para ouvirem canções que gostariam de gravar. “Eu já estava com minha vida artística resolvida”, conta Riachão, que atendeu ao chamado e foi ao Rio Vermelho para cantar para os baianos. Quando entrou, eles estavam tocando com uns amigos. Gil disse: “Ih, chegou! Olha ele aí! Eu fui macaca de auditório dele!”.

Riachão cantou algumas músicas para os tropicalistas. Quando chegou a Cada Macaco no Seu Galho, foi um auê. “É essa, malandro!”, gritavam os músicos, entusiasmados. Dono de um senso de humor a toda prova, o sambista imita a voz dos colegas tropicalistas.

Uma vez, em meados dos anos 1970, Jorge Amado mandou o cineasta francês Marcel Camus à sua casa para recrutá-lo para um filme baseado na obra de Amado, Pastores da Noite. Acontece que Grande Otelo tinha caído numa bebedeira e Riachão tem o mesmo tamanho e tipo físico do artista.

“Fui encontrá-lo no portão com um facão na cintura e minhas roupas de trabalho. Ele começou a rir. ‘Era isso que eu queria!’, dizia”, diverte-se até hoje o sambista. Ele foi escalado para fazer o papel de Pé de Vento, dono de 400 mulatas. “Fiquei feliz porque seria dono de 400 mulatas, mas aí fui esperar as mulatas no cais e não apareceu nenhuma. Fiquei triste com aquilo”, brinca.

Uma vez, colocaram Riachão e Batatinha (1924-1997) numa espécie de duelo teórico para decidir de onde tinha surgido o samba. Riachão chegou ao local com um violeiro com uma toalha no pescoço, como ele mesmo usa. Batatinha foi instado a dar uma resposta primeiro. “Quando eu me entendi por gente, o samba já estava vindo do Rio”, disse Batatinha.

Riachão esperou sua vez e, em vez de responder, cantou acompanhado do seu violeiro. Depois, veio sua resposta. “O pai do samba é o samba de chula. E o samba nasceu na Bahia, porque o Brasil nasceu na Bahia”, sentenciou. “A reportagem foi embora sem saber o vencedor”, arremata, em seu estilo comemorativo.

Parte de toda a história de Riachão está brilhantemente contada em filme, Samba Riachão (vencedor do Festival de Brasília 2001, em que conquistou também o prêmio do público, com direção de Jorge Alfredo e depoimentos de suas “macacas de auditório” Tom Zé, Caetano Veloso e Gil, entre outros).

O filme resgatou sua figura (a gravação de Cássia Eller de Vá Morar com o Diabo também ajudou), e Riachão foi cantar na Cité de la Musique em Paris. Também esteve em Cuba para apresentar o filme sobre sua vida.

Nem cem filmes condensariam tão rica história. A cantora e produtora Vânia Abreu, que comanda o esforço de recuperação da obra de Riachão no estúdio da Vila Romana, provoca o cantor: “Você fala das mulheres nas músicas como se tivesse feito sempre bem a elas. Sempre lhes presta um favor, mesmo quando é rancoroso e vingativo.” Riachão só dá risada.

O produtor Serginho Rezende, que coordena o trabalho de resgate das canções de Riachão, fica impressionado com a precisão do artista. “Começa a cantarolar e logo vem a música inteirinha. É impressionante”, conta. Já no embalo, eles chamam os músicos, fazem a instrumentação e Riachão bate o martelo. Nada fica para depois.

O sambista tem um senso antigo de lealdade e não é nem um pouco nostálgico. “Tudo melhorou hoje em dia. Só uma coisa é pior: a falta de amor. A distância entre as pessoas. Não vou mais ao carnaval, não é mais a mesma coisa, é cheio de violência. Nego ainda tá brincando carnaval porque a brincadeira faz parte da gente. E que Deus ajude que voltem para suas casas”, afirma.

 

 

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