Na madrugada, à espera dos Stones

Avenida Nossa Senhora de Copacabana para ver Mick Jagger e seus comparsas. ?Vão entrar pelo teatro, pelo teatro!!!?, gritou alguém, e foi aquela correria. Inútil, ele já tinha entrado, segundo o solícito motorista da Mercedes. ?Veio calado, acompanhado apenas de um segurança?, afirmou o chofer, recostado no carro com o pisca alerta ligado e com um Honda preto atrás. Tudo mentira, mas os fãs já estavam exaltados.?Beatles! Beatles!?, começaram a gritar os plantonistas da madrugada stoniana, num protesto extemporâneo. Um outro, mais exaltado, berrou: ?Ozzy, Ozzy!?. Risadas no meio da massa heterogênea que esperava a maior banda de rock em atividade, os Rolling Stones, na madrugada de sexta - estavam ali curiosos insones, profissionais do sexo de Copacabana, alguns bêbados, malandros de praia, turistas sem rumo e jornalistas. Fãs mesmos, daqueles de verdade, que sabem repertório e conhecem a árvore genealógica do ídolo, devia ter um ou dois. Mas, logo em seguida, chega o ônibus que, em tese, traria os outros integrantes dos Rolling Stones. Batedores da polícia militar jogam as motos sobre a multidão, fotógrafos se engalfinham com os PMs, a confusão está armada. Parece bom demais para ser verdade: 43 anos depois daquele primeiro show em Londres, os Rolling Stones estão de novo no Brasil. A multidão, que parece ter crescido para uns 400 circunstantes, agora berra ensandecida: ?Vamos fechar a pista!?, e a muvuca se instala na Avenida Nossa Senhora de Copacabana.O ônibus estanca no Copa. São 3h37 da matina. Um fotógrafo mais ousado fica empoleirado no teto de um ponto de ônibus. Forma-se um corredor polonês de policiais. De óculos escuros, Keith Richards é o primeiro a descer. Em seguida, Charlie ?Granpa? Watts. A seguir, desce Ron Wood, que acena para o povo. Parece que está tudo consumado. Mas aí ele, ele em pessoa, vivinho da silva, o linguarudo-mór, Mick Jagger, desce e acena para os dois lados da crowd. Comoção na avenida, e não foi pelos veteranos da Portela. O motorista Carlos agora tenta contemporizar. ?Era tudo truque, me mandaram na frente para despistar. Imagina se ele vem nessa Mercedes. Não ia conseguir entrar no hotel?, diz o araponga de araque. Mas a vigília não cessa. Já na frente do Copa, entre o palco faraônico e as grades do hotel, os fãs se postam para observar os pontos mais altos do edifício. Marília Lins jura que Ron Wood acenou para ela da sacada da suíte presidencial. Para ela, não para os outros 399. Teleobjetivas na noite, os Stones estão no Rio de Janeiro. Ninguém mais dorme, ninguém mais prega o olho. De manhã, uns garotos aparecem com uma faixa: ?Fora, Lula. Mick Jagger para presidente?. Isso tudo só vai terminar quando eles pegarem o seu jato particular de volta, no domingo, às 20 horas. E ainda tem um show inesquecível, de graça, no meio de tudo isso.

Agencia Estado,

17 de fevereiro de 2006 | 17h26

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