Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Na língua do Tio Sam

Me & The Plant se destaca na mais nova onda de brasileiros que cantam em inglês

Lauro Lisboa Garcia - O Estado de S.Paulo,

18 de novembro de 2011 | 21h00

Desde que o rock foi inaugurado no Brasil, com Nora Ney fazendo cover de Rock Around the Clock em 1955, as tentativas de brasileiros se darem bem no pop cantando em inglês persistem tanto quanto incomodam a pronúncia deficiente e letras que não resistem à tradução. No meio indie, mais na área de composição do que de canto, o fenômeno vem se intensificando, em parte decorrente do intercâmbio nas redes sociais.

Em 2011, o mercado foi tomado por uma enxurrada de CDs de jovens e veteranos, com pelo menos uma faixa na língua do Tio Sam, sejam canções originais ou regravações, mais do que nos últimos anos da década passada. Os xenófobos e puristas podem torcer o nariz, mas a boa notícia é que, embora ainda emulando o estilo de bandas europeias e norte-americanas, há um notável aprimoramento no conteúdo dos autores mais dedicados.

Alguns lançaram álbuns inteiros nesse formato, caso dos cantores Tiago Iorc (Umbilical) e Bruno Santos (Time to Tell), da banda Copacabana Club (Tropical Splash), da dupla Peixoto & Maxado (I Wanna Shoyu) e de Me & The Plant (The Romantic Journeys of Pollen), o melhor dos cinco.

Karina Buhr, Lirinha, Blubell, Anelis Assumpção, Thaís Gulin, Tiê, Mallu Magalhães, Cida Moreira, Jards Macalé, Marina Lima, Pitty, Izzy Gordon, Garotas Suecas, Momo, Marcia Castro, Dan Nakagawa, Filipe Catto, Mônica Feijó e muitos outros gravaram faixas isoladas em inglês.

Há exceções nesses casos, mas no geral quando não é a pronúncia é a música que é equivocada (às vezes as duas coisas juntas) e se dilui no conjunto de boas canções em português desses CDs. Piores são os de covers, como o dispensável Standards (Ian Calamaro) e o pavoroso Zé Ramalho Canta Beatles. Como as investidas equivocadas das axezeiras Ivete Sangalo e Claudia Leitte no Rock in Rio, isso soa como o Beirut cantando O Leãozinho.

Em geral, os cantores ascendentes dizem não almejar carreiras internacionais e justificam o inglês como forma alternativa de expressão. "Made in Rio", Laura Rizzotto morou nos EUA e compõe e canta tanto em inglês como em português. "No início, disponibilizamos versões nas duas línguas no site dela e tivemos uma resposta muito mais positiva para as versões em inglês", diz o produtor Paul Ralphs, da gravadora Universal.

Third culture kids. Há controvérsias. O que pode soar com naturalidade em países europeus que não têm o inglês como primeira língua - até os portugueses David Fonseca e The Gift, que lançaram CDs recentemente por aqui, não têm nada que indique de imediato que eles são da terra do fado -, no Brasil não há essa desenvoltura. Casos bem-sucedidos comercialmente são esporádicos e além do mais cobra-se muito uma certa "identidade" brasilianista. "O Brasil cada vez mais quer ter voz lá fora, mas tem aquela coisa de quinto império de se ufanar da língua portuguesa", diz Vitor Patalano, persona do projeto Me & The Plant, neto de ingleses e amigo de Erlend Øye, do duo norueguês Kings of Convenience. "Na Noruega acho que ele não passa por essa questão."

Meio "cidadãos do mundo", Iorc e Patalano têm em comum a sonoridade baseada no folk-rock, e a opção pelo inglês, que pronunciam cantando sem sotaque aparente, veio naturalmente.

De família gaúcha, nascido em Brasília, Tiago foi morar na Inglaterra ainda bebê e, depois de idas e vindas, mudou-se para os Estados Unidos aos 10 anos. "Sempre acompanhei meus pais e, como eles não são especialistas em música, acabavam ouvindo o que era fácil. E na época tinha muita coisa boa que era fácil - James Taylor, Beatles, Elis Regina. Acho que essa é minha principal influência, não um artista específico, seja americano ou brasileiro."

Advogado e publicitário, o carioca Patalano mora em São Paulo, mas seu lance mais forte com a música o fez ir para Londres em 2007 para cursar produção musical na London School of Sound. Dois anos depois, decidiu se isolar na Patagônia durante um mês com um amigo argentino, Juan Pablo Gariglio, e cada um se comprometeu a compor uma canção por dia. Uma única parceria dos dois, Cordillera Girl, está entre as 13 faixas do sofisticado The Romantic Journeys of Pollen.

Autor de canções melancólicas como as de Iorc, mas mais profundas, Patalano é dono de voz grave e magnética e tem influências de R.E.M., Neil Young, Joy Division, Wilco e Flaming Lips. Para ele, cantar em inglês é mais uma questão pessoal do que estética.

Também influenciado pelo R.E.M., além de Paul Simon, James Taylor e Jason Mraz, Bruno Santos se considera um "third culture kid", ou seja, vive "dentro de uma terceira cultura compartilhada", entre a origem brasileira e a dos outros países onde morou. "Muitas composições do meu novo álbum foram inspiradas durante uma época em que estudei música e songwriting em Los Angeles", diz esse filho de um diplomata e de uma violinista brasileiros.

Na contramão dessa tendência, Bruno Batista lançou um CD e uma canção com o título Não Sei Sofrer em Inglês. "A ideia era prestar uma homenagem à música brasileira e a tantos artistas que me formaram musicalmente, sem intenção de fazer proselitismo ou levantar bandeira", diz o compositor. "Faço parte da geração MTV, ouvi e ainda ouço muita música inglesa e americana, mas a cadência brasileira sempre me disse mais."

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