Marcos de Paula / AE - 10/08/2011
Marcos de Paula / AE - 10/08/2011

Músicos da OSB fazem concerto por salários

Ainda em busca de patrocinadores, fundação não paga há seis meses

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2017 | 20h14

RIO - Aos 77 anos, a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) é só silêncio. O último concerto foi em dezembro de 2016, e não há qualquer programação até o fim de 2017. Os 83 músicos não recebem salário há seis meses, e, recentemente, tiveram também o plano de saúde cortado. No dia 4 de junho, eles farão um espetáculo protesto na Sala Cecília Meireles, no Rio, sob a regência do maestro Roberto Tibiriçá, para o qual estão convidando solistas que fazem parte da história da OSB, como os pianistas Nelson Freire e Arnaldo Cohen.

A pior crise já vivida pela orquestra – a mais longeva do País que seguia em atividade – tem como causa o cancelamento de patrocínios, e guarda relação direta com a crise econômica por que passam o Brasil e o Rio. Foi uma perda atrás da outra. Primeiro, a Vale, a principal mantenedora ente 2013 e 2015, período em que contribuiu com R$ 51 milhões, rompeu o contrato depois de ter seus resultados impactados pelo acidente ambiental em Mariana (MG). Em 2016, a prefeitura do Rio, então a mantenedora mais antiga – apoiava desde 1993 –, cortou seus R$ 6 milhões anuais. A saída do BNDES e da British Gas, por sua vez, resultaram em menos R$ 20 milhões por ano. 

Hoje, o déficit acumulado pela Fundação OSB, que administra a orquestra, chega a R$ 21 milhões. O custeio anual é de pelo menos R$ 20 milhões – em outras épocas, o orçamento batia o dobro disso. Os instrumentistas que têm atividades paralelas conseguem se manter, mas quem trabalha exclusivamente na OSB enfrenta dificuldades, como falta de dinheiro para se locomover e até ações de despejo de suas residências. Também estão sem salários 20 funcionários administrativos.

“Há músicos estrangeiros que retornaram a seus países, por não conseguirem se manter no Rio, e músicos de outros Estados que voltaram para casa. Não temos o básico. A OSB é a única orquestra que leva o nome do País, ela não é do Rio, é brasileira. A cultura é deixada em segundo plano pelos governantes, e esse valor tem que ser mudado”, desabafa a oboísta Maria Fernanda Gonçalves, natural de Espírito Santo do Pinhal (SP), e que já pensou em desistir e deixar o Rio.

“A gente não precisava estar nessa situação. Tinha que ter um projeto de longo prazo, preocupação com o futuro. Como uma instituição de 76 anos não tem um fundo para situações emergenciais? A culpa não é da prefeitura, é do descaso. Temos colegas que dedicaram a vida toda à orquestra e só têm essa fonte de renda”, lamenta a violinista Priscila Rato. “A OSB não pode morrer. As empresas e os órgãos públicos precisam saber que estamos sem salário”, diz o violoncelista Ricardo Santoro. 

Desde janeiro com a missão de reverter o cenário de penúria, Ana Flávia Souza Leite, diretora executiva da Fundação OSB, acredita que boas notícias podem surgir em breve. “Estamos prospectando novos patrocínios e temos ótimas perspectivas. A posição da prefeitura do Rio foi frustrante, mas temos potenciais patrocinadores. A fundação não tem fins lucrativos, então o pagamento de salários depende dos patrocínios e das doações”, explica. “A gente não pode perder os 80 anos de história da OSB, de formação de plateia e de músicos. Não é só entretenimento. As instituições no exterior ficam estarrecidas quando sabem o que está acontecendo”, ela reforça.

Apesar de reconhecer a “importância inquestionável” da OSB, a prefeitura do Rio sustenta que enfrenta um déficit de R$ 4 bilhões e que não tem orçamento para dar continuidade ao patrocínio. Em nota, lembra que os pagamentos foram suspensos ainda na gestão anterior – o ex-prefeito Eduardo Paes chegou a defender a fusão dos músicos com os da Orquestra Petrobrás Sinfônica, também do Rio, para corte de custos. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.