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Músicos clássicos chegam ao mundo digital

Número cada vez maior de instrumentistas prefere usar tablets e laptops em vez de partituras

Corinna da Fonseca Wollheim, NEW YORK TIMES

23 de junho de 2016 | 03h00

Entre as exposições da Academia Real de Música, durante a homenagem ao centenário do violinista Yehudi Menuhin, encontra-se uma única página de uma sonata para violino de Bach. A página impressa está escurecida pelas marcações a lápis de Menuhin, que fixam os contornos de uma frase, a direção dos movimentos do arco, os dedilhados, a velocidade e a extensão de um vibrato: a imagem, em grafite, da interpretação e da arte de um músico.

Peter Sheppard-Skaerved, violinista e estudioso que organizou a exposição, disse: “A página cria uma sensação de ‘redescoberta’ do material, quase como se o uso do lápis pudesse revelar mais, encontrar a mina de ouro que todos buscamos.” Essa busca ainda é fundamental para a arte de um músico clássico, mas hoje existem novas ferramentas: um número cada vez maior de músicos usa iPads e laptops em vez de partituras, especialmente agora que a última geração de tablets tem o mesmo tamanho que uma padrão. E canetas como a Stylus da Apple estão começando a tomar o lugar do lápis e da borracha.

Se, digamos, no decorrer de um festival de verão, uma pianista toca um quinteto que já conhece com um novo grupo, ela pode salvar as marcações interpretativas do grupo em um arquivo organizado, sem ter que apagar sua dinâmica e seu andamento habituais. Um jovem profissional que vai de uma aula para a outra pode registrar múltiplas instruções, tradições e dicas técnicas.

Mas as vantagens das novas tecnologias não estão apenas nas anotações; Sheppard-Skaerved salientou que o advento do lápis grafite produzido em massa, na segunda metade do século 19, coincidiu com profundas mudanças na maneira na qual um intérprete se envolvia com um texto musical. “Os músicos que se beneficiaram da nova ferramenta, capaz de fazer marcações duráveis, mas que podiam ser apagadas, que não prejudicavam o papel, foram os primeiros cuja prática visava a perfeição de execução.”

Que mudanças a nova tecnologia digital irá revelar ou permitir? Conversando com alguns apaixonados pela música clássica que defendem as novas ferramentas e desenvolvedores como forScore e Tonara, descobre-se uma série de progressos. A estrutura tradicional de ensino, de cima para baixo, foi abalada. É cada vez mais tênue a linha entre as esferas de influência acadêmicas e práticas. E a própria noção de um texto definitivo está rapidamente se perdendo – e, com isso, o ideal daquela “perfeição da execução”.

Uma consequência inesperada da mudança digital é que ela trouxe os intérpretes mais para perto de fontes históricas, incluindo manuscritos de compositores. A pianista Wu Han, uma das diretoras artísticas da Sociedade de Música de Câmara do Lincoln Center, disse, em entrevista de Seul, onde estava conduzindo oficinas: “Não é mais como antigamente, quando só havia a informação transmitida pelo professor. Agora todo mundo é detetive”.

Wu tem orgulho de ser uma das primeiras a adotar o iPad e pode listar seus benefícios para o músico itinerante: de acordo com seus cálculos, ela está com 42 trabalhos para os próximos meses. No passado, suas partituras ocupariam três quartos de uma mala; agora carrega uma biblioteca inteira em um tablet. As mudanças de páginas se tornaram discretas graças a um pedal sem fio (Antes, seus inimigos eram as desajeitadas mudanças de páginas; hoje são as salas de concerto chinesas com bloqueadores de Bluetooth). Ela não precisa se preocupar em perder as partituras ou ver o papel se deteriorar ao longo de uma longa turnê. E, em suas aulas, ela rabisca notas para seus alunos em seu tablet, salvando um arquivo separado para cada músico.

Mas o que mais molda suas composições é o trabalho musicológico de vasculhar as primeiras edições e manuscritos atrás de pistas das intenções do compositor. “Antes, precisava encontrar um momento para poder ir para a biblioteca e procurá-las”, disse ela. Mas, agora que fundações como a Beethoven-Haus em Bonn, na Alemanha, estão meticulosamente digitalizando o material, tudo está na internet.

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