Músico Altamiro Carrilho ganha homenagem em show no Rio

Apresentação desta terça contará com participações como Carlos Malta, Cristóvão Bastos e Zé da Velha

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S. Paulo,

12 de maio de 2008 | 17h03

Altamiro Carrilho é dessas pessoas que levam mesmo a vida na flauta. Desculpem a frase feita, o trocadilho manjado, que ele deve ter ouvido centenas de vezes ao longo da existência, mas neste caso faz muito sentido. Aos 83 anos, o músico não só é uma entidade internacional de seu instrumento, como tem uma disposição invejável para demonstrar conhecimento de causa e lembrar saborosas histórias de sua carreira. Ele só não sabe o que o aguarda nesta terça-feira, 13, no show em sua homenagem no Rio, para marcar o lançamento da caixa de CDs Poesia do Sopro, pela gravadora Biscoito Fino. O projeto é uma iniciativa do produtor e ensaísta alemão Andreas Pavel, que morou no Brasil entre os anos 1950 e 1970 e, entre outras atividades, foi responsável pela célebre série de discos-fascículos História da Música Popular Brasileira.  Veja também:Ouça trecho de 'A Galorpe', de Altamiro Carrilho   "Não sei nada desse show, vou aprender um pouquinho lá na hora", brinca. "Não vou levar nem roteiro, vou tocar de acordo com a reação do público. Tem muito artista que não observa isso. Você começa o show e faz mais ou menos o cálculo do aplauso. Toca outra música de um gênero diferente e o aplauso aumenta. Na terceira, você coloca outro elemento diferente. Enquanto isso, o público é que ganha", ensina o mestre, que nunca faz um show com o roteiro pronto. O show desta terça tem convidados do primeiro escalão da música instrumental brasileira, como seu sobrinho Maurício Carrilho (violonista que se tornou músico incentivado pelo tio), Carlos Malta, Cristóvão Bastos, Silvério Pontes e Zé da Velha, Déo Rian e Maurício Einhorn, entre outros. O ano Altamiro não pára aí. Em outubro serão lançados quatro DVDs intitulados A Fala da Flauta, seguido do documentário Canarinho Teimoso, que Anna Sutor dirigiu para o cinema. Apesar de ser um grande chorão (não só no aspecto musical, segundo ele mesmo brinca), Altamiro é um brejeiro da flauta, como Braguinha foi das canções. "Isso é importante, porque todo músico muito compenetrado, muito sério e que vai se meter a tocar música popular não consegue ser vitorioso, justamente por isso. Porque falta aquela brejeirice, aquela molequice, aquela forma de tocar brincando, como se estivesse contando uma piada, uma coisa alegre", ensina. "Eu fui induzido a isso ouvindo músicos de altíssima qualidade: Pixinguinha, Benedito Lacerda e tal. Agora, acho que alguns poderiam ter feito mais, mas é que na época eram muito censurados os instrumentistas que faziam várias variações sobre o tema. Eu queria aprender tudo, era um fominha." Esse ímpeto criativo começou na infância, na terra natal Santo Antônio de Pádua (RJ), desde quando o menino ouviu pela primeira vez num gramofone a flauta de um dos pioneiros do choro, Patápio Silva. Tratou ele de inventar logo a sua, com um pedaço de bambu. Altamiro sempre foi musical, como toda a família. "Minha mãe se chamava Lyra, que é o símbolo da música", lembra ele, bem-humorado. Foi na Lira de Árion, aliás, que ele começou a atuar como instrumentista, tocando tarol. Depois passou a estudar flauta e iniciou a carreira em programas de calouros como o de Ary Barroso.  Sua primeira gravação foi o choro Flauteando na Chacrinha, de 1949. Dois anos depois ele teve a honra de substituir Benedito Lacerda, uma de suas principais referências na flauta, no conjunto regional de Garoto. Desde então, Altamiro acompanhou (e gravou com) grandes nomes da música brasileira, como Vicente Celestino, Orlando Silva, Elizeth Cardoso, Roberto Carlos e Chico Buarque (são dele as inconfundíveis introduções de Detalhes e Meu Caro Amigo), entre inúmeros outros. Apesar dos cantores de estilos diversos que solicitavam seus serviços, ele sempre foi fiel ao gênero que o consagrou: o choro. Lamentavelmente, a maior parte de seus cerca de 120 discos gravados, nunca saiu em CD. Como intérprete de obras alheias, Altamiro diz que sempre toma a liberdade de modificar um pouco o que os compositores escreveram. "Músicos mais sérios, como Antonio Callado, gostavam que se tocassem a rigor, sem acrescentar nada. Mas eu não agüento. Porque às vezes sinto uma frase que se encaixa muito melhor em determinados pontos, do que o que o autor escreveu. Então tomo a liberdade de enfeitar um pouco mais, modificar a linha harmônica, mas sem deturpar a melodia-base. Não faço isso, nem quero que os outros façam comigo." Nesse aspecto, lembra Altamiro, Pixinguinha era "acima de tudo um técnico, um flautista com F maiúsculo, mas também não teve muita liberdade, porque viveu nessa época preconceituosa em que se tinha de tocar exatamente o que estava escrito". É um fato curioso, uma vez que o choro, como o jazz, tem a improvisação como característica marcante. Dentre os segredos de embocadura, ele guarda o episódio intrigante de quando Pixinguinha trocou definitivamente a flauta pelo saxofone. "Sei o que aconteceu, mas não posso contar, senão teria agido errado contra o saudoso Pixinguinha, que tanto me ensinou", diz o mestre. Pixinguinha, porém, superou as pressões, como lembra Altamiro, e criou as famosas variações sobre o tema do Urubu Malandro, que era uma canção folclórica, que as pretas velhas cantavam para embalar o sono das sinhazinhas. "Braguinha, criativo e alegre como sempre, achou por bem colocar uma letra." Por sugestão do próprio Pixinguinha, sobrou para Altamiro gravar no disco Som Pixinguinha (1971) as variações do Urubu, que de tão difíceis só Pixinga tinha tocado. "São coisas que a gente tem de estudar muito, tem a obrigação de tocar bem, porque o autor é bom, ou então não tocar. Aí fui dizer pra ele que teria de ensaiar uma semana." Pixinguinha rebateu: "Que nada, tenho certeza que em dois dias você está tocando. Parecia uma profecia aquilo. No final da tarde do segundo dia já tinha vencido todas as dificuldades." Essa habilidade é inata. Altamiro sempre foi autodidata e contabiliza com uma das glórias de sua vida ter sido reconhecido como um gênio da flauta por outra autoridade maior: o francês Jean-Pierre Rampal. Olhando para a frente, ele reconhece suas influências no jovem flautista paraense Lucas Brasil, de 13 anos. "Disse a ele que é um talento que não pode ser jogado fora. Não pegue em outro instrumento que não seja da família da flauta. Você não pode fazer duas coisas bem feitas ao mesmo tempo." Certo, mestre.  O repórter viajou a convite da produção

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